Sequestraram o coração do imperador!

Sequestraram o coração do imperador!

Lamentavelmente, para vergonha do País, surrupiaram o coração de Dom Pedro I do Brasil ou Dom Pedro IV de Portugal, preservado em formol há 187 anos, na noite do mesmo dia em que chegou ao Brasil, trasladado pela primeira vez da capela-mor da igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, para as comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil.

Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ)

Depois de sofrer estoicamente as patacoadas oficiais no Palácio do Planalto, o desafortunado órgão propulsor havia sido levado para uma vitrine instalada no Itamaraty, onde ficaria exposto ao público até o dia 5 de setembro. Na madrugada, porém, burlando a segurança conjunta da Polícia Federal e das Forças Armadas, os sequestradores perpetraram a barbaridade no melhor estilo da Missão Impossível, tendo neutralizado quase todas as câmeras de segurança.

Alguém se lembrou imediatamente que a mesma sorte havia sofrido a Taça Jules Rimet no fatídico 20 de dezembro de 1983, a qual foi derretida pelos ladrões sem qualquer senso de patriotismo, pouco interessados no valor simbólico do troféu, mais preocupados com o valor do reluzente vil metal. E agora, o que teriam feito os gatunos do 22 de agosto, mês do desgosto e de cachorro louco?

As primeiras especulações foram feitas por membros da família real brasileira, acionadas pelo ministro da Defesa. “Coisa dos comunistas, obviamente”, cravou um dos príncipes da Casa de Orleans e Bragança. Já o embaixador da nação irmã (ou será madrasta?) aventou a possibilidade de uma intriga internacional, talvez articulada por algum dentista brasileiro vítima de racismo em Lisboa.

Todos esses chutes escalafobéticos passaram longe da verdade, a mais comezinha possível, como se verá adiante. Mas, como se disse lá atrás, o quase não deixou que os bandidos cegassem todas as câmeras de segurança. A que restou ilesa flagrou a moto, com placa e tudo, em que escafederam os dois criminosos do horrendo delito de lesa-majestade. Cruzando dados, a PF logo os descobriu embuçados numa birosca do Sol Nascente, tomando cachaça e postando paródias de marchinhas imperiais no Instagram.

Acuados quando já raiava o astro-rei no bairro homônimo, a dupla confessou sem muita resistência o crime, sacando de não se sabe qual algibeira o argumento de que haviam praticado o que os advogados chamam de furto famélico.

“Doutor, faz dois anos que a gente não come carne, só ovo. O Auxílio Brasil só deu pra pagar as contas atrasadas da venda. A gente achou que essa era a grande oportunidade de tirar a barriga da miséria, a nossa e a dos vizinhos. Pode perguntar pra eles”. Assim discursou o Vando, o caçula.

“Quando a gente chegou, eu avisei à turma que ia servir um banquete imperial. Riram de mim, mal sabendo que eu estava falando a sério”, completou o mano Julinh

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Muito sentimental, um dos policiais se emocionou com a história, e se dispôs a fazer uma vaquinha para comprar uma cesta básica de carnes e embutidos para aquela família de dois ou três salários, se tanto. Pelo despropósito, o oficial da missão  quase lhe deu um safanão, ordenando carreira até a casa dos meliantes, devidamente algemados.

Lá chegando, os homens da ordem foram cercados por muitas mulheres, uma renca de moleques e alguns homens de mais idade. O alarido atraiu muito mais gente, assustando o oficial. Mas como ele não detectou sinais de beligerância, deixou estar para ouvir a versão do povo.

A mãe dos ladrões do coração imperial, Dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga da Silva, levou os policiais até um canto do quintal onde havia restos de uma fogueira ainda fumegante, e dezenas de espetinhos.

“Seu policial – disse a mulher -, eu tive de quebrar o vaso pra tirar o coração do imperador, olha ali os cacos. Eu cortei a carne em cubinhos pra distribuir churrasco pra todo mundo. Mas não vou mentir pro senhor, quase ninguém gostou, por causa do formol. Lavei, esfreguei, passei vinagre, limão, nada, não adiantou. Dei a desculpa que era coração marinado. Valeu pela festa, né!”

Enquanto um dos subordinados fotografava a cena do crime, e outro recolhia as evidências materiais, o oficial suspirou e mandou mensagens pelo rádio. Vendo que não havia mais o que fazer ali, comandou a retirada, com o Vando e o Júlio já encerrados na parte traseira do camburão.

Ocorre que a meninada havia se engraçado com o policial sentimental acima mencionado. “Nossa, moço, que bíceps que o senhor tem!”, disse uma garota. Ele sorriu, mas se conteve quando outra menina lhe deu uma cantada: “Mostra pra nós a sua barriga de tanquinho, vai!”

Ficou definitivamente sério e tratou de sair de fininho quando dois guris apalparam com a maior falta de respeito os seus glúteos acadêmicos, um dos pirralhos salivando: “Que bunda! Essa, sim, daria um belo churrasco”!

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora