TXAI MACEDO: IRMÃO DOS POVOS ORIGINÁRIOS

TXAI MACEDO: IRMÃO DOS POVOS ORIGINÁRIOS
 
Entre os povos indígenas do Acre, a palavra “Txai” carrega um significado profundo. Não significa apenas amigo ou irmão. É um reconhecimento raro: alguém que atravessou as fronteiras do sangue e da etnia para tornar-se parte da comunidade, digno de confiança e respeito.
 
 
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Foto: Facebook Edinei Muniz
 
Quando diferentes povos da região passaram a chamar Antônio Luiz Batista de Macedo de Txai, estavam afirmando que aquele homem havia compreendido a essência da floresta e de seus povos. Sua trajetória, marcada por coragem, sensibilidade e firmeza, confunde-se com a própria história contemporânea das lutas socioambientais na Amazônia ocidental.
 
Nascido em 7 de maio de 1952, em Tarauacá, no Acre, Antônio Luiz Batista de Macedo veio ao mundo na Colocação Bagaceira, às margens do igarapé Pau Caído, no Seringal Transval, no Rio Muru. Era filho de Raimundo Batista de Macêdo e Carmina Caetano Barbosa, herdeiros de uma geração forjada no ciclo da borracha. Sua infância foi moldada pela floresta, pelo trabalho precoce e por uma convivência intensa com indígenas e seringueiros.
 
Seu pai, Raimundo Batista de Macêdo, tivera uma história singular. Nascido em Belém, deixou ainda menino o conforto familiar para acompanhar uma madrinha ao então distante território do Acre.
 
Nos seringais do Rio Muru, cresceu enfrentando o regime duro dos coronéis de barranco. Testemunhou castigos, correntes e humilhações impostas a trabalhadores endividados, mas também protagonizou atos de resistência, libertando companheiros presos e enfrentando o poder com dignidade. Tornou-se mateiro respeitado, regatão e profundo conhecedor da floresta. Foi ele quem transmitiu ao filho o senso de justiça, a coragem e o valor do conhecimento.
 
Dos três aos oito anos, Antônio viveu na aldeia Kaxinawá da Foz do Igarapé do Caucho, sendo criado sob costumes indígenas. Essa vivência deixou marcas definitivas em sua formação. Aprendeu cedo que a floresta é território sagrado, espaço de vida e de memória coletiva.
 
Dos oito aos doze anos já trabalhava como seringueiro mirim no Seringal Colombo, assumindo estradas de seringa e enfrentando, sozinho, os medos e mistérios da mata. Entre histórias de onças, Mapinguari e encantados, foi aprendendo a escutar a floresta e a respeitar seus silêncios.
 
Ao mesmo tempo, recebia do pai uma formação intelectual rigorosa. Decorava a história do Brasil, aprendia nomes de estados e capitais, lia e relia livros que depois precisava explicar. O menino da mata era também preparado para compreender o mundo. Essa combinação de experiência prática e reflexão crítica moldaria o futuro indigenista.
 
Em 24 de fevereiro de 1978, ingressou na Fundação Nacional do Índio (Funai). A experiência no órgão federal ampliou seu contato com a realidade dos povos indígenas do Acre e da região de Boca do Acre, no Amazonas. Mais do que uma função técnica, encontrou ali a confirmação de sua vocação: a defesa intransigente dos direitos territoriais e culturais dos povos originários.
 
Ainda no final da década de 1970, participou da fundação da Comissão Pró-Índio do Acre, ao lado de lideranças como Terry Vale de Aquino. Em pleno regime militar, a comissão tornou-se referência na denúncia de violências, na organização comunitária e na defesa das terras indígenas. Macedo atuou diretamente em conflitos fundiários, apoiando comunidades ameaçadas e enfrentando estruturas históricas de exploração.
 
Nos anos 1980, aproximou-se decisivamente do movimento seringueiro liderado por Chico Mendes. Foi um dos articuladores da Aliança dos Povos da Floresta, que uniu indígenas e seringueiros numa frente comum em defesa da floresta em pé e do direito ao território. Participou da construção de propostas pioneiras como as reservas extrativistas, ajudando a consolidar áreas como a do Rio Tejo e a do Alto Juruá, que se tornaram referências nacionais em política socioambiental.
 
Ao longo de mais de quatro décadas, Txai Macedo dedicou-se à identificação e demarcação de terras indígenas e à consolidação de reservas extrativistas. Seu trabalho contribuiu de maneira decisiva para que cerca de 47% do território acreano permanecesse protegido sob a forma de terras indígenas e unidades de conservação. Mais do que números, esse legado representa comunidades fortalecidas, culturas preservadas e floresta mantida em pé.
 
Sua atuação sempre foi marcada pela autonomia e pelo compromisso com as lideranças locais. Defendia que nenhuma política indigenista poderia ser construída sem a escuta direta dos povos envolvidos. Era respeitado por sua firmeza e, ao mesmo tempo, por sua capacidade de diálogo.
 
Antônio Luiz Batista de Macedo faleceu em 15 de fevereiro de 2026, em Cruzeiro do Sul, aos 73 anos. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas reconheceu oficialmente sua trajetória como servidor dedicado e defensor incansável dos povos indígenas do Acre.
 
Amigos e companheiros de luta lembraram sua generosidade, sua coragem serena e sua presença constante nas aldeias e comunidades da floresta.
 
Txai Macedo deixou um legado que ultrapassa cargos e instituições. Sua história começou na beira do rio, entre o látex e os ensinamentos de um pai resistente. Cresceu na convivência com os povos indígenas e amadureceu na luta política pela terra e pela dignidade. Tornou-se referência do indigenismo amazônico porque jamais abandonou suas raízes.
 
