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O lugar do indígena, a terra e a universidade

O lugar do indígena, a terra e a universidade

O lugar do indígena, a terra e a universidade

O saber como território…

Por Helio Carlos Mello/via Jornalistas Livres

Vivemos dias de etnias, povos isolados contactados e já em risco de extinção. Um novo grupo de indígenas foi identificado, no Sul do Amazonas, na região do município de Lábrea. A informação foi divulgada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que criticou também a inércia da Fundação Nacional do Índio (Funai) em relação à proteção do grupo. Com a descoberta, o grupo será o 115º povo isolado a ser identificado no Brasil.

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No vasto país, entre nosso noticiário diário de violações e direitos, os povos indígenas de todos os cantos trazem nova melodia às universidades, num caminhar histórico e constante de sangue e saberes.

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Cidade de Lábrea – imagem pública
País imenso, onde o sertão infinito da conquista é um rolo compressor sobre a terra ausente do Estado e a lei constituída. Onde nasci e resido, no estado de São Paulo, famoso como o rico da nação, onde terra indígena é um quinhão entre latifúndios e canaviais extensos, terras antigas de boiadas e cafezais e tanta sorte de coisas, é onde também resiste o saber indígena que na universidade agora se agrega. São Paulo, outrora entre milhares de aldeias, talvez hoje trace sua mea-culpa.

O vestibular indígena unificado, em sua 1ª edição, entre Unicamp e UFSCar, recebeu quase 3 mil inscritos. A data da prova, inicialmente prevista para o dia 13 de março, está sendo alterada para o dia 27 de março, devido ao contexto da pandemia de Covid-19 e na expectativa de uma diminuição dos casos até o final do mês de março.

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por Unicamp
O site da Unicamp informa que a Comvest (comissão permanente para vestibulares) anunciou uma alteração na data de realização do exame. A prova será aplicada de maneira presencial, em seis cidades do país: Campinas (SP), Recife (PE), Dourados (MS), São Gabriel da Cachoeira (AM), Manaus (AM) e Tabatinga (AM). A cidade de Bauru não atingiu o número mínimo de 50 inscritos e, segundo a Comvest, conforme previsto pelas regras do Edital do processo, não terá aplicação do exame. Os candidatos que haviam escolhido a cidade de Bauru deverão realizar a prova em Campinas.

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por Unicamp
Os candidatos deverão comprovar que pertencem a uma das etnias indígenas do território brasileiro, por meio da documentação especificada no Edital, a ser entregue no dia da prova. Outro pré-requisito é que os candidatos tenham cursado o ensino médio integralmente na rede pública (municipal, estadual, federal), ou em escolas indígenas reconhecidas pela rede pública de ensino ou tenham obtido a certificação do ensino médio pelo ENEM ou exames oficiais (por exemplo, o Enceja) e não tenham cursado nenhum período do ensino médio na rede particular.

Tudo desafia, se dura é a senda indígena, mais vasta é sua mão sobre a gente, nós tão bárbaros no novo mundo, em que dizíamos ser civilizados, tão antigos e perversos numa cultura ocidental ecocida e etnocida.

Há uma sede de ancestralidade e ainda devotos somos em ultrapassada aritmética, fórmulas arcaicas para um país que se afirma sem eira nem beira.

Como sempre diz o pensador Ailton Krenak, nós, os povos indígenas, estamos resistindo ao “humanismo” mortífero do Ocidente há cinco séculos; estamos preocupados agora é com vocês brancos, que não sabemos se conseguirão resistir!

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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