O CANCELAMENTO DO FUTURO

O CANCELAMENTO DO FUTURO

O CANCELAMENTO DO FUTURO

“Breve há de ser (sinto no ar) / tempo de trigo maduro”

Thiago de Mello

O CANCELAMENTO DO FUTURO
Créditos: Luiz Marques / Teoria e Debate

No romance O lobo da estepe, publicado por Hermann Hesse, em 1927, o personagem, diante de um casarão burguês, imagina “sob a sagrada sombra do pinheirinho, um lar com móveis de mognos lustrosos e uma vida de respeitabilidade”. A expectativa se ajusta à Conferência de Bretton Woods (1944), quando, ao final da Segunda Guerra, são criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), com as moedas vinculadas – organicamente – ao dólar americano e este, ao ouro.

Até a conversibilidade ser retirada do valioso minério e o câmbio flutuante introduzir a incerteza na economia. Com a porta aberta ao capital financeiro, o niilismo (nihil – nada) subjuga as ideologias que desaparecem do radar político. O contrato social é rasgado e Wall Street passa a determinar as regras do jogo. A partir daí, ampliam-se a vigilância sobre os indivíduos e os ressentimentos coletivos.

O poder do povo transfere-se à plutocracia (ploûtos / riqueza, kratia / governo). A par disso, a revolução digital blinda os monopólios tecnológicos e afasta para longe as regulamentações e a ingerência pública. O desastre anunciado com data centers é encoberto. Infelizmente a injustiça social e ambiental não sai no jornal.

Na esfera pública, a necropolítica se converte no dogma dos gestores neoliberais que se desincumbem do bem-estar na sociedade. Metaforicamente o objetivo é chegar ao neolítico (néos /novo, lithos / pedra). Época em que os humanos começam a cultivar plantas e domesticar animais para dispor de alimentos. Como na canção: “Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para, não, não para”. O retrocesso se instala.

A posição subalterna no sistema-mundo freia a formação do mercado interno de massas, em países em desenvolvimento. O agro mostra-se dependente dos produtos manufaturados. Os valores da igualdade, diversidade e laicidade vão para o lixo. No Brasil, a meta da extrema direita é a submissão ao status quo, com a reprimarização da economia espelhada ainda no período colonial- escravista.

Para Mark Fisher, em Fantasmas da minha vida, se as teletecnologias contraem o espaço e o tempo, a “assombrologia” firma a resiliência ao capitalismo. É preciso corrigir os erros. Na Conferência Mundial de Inteligência Artificial 2026, o presidente chinês Xi Jinping expõe uma alternativa à lógica das megacorporações empresariais: “A IA não deve ser a apresentação solo de um único país, mas a sinfonia de cooperação internacional”. Como se vê, o espectro do planejamento holístico paira ameaçador sobre o livre mercado e o neoliberalismo.

A China surge nos relatos oitocentistas de missionários franceses impressionados com a excelência da cultura chinesa e a ética confucionista, que valoriza a justiça, a benevolência, a sabedoria e a harmonia. A descoberta provoca as comparações. Obriga o hegemon a encarar sua própria loucura: bombardeios na Faixa de Gaza; conflitos deflagrados pelos Estados Unidos; tarifaços de soberba.

Já Luiz Inácio Lula da Silva prossegue “com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” na luta pela soberania nacional. Inspira-se nos partidos humanistas e movimentos sociais: guaridas do direito a ter direitos, o centro da democracia. Consciente de que a questão prioritária, na conjuntura, é evitar o cancelamento do futuro e organizar a esperança militante na manhã.

Conforme Lula, na Assembleia Geral das Nações Unidas, “o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial”. Mais: “A guerra não é a continuação da política por outros meios; é a falência total da política. Ameaçar civilizações de extinção não traz a paz”. E conclui, “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Em contraponto, o falso patriota Flávio Bolsonaro escreve uma carta abjeta às autoridades estadunidenses, assumindo o compromisso de entregar riquezas naturais do país. Pura viralatice.

No século 17, o senhor de engenho Domingos Fernandes Calabar (1600-1635), de início, defende a Terra brasilis. Mais tarde, resolve trocar de lado e se aliar aos holandeses na invasão do Nordeste. O filhinho do papai, a bem da verdade, nunca trocou de posição. Desde cedo, foi um chupacabra do Erário público, e continua a sê-lo com mandatos parlamentares tão medíocres como o do ascendente familiar. A mídia normaliza o escândalo lesa-pátria. Não parece, porém, que os eleitores e as eleitoras farão cara de paisagem aos descalabros sem caráter.

 

LUIZ MARQUES UNICAMP

Luiz Marques 

Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura (RS).

Matéria publicada originalmente na Revista Teoria e Debate – https://fpabramo.org.br/o-cancelamento-do-futuro/ – em 01/10/2026.

 

GOSTOU DESTA MATÉRIA? ENTÃO, POR FAVOR, PASSA PRA FRENTE. COMPARTILHE EM TODAS AS SUAS REDES. NÃO CUSTA NADA, É SÓ CLICAR!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

CONTATO

REVISTA

© 2025 Revista Xapuri — Jornalismo Independente, Popular e de Resistência.