Guardião da floresta e irmão dos povos originários, Txai Macedo permanece vivo na memória do Acre e na história da Amazônia. Enquanto houver floresta em pé e povos lutando por seus direitos, seu nome continuará sendo pronunciado com respeito — como o de um verdadeiro txai.
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Foto: Reprodução/Internet
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LEGADO DO TXAI MACÊDO

Em 13 de setembro de 1991, o jornalista Toinho Alves publicou no jornal A Gazeta um relato impressionante sobre a tentativa de assassinato sofrida por Antônio Macêdo, o Txai Macêdo, em Marechal Thaumaturgo. Dias antes, Macedo havia subido o rio Juruá com uma equipe encarregada de cadastrar moradores da recém-criada Reserva Extrativista do Alto Juruá. O grupo reunia antropólogos — entre eles Terri Aquino —, o cinegrafista Jorge Nazaré, sociólogos e assessores do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).
Ao passar pela Vila Thaumaturgo, a equipe parou para comprar mantimentos. Foi quando ocorreu o ataque.
“Ao sair do comércio, cumprimentando as pessoas, Macedo foi atingido por um murro no rosto. O agressor, forte e grandalhão, puxou um revólver da cintura e apertou o gatilho duas ou três vezes”, relatou Toinho. A arma falhou. O tambor estava cheio, com seis balas. “Desculpem os materialistas, mas a única explicação que tenho é intervenção divina”, anotou o jornalista.
O autor do atentado, segundo o relato, chamava-se William.
Era filho de Naci, apontado como responsável por plantio de coca dentro da área indígena Kampa, no rio Amônia. Dias antes, lideranças indígenas haviam ido a Brasília denunciar o avanço do narcotráfico na região. Havia também a expectativa da chegada de uma comissão da Funai e da Polícia Federal para apurar as denúncias.
Para Toinho, o ataque não foi isolado. O agressor teria sido incentivado por interesses contrariados com a consolidação da reserva e com as investigações em curso. Como nos velhos filmes de bangue-bangue, o pistoleiro acreditava na impunidade: era parente de autoridade local e circulava sob a sombra de grupos políticos e econômicos influentes da região.
O clima de tensão se estendeu ao quartel da Polícia Militar, onde a equipe tentou registrar ocorrência. Houve discussão, versões desencontradas e até troca de socos entre Toinho e o soldado Onofre. O soldado se recusava a devolver uma faca apreendida que pertencia ao grupo e era indispensável para destrinchar mandis nas viagens pelos rios.
A expedição prosseguiu rio acima depois que a faca foi liberada. Mesmo com o olho roxo e os óculos quebrados, Macedo e Toinho retomaram viagem. O cadastramento precisava continuar.
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Fonte: Marcos Terena 
A batalha do Restauração
O atentado de 1991 não foi o primeiro. Dois anos antes, em 25 de junho de 1989, a Folha de São Paulo noticiava o retorno de Macedo e do líder seringueiro Francisco Barbosa de Melo, o Chico Ginu, ao Seringal Restauração, no rio Tejo. Ambos haviam passado mais de três meses afastados da área após sofrerem ameaças de morte.
Chico Ginu era vice-presidente do CNS. Macedo atuava como assessor da entidade. Juntos, lideravam a criação de uma cooperativa de trabalhadores extrativistas do Alto Juruá, iniciativa que rompia com o monopólio histórico dos seringalistas sobre a compra da borracha — tradicionalmente adquirida a preços irrisórios.
Entre os principais opositores estavam os empresários Marmud Cameli e Hugo Messias, ligados à família do ex-governador Orleir Messias Cameli e do atual governador Gladson Cameli. Eles ingressaram na Justiça com ações para tentar barrar a cooperativa.
Para enfrentar as pressões, Macedo e Chico Ginu buscaram apoio em Brasília. Reuniram-se com o então ministro da Justiça, Oscar Dias Corrêa, no governo José Sarney, além de entidades de apoio ao movimento seringueiro no Rio e em São Paulo. A cooperativa contava com financiamento do BNDES.
Fundada inicialmente como Associação de Seringueiros e Agricultores da Bacia do Rio Tejo, foi rebatizada como Associação dos Seringueiros e Agroextrativistas da Reserva Extrativista do Alto Juruá (ASAREAJ), atualmente uma organização comunitária fundamental na gestão da Reserva Extrativista do Alto Juruá (RESAJ).
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Fonte: Leandro Altheman Lopes 
O nascimento das reservas extrativistas
Mais do que resistir a atentados, Macedo ajudou a estruturar um novo modelo de política ambiental e agrária no Brasil. Ao lado de Chico Ginu e dos antropólogos Mauro Almeida e Manuela Carneiro da Cunha, participou da elaboração da minuta que deu origem artigo 9º da Lei 7.804, de 18 de julho de 1989.
Esta nova legislação modificou a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que regia a Política Nacional do Meio Ambiente. Entre as principais mudanças, criou o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e, em seu artigo 9º , permitiu a criação de reservas extrativistas e outras áreas protegidas.
Graças a esta legislação, em 23 de janeiro de 1990, foi oficialmente criada a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 506 mil hectares na fronteira do Acre com o Peru — considerada a primeira reserva extrativista do mundo.
Em recente entrevista a um podcast da região, Antônio Macedo lembrou que as reservas nasceram da união de seringueiros e indígenas através da Aliança dos Povos da Floresta, uma articulação que reuniu mais de 300 lideranças de todo o Brasil.
“O que começou com reuniões da Aliança dos Povos da Floresta transformou-se em política pública”, comemorou ele.
Entre murros, tiros que não dispararam e batalhas judiciais, Macedo e seus aliados desafiaram e derrotaram os coronéis de barranco e interesses consolidados das velhas oligarquias.

 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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