OS ÚLTIMOS DIAS DE OLGA BENÁRIO

OS ÚLTIMOS DIAS DE OLGA BENÁRIO

Os dias finais de Olga Benário, Líder comunista na Alemanha e no Brasil, a mulher judia deu à luz à filha de Luís Carlos Prestes em Ra­vensbrück

 
Olga Benário Prestes foi uma comunista alemã, muito conhecida nacional e internacionalmente por sua atuação no Brasil como protetora de Luís Carlos Prestes no retorno do exílio e participação na organização de uma tentativa falha de golpe contra Vargas, em 1935.

Nesse meio tempo, ela se apaixonou pelo líder do PCB e com ele se casou, tendo uma filha. Porém, esse foi o período mais conturbado de sua vida: a comunista se deparou com as represálias de Getúlio, parando nas mãos do tirano Adolf Hitler.

O caso foi de claro ataque aos comunistas do Brasil e apoio ao projeto do Eixo: depois da derrota dos revoltosos comandados por Prestes, a polícia do Estado caçou o casal, até que Filinto Muller conseguiu prendê-los. Olga estava grávida e alegava querer a criança nascida no Brasil, o que impedia, por lei, a sua deportação.

Porém, Vargas estava colocando em rumo um projeto autoritário nacional, que o afirmaria ditador em 1937. No ano anterior, porém, ele já faria esse ato de cumplicidade com o regime nazista, que era bem visto por alguns de seus ministros, como Muller, Góes Monteiro e Gaspar Dutra. Então, após discussões políticas e jurídicas, alegando estar encaminhando a grávida para um hospital, o regime brasileiro lançou Olga em um navio e a mandou para a Alemanha.

 

Última foto de Olga Benário

Última foto de Olga Benário – Wikimedia Commons

 

Olga entrou no país pelo porto de Hamburgo e foi encaminhada para a prisão de Barnimstrasse, onde deu à luz a sua filha, iniciando um movimento da esquerda internacional, liderada pela mãe de Prestes, Leocádia. A ideia era tirar a criança das mãos dos nazistas.

Entre as transferências que Benário sofreu, ela acabou no campo de concentração de Ravensbrück, onde, por conta de pressões internacionais, a administração foi obrigada a dar privilégios para ela, como o aumento do tempo em que ela esteve com a cria. Foi justamente lá que Anita Leocádia Prestes cresceu os primeiros meses, antes de sua avó conseguir sua custódia. A ideia dos nazistas era dar a criança à mãe de Olga, uma conservadora, mas ela não quis.

A vida de Olga no campo nazista é pouco conhecida, mas foi revelada em partes do livro Ravensbrück — A História do Campo de Concentração Nazistas Para Mulheres, de Sarah Helm. A autora revelou que o apreço da comunista pelos prisioneiros a levou a ser uma blockova, ou uma organizadora de quartel, em colaboração com a administração da SS, como forma de proteger suas companheiras.

Mesmo que Leocádia tivesse conseguido um visto, o governo alemão se recusava a oficializá-lo. A espera dos documentos, ela foi enviada de volta a Ra­vensbrück, mas com o início da guerra e as artimanhas políticas da Alemanha, tornou-se impossível que ela fosse liberta.

olgq 0w39f
Olga sendo presa em 1936 / Crédito: Wikimedia Commons

Ela se tornou a primeira prisioneira política a alcançar essa posição. Com a dor pessoal (estar presa, sem esperanças e sem a filha) e política (a derrota do levante e o pacto entre Stalin e Hitler), Olga não tinha mais razões para manter a luta, e se permitiu entrar nessa posição infeliz.

Ela ficou responsável, então, pela organização matinal das prisioneiras, as acordando e as obrigando a sair dos alojamentos. Mesmo assim, é notório que Benário não tratava as detentas com brutalidade ou violência, o que era incomum na posição que assumia.

Numa situação de fortes maus-tratos aos judeus no campo, causado por uma represália da SS, ela protestou à guarda Emma Zimmer contra as crueldades. Isso aumentou a moral de Benário entre as presas, mas enfureceu a administração – no entanto, ela não perdera o cargo. Por outro lado, com a chegada de prisioneiras que passaram pelos gulags soviéticos, muitas presas deixaram de confiar na comunista, dado os relatos atrozes.

estatua0rd
Estátua em homenagem a Olga em Ra­vensbrück / Crédito: Wikimedia Commons

Com o tempo, o colaboracionismo de Olga com as prisioneiras a fez perder o cargo de blokova, voltando a ser tratada normalmente, sendo ofendida, espancada e obrigada a trabalhar. E ficaria ainda pior. Em outubro de 1941, Hitler ordenou “a deportação de todos os judeus alemães”, o que levou à seleção das mulheres para campos na Polônia. Consciente do extermínio, Benário perdeu todas as esperanças. Ela foi enviada para o campo de Bernburg no início de 1942, e assassinada numa câmara de gás aos 34 anos.

presteolgq
Prestes visita Ra­vensbrück nos anos 1950 / Crédito: Wikimedia Commons

+Saiba mais sobre o tema através das obras abaixo

Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo, Anita Leocadia Prestes (2017) – https://amzn.to/2utmV08

Olga, Fernando Morais (e-book) – https://amzn.to/37eTpZj

Olga Benário e Prestes, Bruno Biasetto (e-book) – https://amzn.to/38kdcYy

As Judias do Campo de Concentração de Ravensbrück, de Rochelle G. Saidel (2009) – https://amzn.to/2weCKbD

Remembering Ravensbrück: From Holocaust to Healing (Edição Inglês), de Natalie B. Hess (2020) – https://amzn.to/2U9gmZq

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

REVISTA