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Sobre a legalização do aborto

Sobre a legalização do aborto

Marcia Elizabeth Bortone afirma: “Defender a vida implica sempre e torná-la mais humana e digna!” e apresenta justificativas contundentes que apontam positivamente para a legalização do aborto

Nesse final de 2020, a Argentina, além de estar vacinando sua população, o que não ocorre no Brasil, mais uma vez se antecipa como um país desenvolvido e aprova a legalização do aborto. Parabéns, presidente Alberto Fernandez!
Já no Brasil nem vacina temos e talvez nem tenhamos em janeiro, que dirá colocar em pauta a questão da legalização do aborto. É impressionante que vivamos em um mundo tão tecnologizado e, no entanto, convivamos com comportamentos, ideias, preconceitos, que remontam, no mínimo, ao século XIX.

A legalização do aborto no Brasil é uma questão que há muito merece atenção e respeito. Respeito ao corpo da mulher, respeito ao seu livre arbítrio. É doloroso que, em pleno século 21, as pessoas ainda misturem questões religiosas com decisões e posturas que dizem respeito à ética médica e social. É igualmente terrível ver homens legislando, decidindo e resolvendo leis que dizem respeito à mulher, ao seu corpo e à sua vida. É uma postura machista que, depois de todo um século de libertação feminina, ainda vigora. Isso parece inconcebível, mas ocorre, e o pior, ocorre em nosso país. Eu penso em quantos menores abandonados a menos teríamos, se já houvesse uma lei que permitisse o aborto em casos de extrema miséria social e psicológica da mãe. Muito pior do que uma criança com comprometimento cerebral – mas amada pelos pais, avós e irmãos- é aquela criança que nasce perfeita, mas que é odiada, abandonada e rejeitada pelos pais. A questão social não pode ser omitida, não pode ser colocada em um plano inferior, como se fosse algo de menor importância. A questão social é tão ou mais importante do que qualquer problema biológico e/ou neurológico que a criança possa apresentar. A forma como uma criança será criada quando exposta à miséria, à violência de abusos sexuais, à imaturidade e à loucura de pais usuários de drogas, é, a meu ver, extremamente dolorosa. Portanto, a miséria e a saúde mental dos pais deveriam ser razões mais do que suficientes para o aborto, o qual deveria ser, inclusive, estimulado nesses casos.

A igreja durante séculos vem desrespeitando, emudecendo, diminuindo e humilhando a mulher. É hora de dar um basta nesse jugo cruel e entender que quem manda em nosso corpo somos nós mesmas e somos nós porque só nós sabemos o quanto é belo e sublime ser mãe, mas sabemos também o quanto dói ver um menor abandonado, uma criança sendo vítima de maus tratos e de todo tipo de abuso que este mundo cruel pode lhe infligir.

Na mídia, a todo o momento, vemos fatos estarrecedores, mães que jogam a criança na privada, tentam afogá-la na lagoa, simulam atropelamentos, pais que jogam-na pela janela, pais, tios e avós que abusam sexualmente de crianças durante anos. Enfim, toda sorte de abandono, abuso e assassinato, que deixariam Herodes apavorado. Que moral é essa que proíbe o aborto, mas ignora a criança? O abandono e os maus-tratos que as crianças do Brasil e de inúmeros países, principalmente os subdesenvolvidos, sofrem é umas das questões mais dolorosas e cruéis do mundo moderno. Que moral é essa que em nome de uma religiosidade, pessoas tão pias e carolas desviam o olhar para a criança que passa fome e que cheira cola nas esquinas do nosso Brasil, que são violentadas constantemente de todas as formas? A igreja católica é cínica a respeito desse assunto As denúncias e mais denúncias que surgem contra padres que abusam sexualmente de crianças e adolescentes e de freiras que, estupradas em silêncio, recorrem ao aborto para assim manter a imagem da Igreja, derrubam totalmente o argumento de proteção à vida, criado pela igreja que tem bases de apelo emocional e, por isso não se sustenta.

Religião é ter coragem de enfrentar a nossa covardia diante de tanto horror. É pedir perdão a Deus por nos acomodarmos no nosso mundinho classe-média, ao invés de lutar contra o aborto clandestino, que enriquece milhares de médicos charlatões no Brasil. Lutar pela legalização do aborto é impedir o crescimento de uma rede ilegal de clínicas clandestinas e de contrabando, como a distribuição de remédios abortivos. Hoje, nas grandes cidades do país, vende-se Cytotec (remédio abortivo) nos mesmos lugares onde se compra cocaína.

Assim que o médico sanitarista José Gomes Temporão assumiu o Ministério da Saúde, no governo Lula, declarou-se publicamente a favor do debate sobre a legalização do aborto, citando as 22 mil curetagens anuais que a rede pública de saúde precisa fazer em mulheres vítimas de abortos mal feitos e falando, ainda, sobre as estatísticas de um milhão de abortos clandestinos feitos
no Brasil, anualmente. O aborto clandestino é a terceira causa de morte materna no país. Temporão talvez tenha sido o primeiro homem público a defender um debate sobre aborto de forma tão consistente na política brasileira.

É bom que fique claro que não sou a favor do aborto, aliás ninguém é; somos, sim, a favor de sua legalização em casos muito necessários. Estamos falando de uma prática que só deve ser feita em último caso, uma vez que se caracteriza como uma perda e, portanto, emocionalmente dolorosa. É exatamente por isso que o acesso aos métodos anticoncepcionais deve ser gratuito e
oferecido por todos os hospitais da rede pública de saúde. As dificuldades para o acesso aos mesmos hoje combinam falta de informação e de educação sexual, problemas econômicos ou mesmo relações opressoras, levando à necessidade de
realização do aborto clandestino, que, no Brasil, é causa de uma em cada quatro mortes maternas, segundo o banco de dados do Sistema Único de Saúde.

Queremos sonhar sim com um mundo onde todas as crianças sejam bem-vindas, onde não haja miséria, violência, estupro, e que nenhuma mulher precise abortar. Mas enquanto este mundo maravilhoso não existir, é dever de uma sociedade evoluída e democrática permitir que a mulher decida sobre sua vida e sua gestação e, principalmente, que menos crianças sejam vítimas de abuso sexual, fome, miséria e de todo tipo de violência. Vamos dar à mulher um pouco mais de dignidade e de respeito, acatando sua decisão e lhe dando suporte médico e psicológico para fazer um aborto com segurança. Vamos orientar e
informar as mulheres dos métodos contraceptivos para que elas não precisem recorrer ao aborto, mas vamos respeitá-las se essa for sua decisão.

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Marcia Bortone – Professora aposentada da UnB – Departamento Letras. Trabalha com a linha da Sociolinguística e é Membro Efetivo da Alaneg/RIDE – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano. Reside atualmente em São Lourenço – MG.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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