PAJELANTRAS, GULANTRAS E OUTRAS ANTAS

Pajelantras, Gurulantras, Vaidos@as e outras “Antas”

Em um tempo distante alguns poucos humanos tornaram-se mediadores entre realidades transcendentes que aprenderam a acessar, sinalizando dicotomias expressas em noções de indivíduo e coletividade, sagrado (sobre humano, que deve ser restrito à poucos e protegido) e o profano (humano, trivial), permitido ou não permitido, communitas e societas, natureza e cultura.
Por Domingos Bueno
Para Mircea Eliade essa transcendência pode ser acessível a qualquer um, já que não seria outra senão a própria sociedade que transcende àqueles que a compõe. Entre aqueles que foram chamados de sacerdotes nas antigas religiões muitos ainda hoje abençoam e purificam alimentos, moradias, a sexualidade, intermediando e prevenindo seus seguidores, discípulos ou fiéis de doenças e da danação, curando maus-olhados, cobreiros, espinhela caída, unha encravada ou brotoeja.
Reconhecidos e temidos ocupavam um lugar de honra entre aqueles que se dedicavam a proteção e ao domínio equiparando-se a generais e ministros, ou como aliados poderosos em conflitos onde praticavam bruxaria contra os inimigos.
Nas sociedades não europeias esses mediadores cosmológicos, conhecidos como xamãs ou pajés, humanos e não humanos, especializaram certas funções e atribuições daqueles sacerdotes que ao longo do tempo confundiram-se com o próprio Estado, atuando como curadores, oráculos, conselheiros espirituais e amorosos.
Através de múltiplas práticas e diferentes meios como rapé, pimenta, sauna, jejum, meditação, mantras, dança, chocolate, coca, tabaco ou ayahuasca entre outros logram atingir estados alterados de consciência e a partir deles observar e buscar ordenar o mundo.
Na Amazônia brasileira várias sociedades indígenas utilizam esse termo pajé a fim de traduzir os muitos nomes que diferentes povos conferem a esses seres meio-lá-e-meio-cá, que carrega significados abrangentes e uma historicidade dinâmica em que muitos compreendem e expressam, através de manifestações diversas, o decorrer de suas vidas de alguma forma serpenteando à jusante do caminho espiritual.
Necessariamente nem todos com ele se cruzam, mas aqueles que o fazem direcionam essa busca para dentro num profundo mergulho do qual emergirão em direção aos outros enquanto alteridades compartilhadas.
Então serão testados por outros navegantes de instâncias interligadas e por si próprios através de duras dietas alimentares e relacionais, apenas alimentando sua mente com palavras, cantos e intenções apropriadas sobre o que não dizer, não fazer, não comer, não pensar.
Em certos grupos indígenas a jornada de reclusão social ocorre simultânea a ingestão diária de “medicinas” da floresta somadas às muitas restrições e regulações alimentares, que implicam na necessidade de apartar-se do social, alimentando-se de determinados tipos de alimento preparados de determinada forma por pessoas específicas em determinados horários.
Com a mesma cautela devem ser ingeridas em determinados períodos do dia e de determinadas formas que variam segundo a taxonomia e os vários sistemas de classificação de cada povo. É muito difícil submeter-se a esse processo de transformação sem o consentimento, apoio e acompanhamento do grupo familiar. Esse caminho é, de muitas maneiras, um processo coletivo.
Várias instâncias interligadas se fazem presentes, desde o grupo familiar até o estendido, passando pela aldeia e por outros neófitos caso hajam. Nas camadas não humanas temos as plantas, os animais e os seres invisíveis que efetivamente o ensinarão sobre as propriedades das plantas de cura, sua profilaxia, dietas, os feitiços, as ações e todo tido de conhecimento necessário para lidar com os infortúnios e adversidades da vida, bastando para isso se por no sentido do que se deseja para que a “medicina”lhe mostre o que fazer, quando e onde encontrar uma planta de cura, e como conduzir-se nos vários mundos que ele habitará.
Ainda não tenho claro se o pajé media os diferentes planos viajando entre esses mundos, da mesma forma que os que procuram as medicinas, guiados por ele, o fazem ou se ele os habita simultaneamente.
