MEMORÁVEIS MARGARIDAS 

MEMORÁVEIS MARGARIDAS 

MEMORÁVEIS MARGARIDAS 

Margaridas são flores resistentes e perenes. Representam a leveza do afeto, a força da bondade e a ternura da gentileza. São flores do otimismo, da alegria dos novos começos e dos desafios da renovação. Coloridas, rompem com a intempérie dos tempos brutos em uma sempre marcante presença da esperança da primavera.

Assim são nossas Mulheres-Margaridas, nossas amadas, gentis, bravas e corajosas mulheres de luta. Mulheres das florestas, das cidades, dos campos e das águas; mulheres forjadas, em tempos passados e presentes, na força da resistência coletiva por um Brasil mais humano, mais justo, mais decente, mais feliz e mais solidário.

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Margarida Maria Alves inspira a luta das mulheres camponesas do Brasil. Foto: Reprodução

Assim foi Margarida Maria Alves, uma forte da luta camponesa no solo catingueiro do Nordeste brasileiro. Acossada, ameaçada e, por fim, assassinada pelas forças do latifúndio, Margarida dizia, o tempo todo: “Da luta eu não fujo, prefiro morrer na luta do que morrer de fome”. Marcada para morrer, Margarida morreu lutando.

Brasil afora, ontem e hoje – das guerras de Canudos e do Contestado à guerrilha do Araguaia e, desde então, dos becos das cidades aos grotões do sertão; do azul sereno das águas ao verde profundo das florestas; dos movimentos sociais em defesa da terra, da paz e da natureza, germinaram e germinam centenas, milhares de Mulheres-Margaridas.

Cinquenta e cinco delas estão na exposição “Memoráveis Margaridas”, um poderoso mosaico de sonhos, lutas, mortes, vidas, conquistas e esperanças. São mulheres que fizeram e fazem história, que moveram e movem o mundo. Mulheres que, ao longo de mais de um século, marcaram e marcam a força feminina nas lutas de resistência. 

Capa: Juliana Pesqueira/Amazônia Real/2025. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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