A LENDA DO MORRO DO CACHORRO

A Lenda do Morro do Cachorro

No caminho entre a localidade Palmeira e Lagoa Alegre, havia um ponto de passagem temido por muitos: o “Morro do Cachorro”. O lugar carregava fama de ser mal assombrado, pois durante muito tempo um misterioso cachorro surgia inesperadamente, assustando moradores e viajantes que ousavam atravessar a passagem.

Por Thiago Inácio/Causos Assustadores do Piauí

Diz a tradição oral que o espírito do animal se manifestava de duas formas. Quando surgia na forma de um cão branco, os viajantes podiam seguir sem medo, pois acreditava-se que o caminho estava seguro.

Mas se o cachorro aparecia negro, com uma mancha branca sobre o peito, o presságio era sombrio, muitas vezes, obrigando os passantes a voltarem, convencidos de que algo maligno os espreitava na escuridão.

Em certa ocasião, dois amigos resolveram atravessar o Morro do Cachorro a caminho de um comício no povoado Lagoa Alegre. A noite já caía quando eles começaram a avançar pela mata fechada. Por volta das sete horas, eles notaram uma presença estranha, que os seguia silenciosamente à distância.

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Era uma criatura sinistra, que tinha a forma de um cachorro, mas com olhos sombrios fixados nos dois, observando cada movimento, como se os estudasse nas sombras.
Tomado pelo medo, o amigo que vinha mais atrás acelerou o passo, ultrapassando o outro, como se esperasse que a criatura se contentasse com aquele que ficasse por último. Mesmo apavorados, os dois seguiram em frente, esforçando-se para ignorar a presença que os seguia.
Por um longo trecho, os dois mantiveram aquele jogo com o bicho, até que finalmente chegaram a uma encruzilhada – o local onde hoje fica o bairro Recanto das Palmeiras, que na época era apenas um trecho de mata fechada.
Lá, o estranho “cachorro”, como se respeitasse uma fronteira invisível, parou e sentou-se se no meio do caminho, observando-os com seus olhos ameaçadores enquanto os dois se afastavam.
Segundo a crença popular, encruzilhadas são lugares místicos, por onde visagens e malassombros não podem cruzar. Acredita-se que esses pontos marcam a divisão entre o mundo dos vivos e o desconhecido, impedindo que certas entidades avancem além de seus domínios.
Naquela noite, foi esse limite invisível que salvou os dois amigos de um destino incerto, permitindo-lhes escapar do terrível figura do cão.
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Morro do Cachorro
INÁCIO, Thiago. Lendas, Causos & Mitos: Contos Populares de Lagoa Alegre. Lagoa Alegre, PI, 2025.
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Morro do Cachorro

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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