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Jairo Lima: Sagrado de boteco e outras esquisitices…

Sagrado de boteco e outras reflexões sobre as esquisitices da semana – 

Por: Jairo Lima

Nesta semana confusa, onde uma forte chuva indicando a chegada de nosso ‘inverno’ amazônico trouxe destruição e prejuízos ao Seringal Empresa*, aqui pelas bandas do Juruá as águas ainda não caem com tanta frequência, mas o vento fresco e a sensação de ‘abafado’ é o sinal que vem muita água em breve.

Não posso dizer, nem reclamar que o mês octo** chegou de mansinho, em passos tediosos. Ao contrário, entre os afazeres da labuta diária e ‘papos de índio’ bem interessantes, não pude deixar de registrar em meus alfarrábios mentais algumas situações que, se não carecem de maior atenção através de um papo mais profundo, também não poderia deixar passar ao largo de minha pena. Destas situações cito uma bem interessante.

Vamos lá…

Jairo out10.1

Abrindo a semana recebi uma mensagem bem interessante, que se destacou dentre as demais, e instigou-me a buscar mais informações. Tratava-se de uma imagem, bem, de um desses ‘cartazes virtuais’ que as pessoas postam em suas redes sociais ou enviam por email.

Nela, um figura com cara de playboyzinho posava de cocar tendo ao fundo uma floresta, e esta era a imagem do ‘pajé’ que anunciava uns rituais, onde ministraria e aplicaria diferentes medicinas indígenas. Era uma postagem feita numa cidade do ‘sur’, onde certamente o figura reside.

Informando-me mais com a pessoa que me mandou a postagem, e que já conhecia um pouco da fama do tal ‘pajé’, soube que o cara até que é conhecido, faturando uma boa grana com seus rituais e circulando bem no chamado ‘circuito xamânico’. Nem acreditei, fiquei de cara. HÃ? Sério mesmo que essa galera aí do ‘sur’ cai na lenga lenga desse cara?
Gente… olhei pra foto do cara e não pude conter o riso.

Numa olhada rápida já dava pra sacar que tudo era muito fake, o figura com cara de surfista da praia do Santinho de Floripa, e com um quê de malandro das praias cariocas, olhando ‘pro além’ com aquele olhar de iluminado; a onça e a arara próximas e o resto da bicharada toda por perto, como se o mesmo estivesse numa versão amazônica do Jardim do Éden… caramba!

Será que ninguém aí do ‘sur’ que segue ou participa dos rituais dele não sacou a presepada? Basta uma voltinha pelo youtube pesquisando sobre os povos indígenas do Acre, seus rituais e etc, para sacar o tremendo 171 do cara, que mais parece um daqueles ‘caboclo’ das imagens de umbanda.

E o pior que tem um bocado desses por aí, mas o que mais me chama atenção é como isso ocorre muito aí pelas bandas ‘do outro ponto’ do mapa. Figuras como este e outros que postam seus tratamentos, sistemas e rituais não conseguiriam nem vender banana aqui pelas bandas, quanto mais posar de pajé.

Jairo out 10.2

Sei que, para mim que nasci e vivo no seio de onde estas medicinas, crenças e seres iluminados estão por todos os lado, pode parecer fácil estar falando isso, afinal, para termos acesso a um bom ritual de ayahuasca (Daime, Uni, Huni, etc), não
precisamos ir longe ou mesmo desembolsar mais que a grana do taxi, do ônibus ou gasolina.

Mas sei que as coisas tem um limite, e olha que até entendo o fato de se pagar para participar de rituais (não o pagamento pelas plantas, medicinas e pela bebida sagrada, pois foram dadas pela natureza), mas ser ludibriado dessa forma é algo que ainda estou começando a entender, através de conversas com amigos ou lendo relatos de quem já passou por uma bad trip com algum desses falsos xamãs.

Entendo que em dado momento da vida algumas pessoas têm necessidade de ‘algo mais’, de buscarem a si mesmas ou entender o ‘Tudo’, eu mesmo fui (sou e serei) assim, mas, é preciso cuidado antes de se entregar aos cuidados ou direcionamento espiritual de qualquer um, principalmente porque estes utilizam no processo plantas e substâncias que podem trazer consequências sérias (tanto material quanto espiritual) se não forem corretamente utilizadas.

