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O dia em que o povo recuperou o domingo!

Por Almerico Biondi Lima 
Desde as marchas da direita e extrema direita defendendo o impeachment , o domingo tem sido o dia escolhido para manifestações do “cidadão de bem”. O argumento da escolha do dia era que “não era dia de trabalho , só vagabundo se manifesta em dia útil”.
De lá para cá , fora o período eleitoral , o domigo pertenceu a eles , e , particularmente durante a pandemia , fomos obrigados a assistir o show de horrores do bolsonarismo, com fortes ataques à democracia e na segunda feira ver estampadas as manchetes , fotos e artigos deplorando ou exaltando tais manifestações .
No domingo passado , 31 de maio , algo mudou. Jovens negros e negras das periferias começaram a se mobilizar . Alguns podem alegar que foi “consequência dos atos antiracistas nos EUA” , mas como a consigna antifascista esteve presente desde o início , prefiro refletir como um grito de basta! , de quem se sente sufocado por um governo fascistóide , genocida que não dá a mínima para as classes que vivem do trabalho.
Duas polêmicas logo se instauraram, uma de caráter político: não seria “cutucar a onça com vara curta” , ou seja dar ao bolsonarismo o “motivo” para dar um golpe certeiro no que resta de democracia ? A palavra de ordem de prudência, as afirmações “que não era hora de ir para as ruas” , “mobilizaçao só depois da pandemia” ignoraram que estas mobilizações de massa tem raiz profunda e não tem “dono”, acontecem por razões objetivas (ter perdido muito ) e subjetivas (o sentimento de não ter mais o que perder).
A atomizacão da mobilização , com inúmeros coletivos e grupos de sociabilidade pré existentes , unidos momentaneamente , longe de ser uma fraqueza , consegue furar a bolha e atingir mais amplamente que até aqui a esquerda institucionalizada tem conseguido . Longe de ser “espontâneo ” , este tipo de mobilização bebe tanto das lutas cotidianas , quanto destila a experiência histórica de resistência presenciada ou contada por pais , avós, que participaram de greves , grandes campanhas de.defesa de direitos , processos eleitorais , etc.
O PT e o PSol acertaram em apoiar as manifestações , oferecendo sua capacidade organizativa no sentido de contribuir para que o povo e suas bandeiras voltem a ser o centro da política.
 
A outra polêmica , foi a sanitária . Não estaríamos sendo contraditórios , já que nos contrapondo ao negacionismo em relação à pandemia , orientamos as pessoas para “ficar em casa”?
Os discursos de jovens militantes esclarece : “se podemos trabalhar , e nos dizem que estamos seguros , por que não poderíamos nos manifestar de forma segura? “. “Estamos morrendo na favela e na periferia , o que temos a perder. Se esse governo continua , vão morrer muito mais!”.
Neste sentido , a distribuição de máscaras , o distanciamento e a recomendação para que os grupos de risco apoiarem por outros meios , minimiza a contradição , pois não se confunde com o negacionismo dos bolsonaristas sem máscara .
Neste 7 de junho , retomamos o domingo, de norte a sul do Brasil. A grande mídia foi obrigada a cobrir e elogiar a organização . Os temores de conflitos apocalípticos não se confirmaram . Ainda assim foi demonstrada a parcialidade das polícias que apenas observavam pacientemente as ações dos bolsonaristas . Em Belém prenderam 112 manifestantes “por violar o distanciamento social” , um dia depois dos shoppings serem reabertos, com longas filas e aglomerações . 4 mil policiais foram mobilizados em São Paulo , incluindo tropa de choque e veículo dispersa multidão .
Como em 2013 (a 1a fase, que lutava contra o aumento da passagem) e 2016 (primavera secundarista , com ocupações nas escolas de ensino médio e profissional, contra a reforma educacional e teto de gastos na educação ), não devemos negar , nem absolutizar o poder das atuais manifestações .Humildemente, temos que aprender com elas , apoiá-las , contribuir para que cresçam e incorporem outros setores , envolvam outras formas de luta , não apenas para derrotar os fascistas , mas para retomar a iniciativa política de um projeto popular de Brasil.
Amanhã , 2a feira, teremos o prazer de ver as manifestações antifascistas no centro dos debates . Afinal , retomamos o domingo e não deixaremos que ele nos seja roubado de novo , lutando todos os dias , até a vitória!

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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