No fluxo dessa cartografia cosmológica que desenvolvem navegam, se conduzem e desvendam segredos da natureza, do espaço e do tempo, visitando antepassados e não nascidos. Em muitas dessas sociedades “primitivas” a invasão dos europeus já era sabida, profetizada e aguardada como um fato inelutável, mas de resultados imprevisíveis.
Ao emergir de sua longa jornada, que pode durar anos, o novo pajé se encontra com os antigos pajés, navegadores experimentados, que nada lhe ensinam apenas confirmando se o aprendizado com as plantas mestras, como o muka e a ayahuasca, foi suficiente e verdadeiro, de forma semelhante ao que eles em seu caminhar receberam. É apenas no final dessa jornada que poderão ou não ser reconhecidos como seres que escolheram o caminho e agora o trilham.
Ao longo de suas vidas poderão adquirir prestígio por seus feitos de cura, proteção, pontaria ou habilidades, sendo solicitados, respeitados e temidos por outros povos.
Para a grande maioria deles, que sempre viveu junto ao seu povo ouvindo as histórias, alimentando-se de forma tradicional, tomando banhos de cacimba e igarapé, bebendo ayahuasca, tomando rapé e vivendo uma vida orientada pelo igualitarismo, tornar-se pajé antes de ser uma afirmação de alteridade é um aprimoramento que apenas refina essa particular forma de viver consigo próprio, com os outros humanos, com a natureza e com o sagrado.
Um grande cacique Yawanawá disse recentemente: “Deus é a natureza: os rios, a floresta e o vento. E nela nós vivemos. Nessa fala natureza não se trata de uma representação do sagrado, de um Deus ou o portal para algum lugar ou dimensão, senão a própria divindade manifesta. Ao nela – e dela – viver, respirar, comer e beber é criada uma relação sinérgica com a manifestação da ayahuasca que produz a transcendência e possibilita essa impar recursividade cognitiva.
A noção de sagrado que tudo engloba, ou por tudo é englobada, é um convite a repensar essa aparente dicotomia sagrado e profano, que remete inclusive aquele momento anterior ao contrato neutralizando, ou talvez graduando, a distância entre os domínios ontológicos que ela desperta, propondo em seu lugar o que Arjen entre os Makuna chama de Ecosofia, uma filosofia ecológica, que compreende e informa aos seres “una actitud moralmente cargada hacia la naturaleza, que informa y guía sus prácticas.”
Uma certa ética baseada na natureza onde tudo é sagrado.
Foi dessa fonte que beberam, literalmente, os fundadores das igrejas ayahuasqueiras que aqui chegaram no final século XIX e inícios do XX para trabalhar nos seringais Acreanos como soldados da borracha, criando um fluxo religioso migratório que ainda perdura e aumenta a cada dia.
Para sobreviver nesse novo mundo aquele exército de nordestinos teve que adaptar-se rapidamente a vida na floresta e com o auxílio dos caboclos viveram o processo de deixar de ser “brabos”  (ignorantes) para se tornarem mansos (amansados, adaptados). Sobre esses, em outro lugar, disse que “…
não eram habitantes das cidades e nem tampouco índios: são aqueles homens e mulheres que se utilizaram muitas vezes dessa estratégia comum de se esconder, através dessa denominação genérica, das violências, perseguições e mortes provocadas principalmente pelas empresas seringalistas na região. Habitantes de um mundo híbrido, lá e cá, funcionaram (e ainda funcionam) como uma ponte entre os vários mundos que naquele momento colidiam, trazendo e levando conhecimentos da floresta para a cidade e vice-versa.”
Através deles os fundadores das primeiras igrejas ayahuasqueiras – e outros – tiveram seu primeiro contato com o chá. Há bons livros e relatos sobre isso, mas é importante contextualizar as formas e critérios de uso da ayahuasca daquele momento, principalmente quanto ao aspecto não formalizado e lúdico da manifestação.
Há relatos desses primeiros ayahuasqueiros nordestinos de que ao retornarem da estrada de seringa nos finais de semana traziam consigo um saco cheio de folhas e de cipó e ao chegar em casa preparavam o chá ayahuasca, da forma como lhes foi ensinado pelos caboclos, o bebiam e então cantavam acompanhados pelo violão as canções de cipó dos caboclos – ou canções de sua época – para se divertir, relaxar, "ver" coisas, levar “peias”. 
