ROSAS E ESPINHOS

ROSAS E ESPINHOS

ROSAS E ESPINHOS

Por Maíra Gomes 

O machismo vosso de cada dia

Tirai dos nossos caminhos.

Uma vez por ano eles nos entregam rosas,

depois de um ano inteiro nos cravando espinhos.

No Brasil, a cada 7 horas uma mulher morre,

a mãe chora, o filho sofre,

mas enquanto ela apanha, ninguém socorre.

Porque é mais fácil ignorar:

“Ela tá com ele porque gosta de apanhar!”

Feminicídio virou palavra popular.

Nascer mulher é viver condenada,

Estupro, assédio, violência

“Veredicto? Culpada!”

E a sentença é viver com medo,

Porque não importa o que aconteça,

Eles vão sempre te apontar o dedo.

“Estava de burca, mas seu olhar pediu.”

“Estava chorando, mas consentiu.”

“E se bebeu, mereceu! Onde já se viu?”

Nos fizeram crer que, na flor da idade,

parir era nossa única finalidade.

“Não se casou? Encalhada!”

“Não tem filhos?

Coitada! Não sabe o que é amor de verdade.”

Perdoe o alarmismo e o tom de denúncia,

sei que há beleza na renúncia,

mas, mulher, não espere reciprocidade.

Não vinda do patriarcado.

Nossas lágrimas regam a colheita

nesse sistema equivocado.

E é o seu sonho que será sacrificado.

Sua faculdade, sua carreira,

nada é tão importante que não possa ser deixado de lado.

“Tudo em nome da família, amém?”

Os filhos são da mãe e às vezes nem pai têm.

Eu não quero flores

e os espinhos eu mesma arranco no dente.

Já aprendi o caminho e vou deixar minha semente.

Outras mulheres virão,

derrubando o machismo na unha

e a escolha é uma só:

Ser atropelado ou servir de testemunha?

images 2 1Maíra Gomes – Jornalista e escritora, em: Macabeá Edições. 

 

 

 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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