VÊNUS DE 2026
Na silhueta da moradia, as antenas apontam para Vênus como resultado de um gesto fotográfico contemplativo, mas também como símbolo involuntário
Por Antenor Pinheiro
Expressa o céu que inaugura 2026, onde o planeta que expressa amor e beleza é recepcionado pelos metais frios domésticos a pedir ao cosmos o sinal da paz, enquanto na terra persistem ruídos de coerção, bombas e violência política. A imagem é simples, quase pueril, mas ela fala do continente acostumado a captar sinais distantes para entender a si mesmo. Fala da América Latina submetida a interferências externas embaladas como “ordem”, “segurança” e “democracia”, mas que historicamente traduzem sanções, asfixia econômica e desestabilização.
Neste incipiente 2026 é impossível olhar para as antenas poeticamente apontadas para Vênus sem lembrar da pressão contínua exercida pelos Estados Unidos contra a Venezuela, com impactos concretos brutais sobre a vida cotidiana de um povo inteiro. Ano novo é tempo de votos, escolhas morais aludidas nas festividades cristãs. No entanto, no contexto de novas agressões, os votos não podem ser de neutralidade, mas de posicionamento, porque soberania não é concessão, mas direito; porque nenhuma nação deve ser alvo de punições coletivas, nem refém de disputas geopolíticas travestidas de virtude.
As antenas voltadas para Vênus lembram que seguimos buscando horizontes mais altos porque Vênus é o astro mais brilhante do crepúsculo vespertino e anuncia manhãs capazes de sintonizar, menos o medo, e mais a dignidade; menos a tutela, e mais a autodeterminação. E que a América Latina fale com voz própria, sem ruídos impostos, onde pontes de cooperação prevaleçam sobre as sanções e insanos bloqueios; onde nossos telhados e antenas voltadas ao céu captem coragem, solidariedade ativa e luta rigorosa em defesa da soberania e da vida aqui no planeta Terra.
Antenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.