Revigorados pela forte energia, no dia seguinte retornavam esperançosos à sua sofrida obrigação.
Foi somente a partir de Raimundo Irineu Serra, Daniel Pereira de Matos e Antonio Gabriel da Costa, cada um em seu segmento e a seu tempo, que vieram a ritualística, os cantos, os bailados, os documentos doutrinários, que versam sobre a vida humana, sua origem e destino, a moral (concebida enquanto ética), o bem viver e viver bem, dentro de uma perspectiva religiosa cristã- reencarnacionista que também agrega elementos míticos, indígenas e afro brasileiros.
Sob a ótica da doutrina os três segmentos tem muitas convergências éticas, principalmente com relação ao seu caráter sagrado, vedando explicitamente qualquer forma de comercialização do chá ou outra forma de obter lucro com o ritual.
Enquanto instituições urbanas beneficentes suas despesas de manutenção e custeio são cobertas com doações individuais espontâneas e com o trabalho coletivo dos membros. Um poema de Khalil Gibran sobre o amor diz algo que aproxima-sedessa atitude:
“O amor só se dá a si e não tira nada, senão de si. O amor não possui nem é possuído; Pois o amor basta-se a si próprio.”
Por conta disso os vários povos da floresta e as igrejas ayahuasqueiras do Acre tem encantado buscadores do mundo todo que aqui aportam ou ancoram, e se permitem viajar nesse mar de boas intenções, irmandade e busca de harmonia em busca de alternativas para um mundo que percebem como repleto de desigualdades, ambição desmedida, desilusões, inquietudes espirituais e toda sorte de questionamentos sobre a origem e destino do homem, a felicidade, enfim, muitas e profundas indagações.
Esse estado buscador e receptivo é ampliado de forma exponencial com o uso da ayahuasca (não vou me referir a outras medicinas aqui), o que poderia criar situações de uso personalista ou mesmo o charlatanismo espiritual. Algumas pessoas que bebem ayahuasca por muitos anos adquirem um certo domínio sobre si sob seu efeito que lhes confere tranquilidade relativa nos rituais.
Felizmente as igrejas ayahuasqueiras têm antídotos para frear um possível uso indiscriminado ou os personalismos daqueles chamados de mestres ou padrinhos através de várias formas de controle institucional.
Nas três diferentes linhagens ayahuasqueiras urbanas muitos de seus membros convivem e praticam essa religiosidade há anos, por vezes décadas, também desenvolvendo trabalhos beneficentes, realizando mutirões coletivos e contando com estratégias diferentes, porém eficientes, de organização material e conduta pública.
O fato de não buscarem remuneração pelo chá ou pelo ritual torna seu acesso pouco atrativo para aqueles que buscam uma experiência exótica porém superficial na Amazônia.
Para participar das cerimônias e bebê-lo tem que passar por uma entrevista e ser considerado apto pelos responsáveis e submeter-se à regras de conduta, alimentação e vestuário antes, durante e depois do ritual. É sob os olhares, cuidados e permissão coletiva que é permitida a presença e a convivência tanto física como espiritual do neófito com a coletividade.
E embora existam aqueles nas igrejas que se destacam pela oratória ou pela voz nos cantos, chamadas e hinos, seu comportamento, postura e posicionamento ético são postos a prova permanentemente pelo coletivo que dele espera e cobra uma prática condizente com a doutrina que professa.
O igualitarismo das sociedades indígenas transparece, como não poderia deixar de ser, nas vivências com ayahuasca e poderia indicar uma certo grau de permissividade em sua utilização, mas a verdade é que vários atenuadores agenciam as práticas através do respeito e da participação de antigos pajés, numa linhagem de conhecimento que chega aos ancestrais e que é fundamental para que eles próprios sejam reconhecidos.
Agindo como um tipo de sistema de contrapesos o igualitarismo trabalha permanentemente para perceber e suprimir aspirações individuais ou práticas discriminatórias, sem deixar de reconhecer o conhecimento e o talento daqueles que o possuem.
Era inevitável e previsto que esse mundo do cipó, daime, vegetal, uni, rami e de outras tantas denominações se espalhasse pelo mundo. Nos últimos anos milhares de pessoas de todo mundo descobriram as medicinas mais populares, como a ayahuasca, o rapé, a sananga, o kampô (kambô ou kapum) e outras substâncias ainda pouco conhecidas.
