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Matadouro Brasil – Notícia sobre um genocídio tropical

Matadouro Brasil – Notícia sobre um genocídio tropical

Bom dia, Zezé.

Neste 28 de junho faz um ano, um pequeno grupo de militantes realizou um gesto simbólico na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Ministério da Justiça: plantou cruzes para celebrar a memória de 56 mil brasileiros e brasileiras mortos pela peste do coronavírus. Ali denunciamos pela primeira vez o caráter genocida das políticas do governo neofascista.

Particularmente no que toca às comunidades indígenas, grupos étnicos específicos, vulneráveis e expostos à contaminação e à morte pela deliberação criminosa dos responsáveis pela saúde pública, que naquele momento, adotava a estratégia da “imunização de rebanho”.  Naquele ato foi lido o poema “Matadouro Brasil”, quando o país completava 56 mil mortos! 

Hoje, um ano depois, choramos mais de meio milhão de avós, pais, maridos, esposas, filhos, vítimas de uma catástrofe que não dá sinais de reduzir seu ritmo. Para que não se apague essa memória e os responsáveis respondam perante a Justiça e a História.

Um abraço,

Pedro Tierra

(Recebido do poeta Pedro Tierra em 22/06/2021) 

Matadouro Brasil

(Notícia sobre um genocídio tropical)

Pedro Tierra

 

Humano não é o impulso 

de partilhar a sorte de alguém, 

cujo rosto nunca vimos, 

mas por algum sinal do sangue 

na parede ou no destino 

reconhecemos irmão?

 

Quem de nós ignora 

que morremos um pouco 

no corpo de quem tomba  

ao nosso lado, alvo de um balaço, 

ou sufoca a caminho do hospital?  

 

Afinal, o que foi feito do berço 

de águas e verdes e afetos 

que imaginávamos cultivar? 

O que foi feito dos sons 

do surdo e do tamborim, 

da sanfona, triângulo e zabumba, 

da viola sertaneja 

que nos acalentaram 

e desenharam o mapa 

dos nossos corações?

 

Devastado pela dor e pelo ódio, 

já não o reconhecemos como o lugar 

que moldamos para nascer e amar 

na geografia afetiva da alma. 

 

A palavra do poeta seja sopro 

sobre a brasa adormecida 

de nossa indignação.

E possa acender as chamas 

da ira diante do intolerável. 

 

Não temer a ira!

A sagrada explosão da ira 

diante do injusto 

é que nos faz humanos!

 

Pergunto aos palácios de vidro 

erigidos pelas mãos 

dos pedreiros candangos:  

que país será construído 

sobre os ossos dos povos 

condenados ao matadouro? 

 

Guarani, Kaiowá, Yanomami, 

Krenak, Cinta-larga, Tikuna, 

Karajá, Suruí, Caiapó, Rikbatsa,

Tapirapé, Kaxinawá, Parakanã, Kamaiurá… 

 

Os Xavante, 

sobreviveram ao fio do facão, 

aos incêndios e aos massacres. 

Às roupas contaminadas com sarampo, 

à ferocidade do latifúndio, 

devorando veredas e buritizais.

Sobreviverão alcançados

pela maldição do vírus 

e pelo silêncio cúmplice dos genocidas?

 

Ouço na Esplanada 

sob o violento azul do inverno 

de nossas desesperanças 

um difuso clamor. 

Que minha voz ecoe o pranto 

das mães Yanomami 

em busca dos corpos 

de seus filhos enterrados.  

 

A morte aqui tem nome e lugar: 

favelas, mocambos, aldeias, quebradas…  

 

O inverno já nos alcança 

enquanto ainda buscamos flores 

da primavera pública que se perdeu… 

vão coroar a tumba dos encantados 

nessa semeadura de cruzes. 

 

Hoje, cinquenta e seis mil mortos, 

sufocados pela peste,

batem à porta do genocida. 

Quem responderá pelas vidas 

que a indiferença 

transformou em lápides?  

 

O holocausto é real. 

Os nomes são reais. 

A dor é real. O luto é real. 

Quem responderá por eles? 

 

Sobre nós o sol 

e o olho do drone. 

O olho do drone não chora, 

não conhece o sal das lágrimas.

 

Registra a morte, apenas:

uma geométrica colmeia de assombros 

cavada no barro vermelho 

do coração do país.  

 

O olho do drone registra o plantio 

para entregar um dia aos segadores 

a sinistra colheita da morte.

 

O país dos abraços 

aprende na dor 

das distâncias medidas, 

um novo idioma de gestos: 

Eu te amo, 

mas não te toco. 

Eu te amo 

e porque te amo 

não te toco.

 

Contra o escárnio, 

que a palavra do poeta 

seja sopro e se faça vento 

sobre a brasa adormecida 

de nossa indignação.

Brasília, 28 de junho de 2020.

 

Pedro Tierra – Poeta da Resistência

Foto interna – Ana Paula Sabino

Indigena parem de nos matar Ana Paula Sabino e1624414800974


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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