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U’wa, guardiões da nossa mãe terra

U’wa, guardiões da nossa mãe terra

U’wa, guardiões da nossa mãe terra

Antes da invasão dos espanhóis durante a colonização, os U’wa eram uma comunidade formada por 16 clãs e eram melhor conhecidos como “Os Tunebos”, espalhados por território que hoje compreende Colômbia e Venezuela. Ao longo dos anos, e após inúmeros ataques, têm sobrevivido 3 clãs U’wa, formando uma comunidade com um total de 8.000 pessoas…

Por Juan Manuel P. Domínguez/via Mídia NINJA

O primeiro episódio que tornou conhecidos os U’wa data de aproximadamente o ano 1850. Os cronistas da época relatam que diante do desespero pelo domínio espanhol, crianças, mulheres, anciãos e homens chegaram ao pico da montanha “Gloria dos Tunebos”, colocaram enormes potes de barro nos pés, para assim serem rolados ao abismo e causarem sua autoliquidação. Por muitos anos, milhares de esqueletos foram observados no abismo daquela rocha, como um símbolo da aniquilação da raça americana pela invasão da civilização branca.

“U’wa” significa, na língua tunebo, “gente inteligente que sabe falar” e segundo a sua própria cosmogonia, os U’wa são os guardiões da nossa mãe terra, e tem como missão no mundo “manter o equilíbrio entre o mundo de cima e o mundo daqui embaixo”.  No ano 2002, a partir de protestos nas estradas entre Curabá e Toledo, e com a ajuda e solidariedade dos movimentos sociais e organizações ambientais colombianas e internacionais, os U’wa conquistaram um valioso triunfo diante da OXY (Occidental Petroleum). Até hoje os U’wa são sinônimos de resistência indígena no nosso continente, sendo também um patrimônio importante para a conservação da cultura milenar que aflorou na nossa mãe terra.

De 16 clãs que existiam antes da chegada dos espanhóis, hoje sobrevivem na margem sul e sudeste da Sierra Nevada del Cocuy, três ou quatro clãs, entre os departamentos de Boyac, Santander, Norte de Santander.

“Esses índios Tunebo são mansos, pequenos, roliços, morenos e tristes, profundamente tristes. Eles encarnam o protótipo da raça vencida com seu olhar incerto, seus gestos desajeitados, preguiçosos, inconscientes, sem ambições e sem futuro”. Reza um texto apócrifo espanhol. O olhar do colonizador só poderia ter esse tempero de desprezo, único argumento para legitimar a barbárie da conquista.

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Foto: Luis Carlos Osorio- Actualidad Étnica

Mas o que os europeus não entenderam (nunca, durante todo o processo de conquista) é que no mundo que se lhes oferecia, diferentes formas de existência e resistência floresciam no território que foram incapazes de compreender:

“Nós não somos guerreiros”, disse um líder U’wa em conversa com Ann Osborn, antropóloga inglesa na cidade de Saravena (Arauca) “somos intelectuais, gostamos de observar e pensar. Sim somos U’wa é porque falamos a língua, temos palavras” e continua “O homem é o único ser que fala, portanto ele será o único que pode dominar a natureza, pelo caráter mágico da palavra”. O Tunebo  pensa que tem esse poder e não o reconhece nos outros, porque eles ignoram sua lingua, a língua U´wa, sinônima de ‘o ser inteligente’.

Entre 1635 e 1650, os índios tunevas, como eram chamados, desenvolveram um movimento de resistência na região de Servitá, atual departamento de Santander, e acabaram fugindo da encomienda para as montanhas da Serranía de los Infieles, gritando de ” não temos nem deus nem rei, e eles têm que nos conquistar novamente”.

Por quase 200 anos, os U’wa se refugiaram nas montanhas Chita e Cocuy da Cordilheira Oriental, em territórios selvagens que os protegiam da dominação e extermínio espanhol.

Já na época republicana, sua resistência os levou a cometer um suicídio coletivo, no lugar conhecido como Peña de la Gloria, município de Cocuy, Boyacá. Este facto que marcou a sua história, explica Salazar dizendo que “quando os U’was sentiram que o seu último refúgio na terra estava a perder, a sua estratégia foi desistir de viver, seguindo assim o destino da Mãe Terra… e assim também renunciam a ver sua agonia”.

Nascemos como filhos da terra… isso não podemos mudar, nem os índios, nem o homem branco (riowa). Mais de mil vezes e de mil maneiras diferentes, dissemos que a Terra é nossa mãe, que não podemos e não queremos vendê-la, mas o homem branco parece não ter entendido, insiste em em que cedamos, vendamos ou maltratemos nossa terra, como se o índio também fosse um homem de muitas palavras.

Nos perguntamos: será costume do homem branco vender sua mãe? Nós não sabemos, mas o que nós, U’WA, sabemos, é que o homem branco usa a mentira como se gostasse dela, sabe como enganar, mata seu próprio filho sem mesmo permitir que seus olhos vejam o sol, nem seu nariz cheire a erva, isso é algo abominável, mesmo para um “selvagem”.