Muitos deles tocados pela beleza, força e amplitude de possibilidades que essas seguras medicinas indígenas utilizadas há centenas de anos oferecem decidiram fazer o que os não-índios fazem desde que aqui chegaram a bordo da Santa
Maria: apropriação, deturpação e comércio.
E assim nasceram os pajelantras, um oximoro urbano fruto da intersecção das palavras pajé e pilantra, formado por visões de mundo incompatíveis e conflitantes que flutuam entre o coletivo e individual, o dadivoso e o mercadológico, o sagrado e o profano, o pajé fundido com o pilantra que do sufixo retira algo que não poderia, enquanto este ao prefixo corrompe, e assim enuncia-se: pajelantra.
Antigos ayahuasqueiros e marinheiros experimentados sabem que os recém-embarcados passam por um período de adaptação até se harmonizar com a ayahuasca. Nos centros que a utilizam com responsabilidade uma grande atenção é dada aos iniciantes para que não se surpreendam dentro do turbilhão sensações e emoções que às vezes brota e que pode provocar sensações corporais desagradáveis e medo.
São comuns relatos da sensação de segurança que sentiram durante o ritual por ver e ouvir dirigentes junto com o coletivo entoarem cânticos ou rezar em estilo responsorial, soprar tabaco e pulverizar soluções perfumadas trazendo-lhes alívio e relaxamento.
Nas religiões fundadas por Mestre Irineu Serra, Mestre Daniel Matos, Madrinha Chica Gabriel e o Mestre Gabriel da Costa o iniciante busca Deus pela intercessão e auxílio dos mestres e guias espirituais enquanto o dirigente dos trabalhos é alguém que pelo conhecimento, ética e a constância pode auxiliá-lo a chegar até Ele, que por sua vez deu àqueles fundadores o conhecimento e o direito de compartilhá-lo com os outros: uma porta e não o destino. Entre os indígenas isso é até mais explícito, como me disse Ibã, um querido e respeitado pajé Huni Kuin: Eu não sou pajé.
O pajé é o Uni (ayahuasca), eu sou apenas txaná (aquele que entoa). Há uma crença subjacente às igrejas e aos povos indígenas que postula certo tipo de generosidade em relação ao uso dessa medicina (no sentido daquilo que cura), percebida como o remédio para as aflições da alma e capaz de retirar a maldade do coração dos homens.
Embora nem todos os Centros tenham um perfil expansionista, em nenhum deles o uso do chá se restringe como conhecimento hermético proibitivo ou exclusivo a iniciados. Exceto quando há recomendação médica contrária ou condição de saúde particular a ayahuasca, em princípio, é para todos.
Exemplo disso são as vivências e festivais indígenas que acontecem anualmente no Acre, normalmente dirigidas ao público nawá (não indígena) que simultaneamente cria laços culturais e parcerias, desfazendo várias concepções preconceituosas do imaginário popular sobre eles e ao mesmo tempo gera recursos através da remuneração do tempo despendido pelos indígenas, da hospedagem, da alimentação e dos passeios na floresta e não das medicinas ou do ritual.
São formas sustentáveis desenvolvidas pelos indígenas de prover recursos para saúde, educação, deslocamentos e infraestrutura uma vez que os Governos pouco ou nada participam.
Alguns buscadores, no entanto, extrapolaram esse princípio, iludiram-se no caminhar, confundindo- se com o caminho e com o destino, pois como bem disse Willian Tello, o caminho espiritual da ayahuasca é a senda do fio da navalha.
Falsos moralismos a parte, não há nada de psicodelismo na experiência com o chá, pelo contrário. Falta aos pajé da nova era uma abordagem mais comprometida com as raízes profundas que essa prática tem na floresta, em sua relação com seres espirituais e conselheiros míticos. Falta um pouco de humildade talvez, não sei.
Diferente dos movimentos de contracultura, da ligação com o inconsciente nas produções artísticas urbanas, não é apenas a mente consciente humana que está em atividade. Há uma sinergia da experiência com você; de você com a experiência (chame do que quiser). Desse encontro surge outra forma de ver, sentir e pensar que não é egóica, inclusive no sentido coletivo da experiência com os outros participantes que bebem do mesmo chá.
