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NARA LEÃO: ESPÍRITO VANGUARDISTA NA ARTE CONTRA A DITADURA

Nara Leão: espírito vanguardista na arte contra a ditadura

Nara Leão foi uma cantora, compositora, violonista, artista plástica e atriz de espírito crítico e vanguardista que contribuiu expressivamente para o surgimento da bossa-nova e da consolidação da MPB como gênero musical.

Por Lucas Souza/MidiaNinja

Nara Lofego Leão, natural do Espírito Santo e criada no Rio de Janeiro, foi uma cantora, compositora, violonista, artista plástica e atriz de grande influência no cenário musical brasileiro. Sua carreira é marcada pelo espírito de vanguarda na descoberta de novos estilos e na reinvenção de estilos existentes, emprestando sua voz a diversos estilos musicais e manifestações políticas. A multiartista foi uma das mais marcantes personalidades na crítica à Ditadura Militar e na defesa da liberdade de expressão e de inovação artística. Ao longo de sua carreira percorreu pela música, pelas artes plásticas, pelo teatro e pelo cinema.

O contexto anterior à carreira de Nara Leão determinou condições no cenário cultural que exigiam o surgimento de artistas de pensamento crítico e atitude vanguardista para que pudessem ser superadas. O período da crise econômica da segunda metade do século XX foi caracterizado pela intensificação progressiva das dívidas externas contraídas com os EUA, em decorrência dos empréstimos adquiridos para suprir os custos da 1ª Guerra Mundial, da queda no preço das commodities e da industrialização acelerada da fase nacional desenvolvimentista.

A dívida insuportável contraída estabeleceu as condições para o avanço expressivo do imperialismo em nosso território, até que este chegasse à sua máxima expressão com o golpe militar de 1964 – momento em que a MPB mais se desenvolveu e demonstrou sua força. A face cultural do imperialismo, que já se mostrava antes mesmo do golpe, emplacou políticas de supressão do potencial cultural nacional, principalmente através da importação e incorporação em massa de produtos culturais estadunidenses. O que restringiu espaços e dificultou fortemente a competitividade dos produtos culturais nacionais,  desestimulando assim, consequentemente, a inovação musical e posicionando os estilos existentes rumo à obsolescência.Nara Leao last.fm

É nesse contexto de urgência por transformação que a importância de Nara Leão se evidencia. A artista realizou três importantes movimentos em sua carreira musical, formadores e transformadores para a cultura nacional, partindo de uma mesma característica de pensamento crítico vanguardista. Estes movimentos, ligados à inovações no modo de pensar e de articular dialeticamente música e política, serão abordados separadamente nos próximos 3 parágrafos que seguem, embora tenham se dado de forma interligada e, por vezes, simultaneamente.

O primeiro movimento se deu ao constituir parte do grupo responsável pela criação da bossa nova: uma mistura do samba – ainda muito rejeitado socialmente, devido à associação à marginalidade e à pobreza – com o jazz norte-americano, o que formou uma nova identidade musical que foi mundialmente aclamada. A exuberância, o glamour e a teatralidade que caracterizavam as expressões musicais hegemônicas até então e distanciavam simbolicamente artista e público foram substituídos pela simplicidade das personas e da voz. Agora, menos projetada e mantendo um diálogo mais dinâmico com os instrumentos. Estes, por sua vez, não mais representados por grandes orquestras, mas por violão, piano, percussão e baixo. 

O segundo aspecto revolucionário de sua carreira marcou-se, principalmente, pela incorporação do samba de morro em suas produções, mas não apareceu apenas nessa manifestação. Direcionar a música popular para caminhos contra hegemônicos, trazer visibilidade para artistas de grande potencial que provavelmente permaneceriam desconhecidos e elevar tendências negligenciadas, ou que não haviam recebido o devido valor, foram atitudes recorrentes ao longo de sua trajetória. O samba de morro, desde sua origem, era desprezado pelo sistema, que negava até mesmo o reconhecimento das circunstâncias materiais e históricas de existência do ambiente originário dessa expressão, em contrapartida da exaltação dos ambientes representativos dos cartões postais.

Nara Leao

Nesse contexto de expressiva marginalização e invisibilização, os artistas periféricos eram impedidos pelas circunstâncias materiais de gravarem seus próprios discos. Nara Leão, que possuía acesso à formas de gravação e distribuição musical, ainda muito privadas à uma minúscula parcela da população, deve ser lembrada como a primeira intérprete a abraçar o samba de morro em sua obra, dando visibilidade a esses artistas em disco.

Pensamentos de vanguarda semelhantes podem ser identificados em outras manifestações: como na escolha de Nara por selecionar Maria Bethânia para substituí-la em um musical, quando a artista baiana, em início de carreira, tinha apenas 18 anos. E, também, com a participação no movimento Tropicália, criado para quebrar todas as barreiras impostas na música e nas artes pelos ditadores e até mesmo pelos intelectuais de esquerda, quando o movimento ainda era extremamente criticado pelos adeptos à MPB.

Ao longo dos anos 60, Nara inicia o terceiro movimento mencionado, quando passa a se distanciar da temática da bossa nova (que privilegiava aspectos como o amor, a natureza, o romance, o sorriso, entre outros assuntos do tipo) e busca se tornar uma cantora de protesto, engajando-se numa maior aproximação com os temas sócio-políticos do país.

Essa mudança foi fortemente influenciada pela simpatização com as atividades do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes e com o pensamento dos realizadores do Cinema Novo. Criado em 1962, o CPC, em seu objetivo de apontar as contradições do sistema capitalista, agiu em função de incentivar, ao lado do povo, a produção artística revolucionária. Para isso, congregou todos os artistas que possuíssem o compromisso de produzir cultura em prol da classe operária.

Apesar de ter sido destruído pela ditadura em 1964, as ideias do CPC seguiram reverberando contra o regime, e influenciaram diretamente o disco “Opinião de Nara”, que, por sua vez, influenciou o musical “Opinião”. Considerado um dos mais importantes da história da música popular brasileira, o musical foi um espetáculo de crítica social à repressão imposta pela ditadura. Ao cantar o samba Opinião, de Zé Kéti, Nara enfatizou o verso “Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião. Daqui do morro eu não saio não…”. 

A artista concede diversas entrevistas críticas à política institucional vigente na televisão e no rádio e uma delas, ao ser publicada, trás na manchete: “Nara é de opinião: esse exército não vale nada.”. Esse momento intensifica a perseguição à artista, comovendo uma legião de intelectuais que saem em sua defesa quando o Marechal Arthur da Costa e Silva ameaça enquadrá-la na Lei de Segurança Nacional.

A multiartista, em sua jornada de constante combate ideológico à ditadura, chega a precisar se exilar fora do país para evitar sua prisão, mas retorna ao perceber que esse risco já não era mais iminente. Nara, futuramente, ainda participaria das comemorações das primeiras eleições diretas, no processo de abertura política, e seguiria firme, mesmo debilitada de saúde, na luta por Diretas Já. 

No dia, 07 de junho, em 1989, nos despedimos de Nara Leão, que veio a falecer muito jovem, com apenas 47 anos, em decorrência de um tumor no cérebro. O peso e o tamanho de seu legado, que contrasta fortemente com o relativamente curto período em que esteve viva, a torna uma das mais significativas artistas da nossa história.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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