Conheci Luís Fernando Veríssimo na casa de seus pais, Mafalda e Érico Veríssimo, no arborizado bairro Petrópolis, em Porto Alegre, em 1974, ao sair da prisão. Fui agradecer a Érico as várias caixas repletas de livros enviadas por ele, a meu pedido, à biblioteca da penitenciária de Presidente Venceslau (SP), onde a ditadura me isolou, entre presos comuns, por quase dois anos.
Interessado em reler “O Tempo e o Vento”, que se encontrava em poder de Pedro, vizinho à minha cela, passei semanas insistindo que terminasse de lê-lo. Um dia me confessou que protelava o repasse do livro porque havia gostado tanto que comprara grossos cadernos para copiar à mão cada volume da trilogia. Fiquei tão impactado que narrei o fato em carta ao Érico. Semanas depois ele fez chegar à penitenciária caixas contendo livros seus e de outros autores.
Costumava encontrar Lúcia e Luís Fernando em eventos literários, na casa deles em Porto Alegre e também no Recife, no apartamento de Leda Alves e Hermilo Borba Filho, onde o casal e eu nos hospedávamos em visita à capital pernambucana. Parecia que as conversas naquela sala, com vista para a praia de Boa Viagem, já viessem com direitos autorais, prontas para virar peça, conto, crônica, anedota de botequim ou até mesmo discurso de formatura.
Um fim de tarde, ao ser provocado sobre a política da época, Veríssimo disse algo tão simples e devastador que, até hoje, me parece uma síntese do Brasil: “O problema não é que estamos mal-governados. O problema é que estamos bem governados por quem não devia governar.” Disse isso ao mexer o café, como quem fala sobre o tempo. E pronto, se calou.
Em qualquer ambiente Veríssimo tinha a peculiaridade de estar presente e, ao mesmo tempo, parecer um personagem de si mesmo, recolhido ao silêncio, entretido com a sua subjetividade como se fosse um monge budista. Era como se tivesse sido inventado por Henfil, escrito por Millôr e retratado pelo traço de Chico Caruso.
Em meus lançamentos de livros no Rio, no “Esch Café”, no Leblon, Veríssimo se fazia presente em companhia de Chico Caruso e Jaguar. Na roda de amigos, lembrava o passageiro clandestino de um navio que, ao ser descoberto, não era expulso, e sim convidado para reger a orquestra. Escutava mais do que falava, e quando se pronunciava, vinha a frase curta, seca, tão exata que parecia ensaiada por séculos de reflexão.
Convidado a fazer palestras, Veríssimo não discorria sobre o tema, preferia que o público o inquirisse. Assim, o caráter dialógico imprimia vivacidade ao evento. Em especial quando cessava o palavrear, retirava da caixa o saxofone e improvisava um show de jazz.
Veríssimo escrevia como quem bebe café sem açúcar, em gole rápido, quente, às vezes amargo, mas sempre pertinente. Seu humor político fugia a todos os parâmetros proselitistas. Ácido, contundente, tanto nos textos quanto nas charges vinha banhado de inteligência.
Era um cronista que não escrevia apenas sobre o Brasil; radiografava a condição humana. Seus personagens, como Ed Mort, detetive particular trapalhão, Analista de Bagé, Velhinha de Taubaté, as Cobras, Família Brasi e Dora Avante, expressam e espelham nossas facetas mais abscônditas e, ao mesmo tempo, ridículas e verdadeiras. Veríssimo era o gênio da banalidade, elogio superlativo a um artista que tocava muito mais que sete instrumentos – escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e romancista. Foi também publicitário e revisor de jornal.
Ele era o mais convincente dos disfarçados. Escrevia sobre um casal brigando pelo controle remoto e fazia parecer que narrava a Guerra de Troia. Descrevia um jantar insosso como quem pinta o teto da Capela Sistina. E fazia rir. Rir de verdade, rir de si mesmo, rir tanto a ponto de não sabermos por que estamos rindo. Em plena ditadura, no universo verissimiano rir não era uma opção estética, era uma forma de sobrevivência.
Veríssimo não precisava de grandes acontecimentos para escrever. Bastava-lhe um espirro, um engarrafamento, um pedaço de queijo esquecido na geladeira, e pronto, virava crônica. A genialidade estava em perceber que o cotidiano é um palco onde todos atuamos sem ensaio, e que o riso é o aplauso involuntário de quem reconhece a própria trapalhada.
Em seus lançamentos de livros, talvez os leitores tivessem vontade de, em vez de autógrafo, pedir a receita da felicidade em pílulas. Porque, no fundo, todos suspeitavam que ele escondia no bolso a fórmula simples de rir das desgraças antes que elas rissem de nós.
Não pensem que Veríssimo era apenas um comediante com o manual de erudição debaixo do braço. Ele tinha a melancolia elegante dos humoristas de verdade. Sabia, como poucos, que a ironia é irmã da tristeza e, às vezes, o riso é apenas uma forma de dizer que não vale a pena chorar. Seu segredo era rir e fazer rir com poesia, zombar com delicadeza, atirar pedras com a mão enluvada.
E pensar que o encontrei tantas vezes e nunca lhe perguntei como conseguia manter tamanha leveza naquele corpanzil. Talvez a resposta fosse esta: aprenda a rir de si mesmo com a seriedade de quem sabe que a vida, se não for engraçada, não tem a menor graça.