Nos estados alterados de consciência com a ayahuasca, por exemplo, os indígenas tem sempre o cuidado de explicar que é necessário se colocar no sentido pensando coisas boas, no bem, no aprendizado e no servir pois do contrário a medicina irá lhe levar onde você se colocar. Da mesma forma nas igrejas ayahuasqueiras existe um cuidado muito grande com pensamentos e palavras principalmente durante o ritual pois elas têm a capacidade de transportar aquele que fala e quem houve, naquele e para aquele sentido explicitado: enunciar é literalmente criar.
Não se trata apenas de sentir, mas de ser e estar naquele lugar. A consciência e o domínio desse processo demanda tempo, disciplina e muita constância. É por isso que os termos Mestre e Madrinha foram aqui utilizados apenas em relação aos fundadores, porque esse grau espiritual não pode ser comprado, trocado ou vendido. É uma conquista e não um prêmio.
Há um ditado popular que diz que o coração do homem é terra estranha, e que portanto talvez seja impossível conhecê-lo e avaliar suas verdadeiras intenções, mas creio ser possível observar o resultado de suas ações e dessa forma compará-lo com o de outros grupos e pessoas.
Falar sobre os pajelantras e gurulantras (muito parecido com o caso do pajé com uma pincelada de orientalismo) é falar sobre a fragilidade humana de um lado e as relações assimétricas que se desenvolvem quando as relações mestre e discípulo são contaminadas pelo ego e pela ganância.
E nesse caso há um complicador perigoso que é o uso da ayahuasca como ferramenta de dominação sobre o outro, que pode ter resultados imprevisíveis.
Pesquisadores como Hash compreendem, como eu, que a mitologia a cosmologia e a doutrina fornecem a topografia ou cartografia daquele mundo espiritual fornecendo os caminhos e chaves para dele entrar e sair, tal como fazem os kenes e os ikaros, enquanto o ritual fornece a estrutura externa, sensível, para transitar entre o mundano e o divino-xamânico-sagrado. Como numa metáfora do barquinho, seguimos juntos em direção ao alto mar, navegamos e remamos juntos, e
retornamos seguros ao porto.
A função dos padrinhos, mestres e pajés responsáveis deveria ser, primeiro de tudo, servir. Servir o chá aqueles que o acompanharão e deles cuidar na jornada nos momentos mais difíceis. Isso é tão sério que no conjunto de documentos da UDV lido em todas as sessões regulares, por exemplo, Mestre Gabriel diz que aquele que não concordar com o mestre não deve segui-lo, exortando a todos a examinar permanentemente o que ouvem e recebem.
Porém com a expansão do uso da ayahuasca nos centros urbanos os critérios para sua utilização têm se tornando cada vez fluidos, particularizados e customizados por pessoas que se atribuem conhecimentos e autoridade, se apropriando, experimentando e alterando irresponsavelmente as práticas culturais ancestrais indígenas, bem como aquelas lenta e progressivamente desenvolvida pelos centros de daime e vegetal.
A partir de uma experiência superficial que recebem nos centros urbanos ou depois de curtas passagens flashback por alguma tribo amazônica se assumem como pajés e passam a seguir seus próprios caminhos , ou seja, a si mesmos.
Os cursos pajé coaching, treinamento coletivo padrinhos e kambo practitioner pela internet com certificados é a face exposta da voracidade com que esses nichos mercadológicos tem se desenvolvido, praticando apropriação e pirataria cultural em nome da universalidade das medicinas.
Isso não é novo: chegando ao Novo Mundo os conquistadores, em nome de Deus e do progresso, se apossaram de uma terra povoada há milhares de anos. Diante da impossível empreitada da colonização frente ao gigantesco continente se apossaram de seus corpos, já que não tinham alma mesmo, para trabalhar em nome de Deus pela salvação dos homens.
E agora, um bando de gente bem e mal intencionada quer em nome de Deus e da salvação da humanidade se apossar tomar de seu espírito. Os tempo mudam, as pessoas mudam, mas a ganância permanece.
