Onde estão os povos indígenas do Brasil?

ONDE ESTÃO OS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL?

Onde estão os povos indígenas do Brasil?

Quando pensamos nos povos indígenas do Brasil, estamos pensando, diretamente, em diversidade: no território brasileiro existem 305 etnias e 274 idiomas indígenas diferentes, de acordo com o último censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010…

Por Blog da Genera

Assim, toda vez que falamos da cultura indígena brasileira, precisamos ter em mente as culturas indígenas, no plural. Suas tradições, costumes e idiomas podem variar dependendo de cada etnia. E a pluralidade é ainda maior se levarmos em consideração os povos nativos de outros países.

No Brasil, os povos originários estão distribuídos por todas as cinco regiões, em todos os estados. Apesar disso, o número de indígenas é pequeno comparado ao restante da população: eles representam apenas 0,26% dos brasileiros. Isso significa que, em 2010, havia um total de 896.917 indígenas no Brasil (817.963 que se declaravam como indígenas e 78.954 que, apesar de não terem se declarado como tal, viviam em terras indígenas).

Pela expressiva diminuição dos números dessa população desde o período da colonização, os povos nativos e seus descendentes lutam pela preservação de sua história e por sua sobrevivência. No último censo do IBGE, existiam etnias compostas por apenas um indivíduo e idiomas falados por uma única pessoa. É o caso da língua yawalapití, dos moradores do Parque Indígena do Xingu, no norte do Mato Grosso, e de várias outras que se encontravam na mesma situação.

Por esta razão, os grupos indígenas promovem, com frequência, ações pela defesa de seus direitos, como a demarcação de suas terras e políticas afirmativas, e pela conservação e resgate de suas culturas, como aulas de idiomas e o registro de suas histórias.

O que faz uma pessoa ser indígena?

A partir da chegada dos europeus no Brasil no século XV, iniciou-se um grande processo de miscigenação da população brasileira, na época composta integralmente pelos nativos. Além dos colonizadores, chegaram, nos séculos seguintes, diversos povos africanos – trazidos forçosamente para realizarem trabalho escravo – e outros grupos europeus e asiáticos, como italianos, alemães, libaneses e japoneses.

É comum que os brasileiros tenham várias dessas ancestralidades, inclusive de povos nativos, mesmo sem ter conhecimento delas. Entretanto, para ser considerada uma pessoa indígena, dois aspectos essenciais devem ser levados em consideração: o reconhecimento da identidade indígena e o pertencimento a um grupo de origem.

Esses são os critérios adotados pela Fundação Nacional do Índio, a FUNAI, para definir o conceito de indígena no Brasil. Segundo o órgão, não cabe ao Estado reconhecer ou não alguém como indígena, mas sim à própria pessoa ou à comunidade da qual ela faz parte.

De acordo com a Lei número 6.001, dezembro de 1973, que promulgou o Estatuto do Índio, são considerados como indígenas “todos os indivíduos de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional”.

A autoidentificação é, segundo o IBGE, um dos fatores que fez o número de pessoas indígenas aumentar no Brasil nos últimos anos, especialmente entre os que vivem em áreas urbanas. A quantidade de indígenas, que era de 210 mil em 1980, subiu para 400 mil em 2000 e duplicou na década seguinte.

Os povos originários pelo Brasil

Apesar de representarem, no censo de 2010, apenas uma pequena parcela dos brasileiros, há populações indígenas nas 27 unidades federativas do país.

Estimativas sugerem que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, no ano de 1500, a população estava entre 2 e 5 milhões de habitantes. Logo em 1570, algumas décadas após a vinda dos primeiros colonizadores, a quantidade de nativos já havia decrescido para 800 mil pessoas.

A última contagem feita pelo IBGE registrou 817.963 pessoas que se consideravam indígenas (a autodeclaração de pessoas indígenas no censo brasileiro, na categoria de “cor ou raça”, foi adotada a partir de 1991). Além das autodeclaradas, a pesquisa de população somou a esse grupo, também, as 78.954 pessoas que viviam em terras indígenas, totalizando 896.917 indivíduos.