Frei Betto é escritor, autor de “Minha Avó e seus Mistérios” (Rocco), entre outros livros. Texto publicado em

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Luis Fernando Verissimo sentado em frente a uma estante de livros.

Crédito,Divulgação

O escritor e cronista Luis Fernado Verissimo morreu neste sábado (30/8/2025), aos 88 anos, em Porto Alegre (RS).

Verissimo estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre (RS), com princípio de pneumonia.

O escritor gaúcho, nascido em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936, enfrentava há anos uma série de complicações de saúde que incluíam a doença de Parkinson, sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em 2021, além de problemas cardíacos.

Ao fim da vida, enfrentava dificuldades de fala e as poucas palavras que ainda balbuciava, eram em inglês, conforme relato de Lúcia Verissimo, de 81 anos e esposa do escritor por 61 deles, à Folha de S.Paulo.

Filho de Mafalda e Erico Verissimo (1905-1975), também escritor, Luis Fernando Verissimo mudou-se aos 16 anos para os Estados Unidos, onde o pai trabalhou como professor na Universidade da Califórnia, de 1943 a 1945,

Em solo americano, Verissimo começou a desenvolver suas habilidades literárias e seu amor pelo jazz, tornando-se mais tarde saxofonista e integrante da banda Jazz 6.

Durante sua extensa carreira, o escritor construiu um vasto legado com mais de 70 livros publicados e 5,6 milhões de cópias vendidas.

Sua produção literária abrangeu gêneros diversos, desde crônicas humorísticas até contos e romances que retrataram com graça e maestria o cotidiano brasileiro.

Além dos livros publicados, Verissimo também teve presença cativa na imprensa nacional, colaborando como colunista em veículos como O Estado de S.Paulo, O Globo, Veja e Zero Hora.

Entre as principais obras do escritor, estão O Analista de Bagé (1981), A Grande Mulher Nua (1975), Ed Mort e Outras Histórias (1979), O Santinho (1991) e Comédias da Vida Privada (1994), livro de crônicas que foi adaptado para uma série de televisão pela Rede Globo, entre 1996 e 1997.

“Eu comecei a escrever tarde, com mais de 30 anos. Até então só tinha feito algumas traduções do inglês e não tinha a menor intenção de ser jornalista ou escritor”, lembrou Verissimo, então aos 80 anos, em entrevista à revista Época, em 2016.