A coisa é séria, muito séria, mas, em nome desse câncer humano chamado ‘dinheiro’ ou pelo ópio do ego, chamado ‘sensação de poder’, tem muita gente se passando por xamã, ou criando espaços para a chamada ‘terapia xamânica’ (juro que estou tentando ser tolerante com essas coisas mas..), mas nem todos, melhor quase nenhum desses tem preparo para fazer algo sério, ou que eleve espiritualmente alguém. Isso sem falar que, em termos de cura e alívio, esse povinho não tem nem a força de uma aspirina.

Claro que estou sendo até tradicionalista/conservador demais, em achar que todos que vão para os rituais de ayahuasca, ou que tomam o kambô, ou que aspiram o rapé e demais produtos do panteão sagrado indígena estão em busca de alguma elevação.

Sei que muitos buscam é pelo barato da coisa mesmo, pela experimentação da sensação que isso lhes dá, ou, ainda, pela paz de espírito momentânea que esse contato possa trazer como parte do seu ‘sagrado’ particular.

Beleza, tem disso mesmo, normal e faz parte da coisa mas, até nisso é preciso cuidado com esses ‘Tabajara’ por aí, que acham que estão num balcão de algum boteco fuleiro servindo beberagens, quando, na verdade estão mexendo com forças poderosas, emanadas de uma ancestralidade tão primeva e essencial que até os dias atuais movem e deslocam não só a humanidade, mas sim, o ‘Tudo’ que existe.

Nessa situação toda, as regiões Sudeste e Sul são o Eldorado para essas figuras que buscam se dar bem. O pior é que se dão bem mesmo. Encontram solo fértil em pessoas que  buscam alguma luz e orientação para aguentar as engrenagens.

Jairo out 10.3

 

Gosto muito de alguns desses lugares, em especial de Santa Catarina, e foi com pesar que soube de uns ‘pajecas’ deitando e rolando nos bolsos e na vida espiritual de alguns, que inocentemente se deixaram levar pela oportunidade de ‘participar de um ritual com um pajé da amazônia’.

Olha, pra finalizar esse espinhoso assunto, cito que não vejo o porquê desses (dessas) figuras precisarem apelar para essa fantasia toda.   Tudo bem que a mística em torno dos indígenas tem um apelo bem maior, principalmente na nossa sociedade bombardeada por estereótipos e pela lavagem cerebral de décadas de cartoons animados, filmes, livros e o escambau a quatro, que fixaram em nossas mentes símbolos que, em nossa pequena compreensão, remetem diretamente à determinadas percepções.

Assim, quando estes se travestem de ‘pajé’, assumem uma simbologia que, para eles e uma parcela de seguidores, dará mais status de um verdadeiro ‘sagrado’ no que fazem. Bobeira isso, tremenda bobagem. Se estes gastassem mais energia aprimorando seu aprendizado espiritual e o entendimento das dimensões e caminhos sagrados, em vez de gastarem recursos posando de ‘índios fake’, certamente, estariam realmente ajudando aos outros e a si mesmos, sendo ELES MESMOS.

Nessas regiões é possível encontrar indígenas (verdadeiros) que realizam rituais e ministram medicinas. Claro que é preciso cuidado ao se submeter aos rituais, mas ao menos, é algo real, verdadeiro, e as peias espirituais que venham a cair sobre todos ao menos são por questões dos carmas de cada um, não por causa de estarem sendo induzidos à sensação vertiginosa do velho deus Caos***.

Sei que muitos têm curiosidade e vontade de participar destes momentos do sagrado indígena. Para estes indico que pesquisem antes, se informem e, podendo, busquem se aprofundar nesse caminho, vale a pena. Claro, desde que seja um caminho sério, verdadeiro.

Finalizo este papo de hoje indicando que, se for assistir rituais com não-índios usando acessórios indígenas, que ao menos seja num bom terreiro, assistindo uma gira, ao menos os espíritos que baixam no quengo desses tem o direito de assim se portarem e se vestirem. Não serve isso? Bem, fiquei sabendo que tá rolando umas promoções bem interessantes de passagens aéreas para o Acre, dá tempo ainda de assistir os últimos festivais do ano.

ANOTE AÍ:

Jairo Xapuri 1
Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, no Acre.

Notas do Autor:
* Rio Branco, capital do Acre. Seringal Empresa é o nome original da localidade, no século XIX e início do século XX.
** Palavra latina que originou o nome do mês de outubro.
*** O deus grego Caos era representava o ‘nada’, uma queda infinita.

Créditos das imagens, selecionadas pelo autor: Imagem 1: Caipora, divulgação; Imagem 2: Guillem Mari; Imagem 3: Blog Celudiunião; Imagem 4 (Capa): Lu Lacerda.

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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