LEONÍSIA MOURA: “OLHAR O RIO”

“Olhar o Rio” 

E no fim, tu há de ver
que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não consegue levar,
mas que o rio carrega pra lá e pra cá.
Íris da Selva

Por Leonísia Moura/Jornal Varadouro

A frase que dá título a este texto é da socióloga, professora e militante acreana Jaycelene Brasil, que no seu processo contínuo e generoso de afrobetização, me compartilhou essa metáfora sobre como nós amazônidas – e me coloco nesse grupo como habitante, ainda que não nativa – tecemos nossa existência por entre a maior biodiversidade do planeta.

Infelizmente, quase sempre de costas para os rios que tornam possível nossas vidas, mas com olhos muito arregalados para os “centros” de poder econômico e político que traçam as coordenadas de como e quanto nossos corpos serão explorados pra geração de lucro e de como vamos viver e ocupar nosso universo interior durante as parcas parcelas de tempo em que não estamos trabalhando.

Oi, sumidos que por acaso ainda me lêem por aqui. Este texto começou a me escorrer pelos poros depois que pelo menos umas cinco amizades, todas de fora do Acre, me encaminharam a notícia de que uma jovem acreana, estudante de medicina da Ufac, teceu comentários xenofóbicos contra seu próprio povo em uma rede social. O que pareceria um absurdo, mas será mesmo?

Ou apenas mais uma marca da colonialidade de uma gente que tece sua existência de costas pro rio? Se a gente redimensionar a discussão em escala nacional e encher a boca de Nelson Rodrigues pra colocar em termos de “complexo de vira-latas” será que tudo se torna mais inteligível?

rio acre gaiola milton junior

Fonte: Milton Júnior

Nas suas próprias palavras, Nelson Rodrigues, em 1958, tentava nomear “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Mais de meio século depois, incluindo-se aí quatro anos sob a presidência de gente devota ao Tio Sam, dá pra dizer que o termo pegou entre os setores mais críticos e progressistas do país, né? – Confesso que acho a expressão um bocado elitista, mas vida e texto que segue.

O que me interessa para o momento é ultrapassarmos a noção de que a colonialidade, como mecanismo de dominação econômica, política e existencial, está colocada apenas entre os países do “Sul global” e do “Norte global”, ao contrário, ela necessariamente também se perfaz de maneira interna entre as regiões de um país –

e até mesmo dentro das próprias cidades em suas lógicas de gentrificação e concentração de serviços e lazer associadas a expurgos das populações mais pobres para bairros com cada vez menos acesso a direitos. Isso também é colonialidade.

E o babado das relações coloniais é que elas não operam apenas de fora pra dentro, mas também incutem sob nossas peles um gérmen que nos torna um lar adequado pra hospedar um duplo: o ser colonizado, vilipendiado de seus valores e saberes ancestrais, e o parasita do ser colonial, que, se beneficiando da própria torpeza,

se alimenta das feridas que ele mesmo abriu e aponta que o “norte” para sua cicatrização é agir como ele, falar como ele, se vestir como ele, ocupar a mente com as mesmas coisas que ele se ocupa, transformar a arquitetura de seu lar e de seu rosto tal qual os dele.

O inteligente, o polido, o belo – como dá a entender os comentários da jovem acreana, oriunda de família abastada e influente na política local, ostentando um sobrenome que dá a marca daqueles que vieram de fora para construir suas vidas no Acre em cima da exploração do trabalho braçal e intelectual de vidas empobrecidas pela colonialidade. Como muitos o fizeram e ainda o fazem.

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A nossa acreanidade construída a partir de nossa relação com a floresta, com o rio, a todo momento é “desconstruída” pelo colonizador, o “paulista” (Foto: Paulo Henrique Costa)

A colonialidade no Acre tem até nome específico: seringalidade. Aqui, o nordestino se torna uma raça autônoma que rima com pobreza, violência e apagamento da negritude. O indígena sinônimo de atraso e mais violência. Ambos extremamente explorados, violentados, estuprados e assassinados nas dinâmicas dos seringais.

Reparação histórica? Algumas políticas federais e acesso a direitos em troca de votos na política local, e não nos enganemos, apenas com muito processo de organização e luta dos povos da floresta é que isso se deu!

E também não nos esqueçamos da chegada dos “paulistas”, estes que não vieram de Gaiolas, como os nordestinos, nem foram caçados a dente de cachorro, como os povos originários, e que puderam contar até com terras e insumos pra “desenvolver” o Acre.

Uma política que o estado aprendeu com o governo federal brasileiro ao trazer trabalhadores urbanos e rurais europeus para embranquecer o Brasil, escamoteando a população negra recém liberta do cárcere à falta de empregabilidade formal, à miséria e à criminalização.

Na atual dinâmica da colonialidade interna do Acre, ostentar uma pintura de jenipapo não parece ser tão descolado quanto um chapéu e cinturão de cowboy. E comer carne de caça com farinha pode não ser tão cool quanto um blend de carnes num pão australiano de fermentação caseira, manja?

Quando a moça dos comentários em questão afirma que geneticistas devem ser chamados para estudar as “aberrações” acreanas é com essa memória que ela está dialogando. É com a política racista, muitas vezes fantasiada de ciência, que o Brasil aplica desde que entende que precisa se construir como uma nação, o que o faz de costas para o rio e de olho na organização eurocentrada de mundo.

Mas se a gente se virar e olhar o rio, talvez a gente consiga ver melhor, se ver por dentro, encarar esse duplo de frente, na profundidade do rasgo das feridas coloniais e começar a lembrar das rezas e cânticos ancestrais feitos ao pé do ouvido das folhas de cada ordem.

P.S. Para saber mais sobre seringalidade, procurem João Veras, e para esse duplo em nossa psique colonizada, procurem Frantz Fanon. Leituras para uma vida inteira.

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Rio Acre – Felipe Freire/Secom

Leonísia Moura –  Professora do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul,, pesquisadora feminista e militante de direitos humanos. Um corpo cearense criando raízes na Amazônia acreana. leonisia.mouraf@gmail.com

LEONISIA MOURA INSTA

Leonísia Moura –  Foto: Instagram

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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