“Quando me deram um espaço assinado no jornal, eu, por assim dizer, me descobri. (…) O resto, os contos e os romances são decorrências do trabalho como cronista. Na música, apenas realizei o sonho de ser jazzista, ou pelo menos poder brincar de ser jazzista”, completou.

Luis Vernando Verissimo segurando um saxofone numa foto em preto e branco

Crédito: Aervo Luis Fernando Verissimo

Legenda da foto,Nos EUA, Verissimo começou a desenvolver suas habilidades literárias e seu amor pelo jazz, tornando-se mais tarde saxofonista e integrante da banda Jazz 6

Conhecido por seu posicionamento político de esquerda, Verissimo foi um duro crítico do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sempre elogiou os primeiros governos petistas pela inclusão social e diminuição da desigualdade no Brasil.

Ele também defendia que “todo mundo deve ter lado, e deixar claro qual é”.

“Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência”, disse o escritor, em entrevista à Folha de S.Paulo em 2020.

Sucesso das páginas às telas

Além de sua prolífica carreira como escritor e cronista, Verissimo teve uma significativa participação na televisão brasileira, com trabalhos como roteirista e criador de séries de sucesso.

Na rede Globo, foi redator de programas como Planeta dos homensViva o gordo e TV Pirata.

Mas seu maior sucesso nas telas veio com A Comédia da Vida Privada, série de 21 episódios, exibida pela Globo entre 1995 e 1997.

Criada por Jorge Furtado e Guel Arraes, teve roteiros de grandes nomes Pedro Cardoso, Fernanda Young, Guel Arraes e do próprio Verissimo, que teve suas crônicas adaptadas e também escreveu roteiros originais para alguns episódios.

Exibida às terça-férias, a série tinha como enredo histórias do cotidiano de pessoas da classe média brasileira, com um estelar elenco de mestre da comédia nacional, como Marco Nanini, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Marieta Severo, Andréa Beltrão, Luiz Fernando Guimarães, entre outros.

“Diálogos ágeis e engraçados, edição rápida, efeitos eletrônicos e interpretação teatral de texto baseado na obra do escritor Luis Fernando Verissimo fazem o sucesso do programa. Mesmo que muitos dos termos e situações abordadas estejam há muito fora de circulação. Ou talvez por isso mesmo”, escreveu a crítica Esther Hamburger sobre a série.

Enrique Diaz, Patrícia Perrone, Marco Nanini e Louise Cardoso no episódio 'Pais e Filhos' de 'A Comédia da Vida Privada', 1995

Crédito,Bazilio Calazans/Globo

Legenda da foto,Enrique Diaz, Patrícia Perrone, Marco Nanini e Louise Cardoso no episódio ‘Pais e Filhos’ de A Comédia da Vida Privada, em 1995

Verissimo teve ainda suas crônica adaptadas em quadros de humor no programa dominical Fantástico, e nas séries Sexo Frágil (Globo, 2003-2004), Aventuras da Família Brasil (RBS, 2009) e Amor Verissimo (GNT, 2014-2015).

“Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas”, escreveu Verissimo sobre seu ofício, na crônica O gigolô das palavras.

Frases de Veríssimo sobre a morte

Na velhice, já debilitado pelos anos e pelos sucessivos problemas de saúde, o escritor falava da morte com um misto de tristeza e doçura, com a leveza típica de sua obra.

“A morte é uma injustiça, esse é a melhor descrição. Mas a gente tem de conviver com isso”, disse ele à Folha de S.Paulo, em 2011.

“A gente vai ficando mais lento de pensamento. Nesse sentido, estou sentindo a velhice. Mas aí é tentar aproveitar a vida da melhor maneira. Enquanto der para aproveitar a nossa neta, ir ao cinema, viajar, a gente vai levando.”

Em 2013, após deixar o hospital onde havia sido internado na UTI, em função e um gripe que evoluiu para um quadro de infecção generalizada, foi ainda mais radical, em nova declaração à Folha: “A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra.”