Nos últimos meses temos presenciado em todo Brasil, às vezes diariamente, inúmeros casos de abusos físicos, emocionais, espirituais e imperícia cometidos por pessoas que se manifestam em torno de uma aura de religiosidade e respeito, que em alguns casos levaram a suicídios, morte e violações de confiança.
As medicinas da floresta são inegavelmente seguras quando utilizadas da maneira correta não podendo ser confundidas com drogas recreativas. A utilização fora do contexto ritual além dos perigos que oferece tem gerado pressões, problemas legais, políticos e criminais sérios. A ayahuasca foi liberada no Brasil e nos Estados Unidos para uso ritual sem outras substâncias, dentro de uma situação segura, tradicional ou religiosa institucional.
Episódios de assassinato, sedução e dissolução de casamentos, violação de intimidade são o resultado dessa falta de critério no uso dessas substâncias que, tal como qualquer processo terapêutico, precisa de bordas, limites e ética. Psicólogos, psiquiatras e médicos tem clara a noção do distanciamento que precisam manter de seus pacientes.
Médicos não atendem parentes próximos, psicólogos ou psiquiatras não se envolvem sexual ou afetivamente porque sabem do alto custo que relações emocionais assimétricas podem cobrar.
O perigo do fascínio que a confiança irrestrita do neófito em seu mestre espiritual é avassalador. Sentir que uma pessoa deposita sua fé, seus ideais, sua emoção e confiança deve ser embriagante para o pajelantra. Os benefícios não se resumem apenas ao contato pessoal e emocional, senão se
espalham ardilosamente em todos os sentidos das relações de sua vítima, que por ele assina cheques, encontra oportunidades comerciais, abre portas em meios sociais totalmente inacessíveis a qualquer mortal, viagens pagas, hotéis, vivências, roupas, enfim.
Como a felicidade tem sido supervalorizada em nosso tempo, pessoas inescrupulosas usando seu poder pessoal junto com as medicinas ou algum talento especial (João de Deus é um exemplo desses médiuns aproveitadores) surfam na incredulidade que os próprios “discípulos” advogam quando confrontados com a realidade de suas práticas.
Muitas vítimas, nesse caso, preferem esconder sua vergonha e não denunciam, outras ingênuas os defendem abertamente, confundindo a liberdade sexual e emocional que duas pessoas adultas podem e deve ter (ayahuasca é um afrodisíaco maravilhoso), com relações egóicas, dominadoras e abusivas.
Lembrando que, o que é ainda mais terrível, a maior parte das vítimas de assédio sexual dos pajelantras e gurulantras são mulheres que os procuram e se tornam prisioneiras num teia em loop de charlatanismo esotérico dinheirista com ayahuasca.
Os casos da Comunidade de Saint Jean na França, com as congregações Os Irmãos de Saint Jean, As Irmãs Contemplativas, e As Irmãs Apostólicas, é particularmente exemplar (junto com os milhares de abusos dos padres pedófilos), por conta do consentimento que a "teoria do amor de amizade" que o Padre Felipe, falecido, criou e usava para justificar e convencer as freiras e noviças da pureza de suas intenções.
Algumas delas se suicidaram quando perceberam a tragédia física, emocional e espiritual a que foram sujeitas, enquanto muitas tentam se recuperar através de terapias e grupos de apoio criados para esse fim, como a www.avref.fr que recentemente editou o Livre Noir de Saint Jean, que relata além das atrocidades do fundador e de seus seguidores, a torpeza das atitudes das freiras superioras que exigiam obediência cega e controlavam cada passo de suas vidas através de pressões psicológicas, cuidados médicos, substituídos por sessões de exorcismo, isolamento e impedimento de contato com familiares.
Para a Avref “as consequências psicológicas do abuso espiritual são as mesmas do abuso sexual porque há uma violação da intimidade.”Veja bem: O Padre Philippe estava em processo de beatificação na igreja católica. João de Deus era o médico espírita milagroso de estimação de artistas e políticos poderosos.
Os gurulantras e pajelantras usam roupas de algodão orgânicas, são veganos, meditam, cantam mantras acompanhados de violão, praticam yoga e não consomem açucar… Nesse mundo de aparências basta usar os símbolos urbanos da nova era para ser confundido com as ovelhas. Mas também não são lobos…. lobos são nobres. São chacais.

