A brutalidade, a incompreensão, a ignorância, o carrancismo.
Os castigos corporais.
Nas casas. Nas escolas.
Nos quartéis e nas roças.
A criança não tinha vez,
Os adultos eram sádicos
aplicavam castigos humilhantes.
Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.
Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.
Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
Para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.
Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e racionada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.
Nasci para escrever, mas, o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros, contramarcaram minha vida.
Sou mais doceira e cozinheira
Do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.
Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez, por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus
reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compreensão dos
rígidos preconceitos do passado.
Preconceitos de classe.
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos.
Férreos preconceitos sociais.
A escola da vida me suplementou
as deficiências da escola primária
que outras o destino não me deu.
Foi assim que cheguei a este livro
Sem referências a mencionar.
Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.
Nem Menção Honrosa.
Nenhuma Láurea.
Apenas a autenticidade da minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias
Minha própria personalidade
renovada,
despedaçando dentro de mim
tudo que é velho e morto.
Luta, a palavra vibrante
que levanta os fracos
e determina os fortes.
Quem sentirá a Vida
destas páginas…
Gerações que hão de vir
de gerações que vão nascer.
Cora Coralina – Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a contista, poetisa e doceira de profissão, Cora Coralina, nasceu na cidade de Goiás em 20/08/1889 e faleceu em Goiânia, no dia 10/04/1985. Considerada uma das maiores escritoras brasileiras, dona Cora só teve seu primeiro livro “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” publicado em 1965, quando ela já tinha quase 76 anos de idade. Capa: Divulgação.
Foto: Reprodução/Internet
Cora Coralina: uma doce rebeldia
Cora Coralina: uma doce rebeldia Cora Coralina, nome fictício da escritora goiana Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, mulher simples, portadora de imensa veia poética. Cora Coralina faz-se doutora de vida e mestra de mestres. Essa mulher é estrela de primeira grandeza no cenário da literatura brasileira… Por Iêda Vilas-Bôas
Impossível falar da obra e vida de Cora Coralina sem ressaltar seu espírito libertário, seu caráter firme e suas atitudes instigadoras. A escritora nasceu em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás (Goiás Velho), então capital do estado.
Filha de Jacintha Luiza do Couto Brandão Peixoto e do desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães, a Ana que virou Cora e foi rejeitada pela cidade, a moça que escrevia desde os 15 anos e foi tida como plagiadora do parente importante, criou asas e ganhou fama.
Ana, que foi ficando moça velha, apegada aos livros, culta, inteligente, perspicaz e sem casamento, ousou obedecer aos arroubos de seu coração e fugiu com seu amado, após a passagem deste pelo norte de Goiás: homem separado, com filhos em São Paulo e uma filha mestiça.
Era Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, com quem teve seis filhos, quinze netos e nove bisnetos. Ao partir, levou consigo não mais que sonhos, que se desfizeram na rotina conjugal.
Esses problemas, vividos em total sensibilidade pela poeta, repercutiram em sua obra. Podemos observar embutidos em seus textos a atual e emblemática questão do gênero. A poeta vivia em uma sociedade patriarcal e machista, fato difícil de ser enfrentado nos séculos retrasado e passado e, com alguma abertura, essa dificuldade ainda é vigente neste século XXI.
Por esse viés, podemos entender todo o referencial feminino na obra de Cora, justificando sua preocupação em fazer emergir de seus poemas as vozes das mulheres excluídas de seu tempo. Cora cantou em sua lírica inovadora e de próprio estilo a luta, as adversidades, e nos apresentou a sua fortaleza diante dos percalços vividos.
Mulher, mãe, poeta, avó, doceira, brigona, por vezes mal humorada, deve ser entendida e admirada como um ser iluminado. Pessoa extremamente sensível, de conversa fácil e pensamento complexo. Impossível de ser esquecida, tinha suas manias, o dicionário como livro de cabeceira, seus dizeres, seus ditados… Antes de trazer seus poemas para a palavra escrita fez poesias usando seu inventário de vida.
Cora tinha censores intra e extracasa, mas sua poesia extrapolava estes e outros e tantos limites. Essa fantástica Cora Coralina compõe-se de várias mulheres: a Ana revolucionária, feminista, religiosa e líder política que enviuvou, viveu em terras distantes por 45 anos, plantou rosas e depois retornou à Goiás de sua meninice. Aos 76 anos, publicou seu primeiro livro, reconquistou a Casa Velha da Ponte, construiu um belo nome de doceira e fez poesia. Faleceu em 10 de abril de 1985, em Goiânia – Goiás, aos 96 anos de idade.
Dentro do sistema patriarcal e tradicional, era esperado que a mulher se sujeitasse à superioridade masculina. Ao homem cabia o papel de independência, decisões racionais, competência, diligência e poderio.
A mulher deveria seguir um modelo preestabelecido de emoção e sentimentalismo, sendo legitimadora do padrão machista. Os versos de seu poema Das Pedras traduzem sua angústia em obedecer aos conceitos que não se acomodavam em seu peito: Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi. (…) Uma estrada, um leito, uma casa, um companheiro. Tudo de pedra. Entre pedras cresceu a minha poesia. Minha vida… Quebrando pedras e plantando flores. Entre pedras que me esmagavam Levantei a pedra rude dos meus versos. Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor. Eu sou a fonte original de toda a vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta do teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranquila ao teu esforço. (…) Eu sou a grande Mãe universal.
A esta altura, cabe indagar: quem é essa mulher? Quem é, afinal, Cora Coralina? Ousamos responder por sua própria voz: A poética de Cora Coralina é a encarnação da tessitura dos encontros e confrontos das energias entre Eros e Thanatos. Sua poesia traz a força e a delicadeza das coisas naturais.
Cora se intitula “cabocla velha” em Todas as Vidas. Por essa velhice passa a transcendência da vida. O verso serve de ponte para que nos lancemos a um inesgotável e antigo questionamento. Afinal… Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
Seus poemas em prosa ou verso chegam-nos como a mais deliciosa história. Têm início, reflexões em seu meio, e o fim que deixa quase sempre, na alma de quem a lê, um sentimento de quero mais. A obra de Cora serve de instrumento de socialização da língua portuguesa.
Neste sentido a linguagem de Cora é a sua casa. Nela a linguagem entra e se sente à vontade para colocar as alpercatas e se espalhar na velha cadeira de balanço que, de sentinela, vigia a passagem do corredor sempre aberto para os aposentos internos da Casa Velha da Ponte. Estão imbricadas: a linguagem, Cora e a Casa. E dessa tríade nasce a mais pura das poesias.
A poética de Cora pode ser entendida como um fenômeno que consegue resgatar os finos limiares entre sentimento, poesia e sociedade.
A poeta goiana desvenda-nos seu mundo intrassubjetivo e vai construindo paragens, paisagens, portos, ancoradouros – utópicos, alegóricos ou não – de onde conclama seu povo, sua cidadezinha, seus leitores, que são muitos, pelo mundo afora, a olhar, com ela e por ela, da mesma janela da Casa Velha da Ponte, para que, juntos, possam vislumbrar a mesma visagem, ainda que sob perspectivas difusas e diferentes.
Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.
Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.
Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.
Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.
Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.
Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.
Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.
Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.
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