A região Norte, com 305.837 pessoas indígenas, é a principal localidade de origem dos povos originários do Brasil atualmente. Ela é sucedida pela região Nordeste, com 208.691 indígenas autodeclarados, e Centro-Oeste, com 130.494. Os estados com a maior proporção de indígenas são Roraima, Amazonas e Mato Grosso.

Na zona da Amazônia Legal, que engloba a região Norte e partes do Centro-Oeste e Nordeste, a FUNAI contabiliza 114 grupos de indígenas isolados, isto é, populações que não mantêm relações permanentes com outras sociedades, indígenas ou não indígenas. De acordo com o órgão, esse isolamento decorre dos efeitos negativos de contatos prévios com outros povos, como doenças, atos de violência física, exploração de seus territórios e ameaça a suas culturas.   

O censo de 2010 identificou, entre as 305 diferentes etnias que vivem no Brasil, a presença de 274 idiomas. Segundo a pesquisa, 37,4% dos nativos brasileiros falavam alguma língua indígena.

E olha só que legal: no estado do Amazonas, São Gabriel da Cachoeira, cidade com a terceira maior proporção de indígenas no Brasil, tem três idiomas como línguas oficiais, além do português: o tukano, o baniwa e o nheengatu.

Ancestralidade indígena

Os povos originários, ao longo da história, deixaram um importante legado cultural à população brasileira. Além dos costumes e das histórias que foram passados de geração a geração, há influências da cultura indígena até no idioma que falamos.

Estima-se que 80% dos nomes de animais e plantas que utilizamos na língua portuguesa do Brasil venham de línguas da mesma família do tupi. É o caso das palavras capivara, tamanduá, jabuti, caju e capim.

Muito provavelmente, também, o nome de alguma cidade próxima a onde você vive tem origem indígena. A denominação de vários estados brasileiros surgiu a partir de vocábulos indígenas. É o caso do Amapá: o termo viria do tupi ama (chuva) e paba (lugar), “lugar onde chove”. Por sua vez, o nome do estado do Paraná procederia da língua guarani, em que para significa mar e anã, parecido. Ou seja, “parecido com o mar”, em referência ao rio Paraná.

Você sabe se, assim como uma grande parte das pessoas brasileiras, sua família tem alguma procedência indígena? Há como descobrir isso a partir de uma análise do seu DNA. 

Com o Teste de Ancestralidade Global da Genera, você consegue saber todas as regiões do mundo que compõem o seu DNA e, até mesmo, descobrir o caminho que os seus ancestrais percorreram ao longo do tempo. 

Você pode ver em nosso site como os resultados são apresentados. É uma ótima maneira de se reconectar com a história da sua família e de aprender sobre novas culturas.

Referências

Censo 2010: população indígena é de 896,9 mil, tem 305 etnias e fala 274 idiomas

Conheça a origem etimológica dos 26 estados brasileiros

Diagnóstico da População Indígena no Brasil

Estudos especiais: o Brasil indígena

Estatuto do Índio. Lei nº 6.001, de 19 de dezembro de 1973

Índios no Brasil: quem são

O Brasil Indígena

Os indígenas no Censo Demográfico 2010 

Palavras indígenas nomeiam a maior parte das plantas e animais do Brasil

Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato

Quais os critérios utilizados para a definição de indígena?

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“PARA SER ÍNDIO TEM QUE TER JEITO DE ÍNDÍO”

Para ser índio tem que ter jeito de índio. Tem que ter arco, flecha, borduna, cocar, colar de dente de macaco.
Por Timairû Kayabi
Para ser índio, tem que ter sua festa, saber caçar, pescar, fazer artesanato, e, se for casado, morar junto com o sogro.
Fazer roça, plantar, fazer canoa e remo.
Ser tiver festa, tem que dançar para alegrar a família da sua esposa.
Índio tem que ter cabelo comprido, comer as comidas que se encontra, como: macaco, anta, tatu, veado, porco, jacu, mutum, jacamim, tracajá, etc.
Para ser índio tem que comer comida assada no fogo com farinha de beiju, tomar mingau de farinha.
Para ser índio, tem que trabalhar bastante na roça, plantar banana, batata, cará, amendoim, milho, depois tem que colher o que foi plantado.
Para ser índio, tem que bater timbó no lago onde os peixinhos ficam presos. Depois chamar outras pessoas para ajudar a comer os peixinhos que vão morrer no lago.
Para ser índio, tem que fazer tudo o que for.
Timairû Kayabi – Escritor indígena em “Geografia Indígena” – Instituto Socioambiental, 1988.  