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ANOTE:
Domingos Bueno é Etnomusicólogo, Professor Mestre da Universidade Federal do Acre (UFAC) e Doutorando pela Universidade Federal do Paraná(UFPR).
Publicado originalmente no Blog Crônicas Indigenistas.  Conheça a página do Crônicas Indigenistas no Facebook (clique aqui). Lá encontrará, além de nossos textos, várias e diversificadas informações.

 

 

 

 

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Ayahuasca: O cipó dos espíritos 

Elemento central de muitos dos rituais xamânicos do sagrado indígena, a ayahuasca, cujo nome, de origem Inca, significa “cipó dos espíritos” ou “vinho dos mortos”, é usada como bebida sacramental desde tempos imemoriais por pajés de vários povos originários do Brasil, do Peru e do Equador.

Da EBC com edições de Zezé Weiss

Produzida pela combinação de duas plantas nativas da floresta amazônica, o cipó Mariri ou Jagube (Banisteriopsis caapi) e as folhas do arbusto Chacrona ou rainha (Psychotria viridis), a ayahuasca é uma bebida amarga, de uma coloração que vai do ocre ao marrom, que costuma provocar vômitos, diarreias, alucinações e visões místicas.

Mesmo assim, o chá da ayahuasca, também conhecido no mundo não-indígena como chá do Santo Daime, é consumido regularmente pelos povos indígenas da Amazônia e por quem segue seitas religiosas ancoradas em seu uso, como o Santo Daime e a União do Vegetal (UDV).

No Brasil, o Conselho Nacional Antidrogas (Conad) retirou a ayahuasca da lista de drogas alucinógenas, conforme portaria publicada no Diário Oficial da União em 10 de novembro de 2004, permitindo o uso nos rituais religiosos. Seu  uso ritual-religioso foi regulamentado em 2010.

Mesmo tendo liberado o uso da ayahuasca para fins religiosos, o Conad considera que o consumo do alucinógeno é arriscado. Na mesma resolução, existem regras como a proibição de que pessoas com histórico de transtornos mentais ou sob efeito de bebidas alcoólicas ou outras substâncias psicoativas ingiram a droga.

Além disso, é obrigatório que as seitas que usam a ayahuasca “exerçam rigoroso controle sobre o sistema de ingresso de novos adeptos”.

Os efeitos sobre o cérebro causados pela substância alucinógena ainda não são totalmente conhecidos. Além de ser usado em algumas religiões, o chá vem sendo estudado no tratamento de depressão e de dependência química.

Pesquisadores da USP-Ribeirão Preto identificaram os princípios ativos mais importantes produzidos pela bebida psicoativa: são as betacarbolinas e a dimetiltriptamina (DMT), substâncias que atuam no nível de serotonina no cérebro. A serotonina é um neurotransmissor capaz de dar ao cérebro sensação de bem-estar, regulando o humor e dando sensação de saciedade.

Fonte: EBC, com edições de Zezé Weiss. Publicado originalmente em 04/04/2021. 

 

AYAHUASCA: O CIPÓ DOS ESPÍRITOS

Imagem: Pixabay/via Jornal da USP

ESTUDOS BUSCAM COMPREENDEER DE FORMA SEGURA OS POTENCIAIS TERAPÊUTICOS DA AYAHUASCA 

 
Para o pesquisador Rafael Guimarães dos Santos, da FMRP, existe um certo preconceito em relação à substância, o que pode estar atrelado ao medo do desconhecido, entretanto universidades do Brasil e de várias partes do mundo estudam a substância
 
Sempre que os pesquisadores solicitam voluntários para estudos sobre as propriedades terapêuticas da ayahuasca é comum as pessoas terem dúvidas, medo de participar e até questionarem a validade dessas pesquisas. A ayahuasca é rica em dimetiltriptamina e beta-carbolinas, é uma bebida de efeitos psicoativos e largamente estudada nos maiores centros de pesquisa pelo mundo, inclusive na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.  

