O SAUIM-DE-COLEIRA  E A BIODIVERSIDADE ENCURRALADA 

O SAUIM-DE-COLEIRA  E A BIODIVERSIDADE ENCURRALADA 

O sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) tem um padrão de coloração marcante composta por uma faixa branca de pelos que se estende do peito até o pescoço, formando a “coleira” que inspira seu nome popular. Esse pequeno sagui vive em grupos de 2 a 13 indivíduos, alimentando-se de frutas, flores, néctar, insetos e, ocasionalmente, ovos de aves. À noite, costumam se aninhar na base de folhas de grandes palmeiras, um abrigo natural para cuidar de seus filhotes, que geralmente nascem aos pares, após uma gestação de pouco mais de cinco meses

Por Nicoly Ambrosio

O sauim vive hoje em uma área reduzida a apenas 7,5 mil km² nos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara. A redução de seu habitat natural, impactado pela expansão urbana de Manaus, fez com que a população de sauins fosse diminuída em 80% desde 1997.  

Hoje ele é considerado um dos mamíferos mais ameaçados do bioma amazônico, é classificado como criticamente ameaçado na lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Também foi incluído na lista dos 25 primatas mais ameaçados, que é elaborada por mais de 100 cientistas e conservacionistas desde 2000. 

O sauim é uma espécie exclusivamente florestal, que apesar de suportar sobreviver em florestas perturbadas, precisa de floresta. “Não adianta você ter uma vegetação totalmente introduzida com poucas espécies ou não ter vegetação adequada para essa espécie”, diz o biólogo Marcelo Gordo, professor da Ufam e coordenador do Projeto Sauim-de-Coleira, que monitora a espécie há décadas.

Segundo ele, os sauins vivem em grupos e possuem dois tipos principais de deslocamento: os movimentos diários dentro do seu território, em busca de alimento e abrigo, e os movimentos de dispersão, quando indivíduos deixam seus grupos em busca de novos territórios. “Quando eles estão perto das residências, onde tem quintais, jardins, eventualmente eles vão até essa vegetação dos quintais para buscar alimento. 

Às vezes eles vão ali pegar uma manga, comer bananas que a pessoa plantou e outras frutas que podem ter vindo dos quintais”. Com o avanço urbano e a fragmentação dos remanescentes florestais, os deslocamentos se tornam arriscados. 

Os macacos atravessam trechos da cidade como as avenidas e as ruas, seguindo quintais ou Áreas de Proteção Permanente (APPs) com vegetação, mesmo que pouca, para tentar fazer essas travessias. Dessa forma, a espécie é vulnerável a agressões, atropelamentos, eletrocussão e ataques de cães domésticos. 

A arborização urbana poderia funcionar como uma ponte verde para esses animais. “Quando a gente tem uma boa vegetação nas ruas, avenidas, parques, praças, quintais… esses lugares passam a ser pontos de conexão. Se você não tem conexão contínua, pelo menos você tem uma conexão parcial. São pontos de trampolim, vamos dizer assim”, segundo Gordo.  

Apesar da adaptação parcial ao ambiente urbano, o biólogo alerta para as perdas invisíveis. “A gente vai perdendo animais, vai perdendo grupos. Se antes eu tinha pedaços de floresta de 100 hectares e hoje virou 10, tenho certeza que perdemos vários grupos”, alertou.

Estima-se que restem cerca de mil indivíduos de sauins na zona urbana de Manaus. Em junho de 2024, um Refúgio de Vida Silvestre (Revis) foi criado para preservar o habitat do sauim-de-coleira no município de Itacoatiara, com uma área de cerca de 15 mil hectares. Essa categoria de unidade de conservação (Revis) não impõe restrições ao domínio privado dentro de seus limites, conforme as regras do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). 

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p style=”text-align: justify;”>O SAUIM-DE-COLEIRA  E A BIODIVERSIDADE ENCURRALADA Nicoly Ambrosio – Jornalista. Fotógrafa independente na cidade de Manaus. Escreve sobre violações de direitos humanos, conflitos no campo, povos indígenas, populações quilombolas, racismo ambiental, cultura, arte e direitos das mulheres, dos negros e da população LGBTQIAPN+ do Norte. Excerto da matéria “O colapso das áreas em Manaus”, publicada no Amazônia Real .Amazônia Real .

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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