SOBRE O POVO INDÍGENA KAYABI

Em sua grande maioria, o  povo indígena Kawaiwete, Kayabi, Kaiabi, Kajabi, Cajahis, Caiabi, composto de um pouco mais de 1.800  pessoas (1855 – Censo Funas/2010) vive em maioria no Parque Indígena do Xingu, no norte do Estado do Mato Grosso.  Existem, também, outros pequenos grupos vivendo  na Reserva Indígena Apiaká-Kayabi, próxima ao Rio Teles Pires, no Mato Grosso, e nas Áreas Indígenas Cayabi (Gleba Sul), no sudoeste do Pará.
Os Kayabi, cuja origem do nome é desconhecida pelos próprios Kayabi,  falam a  língua Caiabi, da família linguística tupi-guarani. O mais próximo da autodenominação, segundo estudos do etnógrafo Georg Grunberg,  que pesquisou os Kayabi nos anos 1960, seria o termo  Iputunuun, que significaria “o nosso pessoal”.  A maioria dos Kayabi são bilíngues, falam também o Português. Os Kayabi que vivem fora da região do Xingu não falam mais a língua nativa.
Os Kayabi tem sua história marcada pelo contato conflituoso com seringueiros no século XIX. Esta situação conflituosa marcada pela resistência dos Kaiabi aos invasores de suas terras, assim como pelo desamparo dos índios na luta por suas terras, modificou-se com a chegada dos irmãos Villas-Boas.
Os Kayabi colaboraram na expedição Roncador-Xingu, assim como no processo de pacificação e desbravamento da região.
Devido ao envolvimento dos Kaiabi na expedição assim como devido aos problemas que os índios enfrentavam na região, em 1966, os irmãos Villas-Boas conduziram a “Operação Kayabi” na qual os Kaiabi foram gradativamente sendo transferidos de avião para o Parque nacional do Xingu. Os Kayabi são exímios artesãos, especializados na produção de belíssimas peneiras.
Fontes: pib.socioambiental.org   prodoclin.museudoindio.gov.br  pt.wikipedia.org

kaiabi_5Foto: socioambiental.org
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KRENAK, O POVO 1CABEÇA DA TERRA’

O nome Krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, significa terra. 

KRENAK, O POVO "CABEÇA DA TERRA"
Dança Krenal na Serra do Cipó – Foto: José Caldas

Por Ailton Krenak
Krenak é a herança que recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como “cabeça da terra”, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra.
Não a terra como um sítio, mas como esse lugar que todos compartilhamos, e do qual  nós, os Krenak, nos sentimos cada vez mais desraigados – desse lugar que para nós sempre foi sagrado, mas que percebemos que nossos vizinhos têm quase vergonha de admitir que pode ser visto assim.
Quando nós falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem: “Isso é algum folclore deles”; quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover e que esse dia vai ser um dia próspero, um dia bom, eles dizem: “Não, uma montanha não fala nada”.
Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista.
Do nosso divórcio das integrações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas, mas a todos.
Tomara que estes encontros criativos que ainda estamos tendo a oportunidade de manter animem a nossa prática, a nossa ação, e nos deem coragem para sair de uma atitude de negação da vida para um compromisso com a vida, em qualquer lugar, superando as nossas incapacidades de estender a visão a lugares …
para além daqueles a que estamos apegados e onde vivemos, assim como às formas de sociabilidade e de organização de que uma grande parte dessa comunidade humana está excluída, que em última instância gastam toda a força da Terra para suprir a sua demanda de mercadorias, segurança e consumo.
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Ailton KrenakLíder Indígena. Pensador. Filósofo. Em “Ideias para adiar o fim do mundo”. Companhia das Letras. 2019.
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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