Em 1835, milhões de muçulmanos espalhados pelo mundo estavam celebrando a Laylat al-Qadr nos dias finais do nono mês do calendário islâmico, o Ramadã, quando o Profeta Muhammad recebera a revelação definitiva do Arcanjo Gabriel e que posteriormente assumiu a forma do Corão.
É um período de intenso mergulho meditativo e oracional para os fiéis, posto que é a janela de oportunidade que Allah os concede para se arrepender dos pecados e mudar seus destinos.
Em Salvador, mais especificamente no dia 24 de janeiro do mesmo ano e nas proximidades da Igreja de N. Sra. de Guadalupe, alguns escravizados muçulmanos também viram uma janela de oportunidade política única para acabar com seu sofrimento mediante o uso de táticas insurrecionais no dia seguinte, o que acabou por se tornar um dos maiores levantes negros de todo o continente americano: A Revolta dos Malês.
Malê é a variação do nome “imalê”, ou seja, “seguidor do Islã” ou, ainda, “religião dos malineses” (povo que introduziu o Islã aos iorubás).
A maioria desses rebeldes eram iorubás, oriundos da atual região da Nigéria, por conta da política imperial de substituição de importação da mão-de-obra africana na primeira metade do século XIX.
Encontravam-se no domingo em vários centros islâmicos e escolas corânicas espalhadas pela cidade, malgrado considerassem a sexta-feira sagrada. Sua alimentação reproduzia a culinária africana islâmica, com o sacrifício de carneiros nas datas especiais, observando-se o mês de jejum do Ramadã.
Participaram dessa revolta cerca 1.500 insurgentes em movimentos que duraram 4 horas da madrugada de domingo. A maioria era de escravizados urbanos, além de libertos, adeptos de outras religiões de matriz africana e membros de irmandades negras católicas, porém todos capitaneados pelos malês.
Nas operações, a polícia encontrou livros pequenos, papéis em árabe, tábuas de escrever, saquinhos de couro (amuletos, chamados de “mandingas”), rosários sem cruz (“masbahas” ou “tessubás”), vara com lenço branco e roxo (utilizada em um ritual de adesão aos propósitos de luta) e armas brancas.
Além dos objetos apreendidos mencionados, os policiais confiscaram “abadás” (tradicional traje de gala dos dias sagrados), turbantes ou barretes, na cor branca, e anéis de prata usados pelos muçulmanos.
Pressionados pelos poucos engenhos baianos que resistiram à Guerra da Independência e que estavam competindo diretamente com o açúcar antilhano e europeu recém surgidos no mercado internacional, os escravos estavam sobrecarregados e cada vez mais escassos por conta das medidas antiescravagistas do império britânico contra o tráfico transatlântico.
Além disso, suas memórias ainda estavam frescas diante da vitória da Revolução Haitiana e aquecida pelas explosões revoltosas levadas a cabo por livres e escravos nos últimos 20 anos no território soteropolitano. Entretanto, a queima das machachalis e a prisão do Alufá Pacífico Licutã foram motivações religiosas decisivas para o estopim do levante.
Machacali, provavelmente oriunda da palavra “Masjid”, mesquita em árabe, eram pequenos templos islâmicos construídos precariamente no quintal de alguns casarões, permitidos por seus donos, geralmente ingleses protestantes.
O mais importante foi aquele erigido nos fundos da casa de Abraham Cabtree e muito bem frequentado até a inspetoria de André Marques, do 5º Quarteirão da Vitória, que comunicou o perigo da mesquita no dia 29 de novembro de 1834 ao juiz de paz. Este era o dia justamente que os malês estavam festejando o Laylat ul-Miraj, recobrando ritualmente o momento em que o Profeta fez sua viagem noturna através dos diferentes mundos e dimensões.
No dia 30, o próprio Crabtree ateou fogo à mesquita improvisada, indignando a confraria islâmica de pretos que frequentava o local. Para eles, “os brancos não apenas os escravizavam, mas os tolhiam de suas festas, religião e fé”. As conspiratas começaram a circular nas refeições, nas reuniões de zikr e nas ações de proselitismo (dawah).
No mesmo mês, para piorar a situação, Pacífico Licutan foi preso. Licutan, que era escravizado, trabalhava alugado como enrolador de fumo no Cais Dourado e morava no Cruzeiro de São Francisco com seu senhor, um médico, e alugava um quarto com outros africanos ali perto, na Rua das Laranjeiras, onde fornecia instrução religiosa aos seus “parentes” de nação.
Seu senhor, embora endividado, recusou alforriá-lo por duas vezes, uma delas com dinheiro arrecadado pelos malês. Foi, aliás, por conta das dívidas de seu senhor que Licutan terminou preso na cadeia municipal em 1835. Fora confiscado para ser levado a leilão para que fosse pago o débito de aluguéis do senhor com os frades carmelitas.
Era considerado uma dos mais importantes “alufás”, variação regionalista da palavra “alfa” usada na África Ocidente, que significa “clérigo, professor, mestre”, enfim, ele era um sábio muçulmano do conhecimento místico.
Depois da confirmação da data para a rebelião, o alufá foi informado de que seria libertado de uma vez, o que teria lugar no final do Ramadã.
De fato, numa das primeiras ações do levante, os rebeldes tentaram libertá-lo à força da prisão em que se encontrava, no subsolo da Câmara Municipal. Mas a missão falhou.
Os africanos foram apanhados entre dois fogos, o dos soldados, que atiravam de dentro do cárcere, e o da guarda do palácio da província, que atirava do outro lado da praça. Durante seu depoimento no julgamento dos revoltosos, Licutan recusou-se a revelar o nome de qualquer correligionário ou discípulo seu.
Ao mesmo tempo, preservou sua dignidade e identidade muçulmana diante de si próprio, do inquisidor e de outros africanos que aguardavam para depor, afirmando chamar-se Bilal, nome carregado de singular simbolismo. Bilal era o nome do primeiro muezim, um negro discípulo próximo do profeta Muhammad. Escapou da pena capital, e, mesmo estando preso durante a insurreição, receberia 1000 açoites. Fonte: Venderam o Xeique: Pacífico Licutã e a Revolta dos Malês – História Islâmica com Mansur Peixoto
Referências
REIS, João José. O ALUFÁ PACÍFICO LICUTAN In: Salvador Escravista.
________________ REBELIÃO ESCRAVA NO BRASIL: A História dos Levantes dos Malês de 1835. São Paulo: Brasiliense, 1986.
BRITTO, Lidivaldo R.R. O TRIBUNAL DA RELAÇAO DA BAHIA E A REVOLTA DOS MALÊS.
HISTÓRIA ISLÂMICA. “Como o Islã chegou na África e foi parar no Brasil? A Revolta dos Malês” (Youtube).
Islã chegou na África e foi parar no Brasil? A Revolta dos Malês” (Youtube).
Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.
Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.
Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.
Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.
Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.
Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.
Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.
Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.
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