Em esse primeiro trecho do manifesto U´wa, disponível em espanhol no site “World Conscious Pact” percebemos uma questão bem presente na cosmogonia dos povos andinos “A supremacia da natureza por encima do desejo do homem”

A lei do nosso povo difere da do branco, porque a lei de riowa vem dos homens e está escrita no papel, enquanto a lei de nosso povo foi Sira (Deus) que a ditou e escreveu no coração de nossos Weryajas sábios (xamãs). O respeito ao vivo e ao não vivo e ao conhecido e ao “desconhecido” faz parte da nossa lei: nossa missão no mundo é narrá-la, cantá-la e cumpri-la para sustentar o equilíbrio do universo.

Os U’wa rebatem a supervalorização da escrita pelos europeus e contrapõem à escrita a sabedoria da linguagem oral, onde a sabedoria não se consolida através do acúmulo de conhecimento e sim por indução da experiência vivida de forma coletiva. Para os povos andinos (e isto é chocante para qualquer ocidental hoje) o maior tesouro de um povo é a sua sabedoria. Porém, é preciso assinalar que, mais uma vez, essa sabedoria não se fundamenta no acúmulo de conhecimento (que conforma o estereótipo do intelectual ocidental) e sim pela seleção de conhecimento e experiência. Sabedoria é saber escolher o que queremos saber, na visão U`wa e de forma geral, no resto dos povos andinos.

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Nossa lei u’wchita é um dos bastões que sustenta o mundo. Nossa lei é tão antiga como a própria Terra, nossa cultura foi organizada seguindo o modelo de criação, por isso, nossa lei é não carregar o que não é necessário e é a mesma em todas as partes, porque é a lei da terra e a terra é uma só. Nossa lei não vai morrer!

A floresta é o cordão umbilical que nos une à existência, nós sobrevivemos graças a ela e ela sobreviveu graças ao seu respeito. Nossa separação traria um vazio que engoliria tudo, exceto o deserto.

O futuro do homem branco se nubla com cada gota de óleo que ele derrama na transparência de nossos rios, seu destino se torna mais letal com cada gota de pesticida que deposita neles. Nossos rios não são apenas rios; através deles nos comunicamos com nossas divindades, são mensageiros e as mensagens fluem em ambos os sentidos. Se eles se sujam ou morrem, já não saberíamos o que querem os deuses, assim como os deuses não escutariam nossos chamamos, nem nossos agradecimentos, então, provocaríamos sua ira. Os rios, em toda nossa terra, já estão muito bravos com os riowa.

O homem branco declarou guerra a tudo, exceto à sua pobreza interior. Ele declarou  guerra ao tempo e até  a si mesmo, como outro irmão indígena de uma aldeia distante disse: “o homem branco cavalga sobre o progresso em direção a sua própria destruição”.

Tudo o que nos foi dado, é divino, por isso, não precisamos de nada além da conexão espiritual com o que temos. Os U´wa defenderam o território que lhes foi dado de forma feroz durante quase uma década, desde finais da década dos 90 até finais da primeira década de 2000. Sendo o povo U´wa um exemplo de resistência e conquista de direitos territoriais diante corporações no continente americano.

O homem segue a procurar ruiria (petróleo), e em casa explosão que ocorre na selva, ouvimos a monstruosa pisada da morte que nos persegue através das montanhas. Este é nosso testamento. Ao ritmo em que o mundo vai, terá um dia em que o homem substituirá as montanhas do condor por montanhas de dinheiro. Então, esse homem já não terá a quem comprar nada; e se houvesse, esse homem já não teria nada a vender.

O universo pertence a Sira, e nós, U’WA, somos apenas administradores, somos somente uma corda do redondo tecido da irokua (mochila), mas o tecelão é Ele. Por isso, os U’WA não podemos ceder, maltratar, nem vender a terra, nem seu sangue, nem as suas criaturas, porque estes não são os princípios do tecido.

Os U´wa defenderam os bosques de Sirirí e Batleya, através de processos de consulta e da ajuda de organizações internacionais de defesa ambiental e indigena. Em 2015 o governo da Colombia, mais uma vez junto a Ecopetrol e OXY. A exploração de hidrocarbonetos tornou-se um dos pilares da economia colombiana, já que por meio de transferências o país receberá 7,3 bilhões de pesos, que segundo o jornal La República provêm, além dos lucros, de royalties sobre a produção de petróleo bruto (2,9 bilhões de pesos). Isso é consistente com o Plano de Desenvolvimento do governo, cujas principais estratégias é a produção de hidrocarbonetos, desenvolvida por meio do fortalecimento comercial do setor de mineração em mercados internacionais de alto valor agregado, como a indústria do carvão e a produção de petróleo e seus derivados .

Cada vez que uma espécie se extingue, o homem acerca sua própria extinção, cada vez que um povo indígena se extingue, não é apenas uma tribo que se extingue, é um membro da grande família humana que deixou para sempre em uma viagem sem retorno. 

Cada espécie extinta é um grave dano à vida. Ou o homem se reduzirá à vida e a sobrevivência virá. Quem sabe antes tenha piedade dele e permita que ele levante a maravilha de um mundo e a grandeza de um universo que se estende além do diâmetro de uma moeda.

O manifesto U´wa expressa a sabedoria dos povos originários, silenciada, massacrada e perseguida até os confins de um continente do qual são guardiões milenares por um mundo ocidental que gira há séculos à deriva do seu acelerado auto extermínio.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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