Por isso, a Rádio Ribeirão foi ouvir o professor Rafael Guimarães dos Santos, do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP e um dos coordenadores desses estudos, para compreender as razões por trás das pesquisas sobre a ayahuasca. 
Ayahuasca, diz o professor, tem origem na língua quéchua, falada por povos indígenas na região dos Andes, na América do Sul. A palavra é uma combinação de aya, que significa “espírito” ou “alma”, e huasca, que significa cipó e se refere à planta Banisteriopsis caapi, um dos principais ingredientes da bebida ayahuasca. Assim, ayahuasca pode ser traduzida aproximadamente como “vinho das almas” ou “cipó das almas”.
Segundo Santos, do ponto de vista científico e de saúde mental, não só a ayahuasca, mas a psilocibina e o LSD, que também são substâncias psicodélicas ou alucinógenas, despertam o interesse da neurociência em função dos efeitos subjetivos que essas substâncias podem produzir. 
Entre essas alterações, o pesquisador cita a do fluxo do pensamento e da percepção, além do fato da pessoa ficar mais introspectiva e mais emotiva, mais conectada com memórias autobiográficas, com os acontecimentos da vida e da infância. “A neurociência quer compreender as bases neurais, onde e como esses efeitos ocorrem e talvez também seus potenciais terapêuticos.”
Conhecer melhor os efeitos dessa substância, do ponto de vista científico e clínico, é o principal objetivo das pesquisas, por isso precisam de voluntários saudáveis para avaliar a segurança de uma ou mais doses e de diferentes dosagens da ayahuasca.
O professor afirma que já foi demonstrado o potencial efeito da ayahuasca na depressão, mas alerta que mostrar potencial não quer dizer que seja um antidepressivo. “Por isso qualquer pessoa que tenha interesse em participar das pesquisas pode entrar em contato conosco, mas de maneira geral, o aconselhamento é sempre seguir o conselho do seu médico.” 
Atualmente, as pesquisas em caráter experimental avaliam os efeitos da ayahuasca na depressão, no estresse pós-traumático e no uso abusivo de algumas substâncias, como álcool, por exemplo, mas Santos faz mais um alerta: “A substância não está aprovada para nenhum tratamento, para nenhum uso clínico”. 

Pesquisas seguras e controladas

Para o pesquisador existe um certo preconceito em relação à substância, o que pode estar atrelado ao medo do desconhecido, mas afirma que a visão da maioria das pessoas é respeitosa. “É vista como algo sagrado, associado às populações tradicionais, especialmente as comunidades indígenas espalhadas por países como Colômbia, Peru, Equador e Brasil, e também associada às religiões ayahuasqueiras, como Santo Daime, União do Vegetal e a Barquinha.” 
Mesmo assim, diz o professor, “persiste um certo preconceito de que seriam pesquisas feitas só para usuários de drogas ou que têm um certo perfil associado aos usuários de drogas recreativas, quando, na verdade, o que se busca é, com a seriedade da ciência, mostrar que dentro de um contexto seguro elas podem ter utilidade, inclusive médica, e com potencial de ajudar as pessoas.”

Foco de estudos no Brasil e no mundo

Santos lembra que todas essas pesquisas são feitas por uma grande equipe treinada, profissionais da saúde de várias áreas e inúmeros projetos estão acontecendo, tanto na FMRP como em vários outros centros no Brasil e no mundo.
“São centros que estão trabalhando tanto na área básica, como pré-clínica e também com seres humanos, e entre eles estão a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Universidade de Brasília (UnB) e a USP no campus em São Paulo.”
O pesquisador diz, ainda, que surgem cada vez mais núcleos estudando a ayahuasca, principalmente na área da saúde mental, envolvendo questões de transtornos psiquiátricos, inclusive no exterior. Atualmente a FMRP já tem parceiros na Espanha e na Holanda.
“Estados Unidos e vários países da Europa, como Austrália e Nova Zelândia, por exemplo, têm centros de pesquisa testando esses compostos; as pessoas não sabem disso e ainda têm a imagem de que essas substâncias sejam sempre associadas a um uso recreativo e pouco controlado.” 
Sua origem vegetal e o fato de serem utilizadas por comunidades tradicionais indígenas, diz o pesquisador, também podem ser um fator de desconfiança entre as pessoas. “É importante também saber que o uso é socialmente construtivo nessas comunidades e que o científico demonstra seu potencial terapêutico.” 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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