Lágrimas Salgadas

Lágrimas Salgadas

Por Vanílson Reis

Minhas lágrimas agora
São um riacho profundo
No meu rosto gélido.
As lágrimas caem tão salgadas!
E meus olhos ardem
No calor da dor.
Minhas lágrimas e as suas
São essencialmente uma flor.
Mas quanto sal nessas lágrimas!
E quantas são as lágrimas na dor,
No mundo inteiro, Senhor!
O homem reclama do isolamento
E talvez se arrependa do pecado.
O papa Francisco reza em clausura
Como jamais havia rezado.
Chora a criança dentro de casa,
Que se lembra da escola e do parque.
Mas todos choram agora:
Jovens, idosos e desesperados,
E não sabem da realidade.
O algoz não usa sequer uma bala,
Apenas com uma gotícula de saliva
Extermina milhares de pessoas.
Ele ri de todos nós na rua, na praça
E nos hospitais das cidades.
Veio da China, a galope de Wuhan.
Minhas lágrimas são salgadas,
E muitíssimo frias…
Como o beijo do vampiro da meia-noite.
Mas as lágrimas do povo
Do planeta Terra
Não são diferentes das minhas,
Pois delas nasceram um riacho
De muita salmoura lacrimal,
Que faz doer os ossos do corpo
De cada vítima da selvageria humana.
Minhas lágrimas que são límpidas
No meu rosto ríspido e flácido
Vão se ajuntando ao coração doente
Do povo do Brasil.
As lágrimas mancham o piso da casa
De meus hermanos
Com minúsculas pintinhas de sal e sangue.
Mas as lágrimas salgadas e brasileiras
São iguaizinhas às do resto do mundo.
Meu rosto é um riacho!
Eu me encontro sonâmbulo,
De mãos dadas com o mundo!
As lágrimas escorrem na cara,
E vão desenhando o esqueleto
Do vírus assassino.
De repente as letras sinalizam
O vocábulo das trevas de 2020,
E os olhos dos médicos brilham
Ante a pandemia do coronavírus.

Autor: Vanílson Reis.
Sobradinho-DF. 24.03.2020

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora