OS DILEMAS FATAIS DA DIREITA BRASILEIRA

OS DILEMAS FATAIS DA DIREITA BRASILEIRA

OS DILEMAS FATAIS DA DIREITA BRASILEIRA

Entre a fidelidade a Bolsonaro e a busca por novos nomes, a direita segue presa a um impasse que reduz suas chances eleitorais e expõe sua falta de projeto

Por Emir Sader

A direita brasileira, hoje, é bolsonarista. Não abre mão do apoio do seu líder, mesmo sabendo que o nível de rejeição dele a condena, provavelmente, a uma nova derrota.

Claro que se alimenta de pesquisas fajutas, que projetam equilíbrio entre Lula e o filho de Bolsonaro. Mas se sabe que esses dados não correspondem à realidade. Tanto assim que as mesmas pesquisas mostram que Lula derrotaria a todos os seus possíveis adversários, no primeiro ou no segundo turno.

Mas não existe uma direita não bolsonarista, o sonho do grande empresariado, que acreditava que Tarcísio poderia ser esse candidato, mesmo se este reafirma, reiteradamente, sua fidelidade a Bolsonaro.

De repente, surgem nomes que buscam aparecer como de direita não bolsonarista, mas se enfrentam ao apoio que, bem ou mal, o filho de Bolsonaro tem nas pesquisas. Não fica claro se tratariam de promover suas candidaturas agora ou só para 2030, quando julgam que, sem Lula, poderiam ter mais chances.

Alguns até afirmam que não atacariam Lula, para tentar gerar um espaço mais além da polarização Lula-Bolsonaro. Não fica claro ainda se conseguirão abrir um espaço próprio ou se desaparecerão diante da polarização mais forte.

Estranha direita, que se apega a um líder seu julgado, condenado e preso. Mas esse é o seu dilema. Recolher o caudal de votos que Bolsonaro ainda tem, mas se ver condenada, provavelmente, a uma derrota. Ou renunciar a ele, mas ter candidatos com resultados inócuos nas pesquisas.

Esse é o dilema da direita brasileira. Ser bolsonarista ou não? Renunciar a seu líder e ao seu caudal de votos e tender a ser derrotada de novo. Ou tentar projetar novos nomes e gerar um espaço mais além da polarização realmente existente.

No caso da reeleição de Lula, vários nomes pretendem se projetar para 2030, vários governadores, entre eles. Os de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, do Paraná, entre outros.

Mas podem ter que se enfrentar à possibilidade de que Lula logre eleger seu sucessor — desta vez, Fernando Haddad —, como ele já tinha conseguido com Dilma.

Difícil dilema para a direita brasileira, que ainda terá que se enfrentar à sua falta de proposta para o país. Nos debates desta eleição presidencial, defenderão a herança do governo Bolsonaro? Que herança? Vale a pena defender um governo fracassado?

Terão que se enfrentar a um experiente Lula, que pode mostrar as realizações dos governos do PT e, em especial, deste governo, que tem dado certo. Como se comportará o candidato opositor? Tentará negar uma realidade inegável? Ou fará o quê? Com o risco de os debates no horário eleitoral facilitarem a vitória de Lula no primeiro turno.

Emir Sader – Sociólogo. Conselheiro da Revista Xapuri. Matéria publicada originalmente no Brasil 247.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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