ESCRAVOCRATA ANA JENSEN, “CARTÃO POSTAL” NO MARANHÃO

ESCRAVOCRATA ANA JENSEN, “CARTÃO POSTAL” NO MARANHÃO

Ao cruzar o Centro Histórico de São Luís e atravessar a ponte que leva o nome do ex-governador maranhense José Sarney, cruzando sobre o rio Anil, o traçado urbano se reorganiza e dá lugar aos edifícios residenciais e hoteis de alto padrão, que rodeiam um dos pontos turísticos mais famosos da cidade: a Lagoa da Jansen.

Por Rafael Custódio/A Pública 

O cartão postal de 150 hectares tem um parque ecológico, atrai praticantes de esportes e vira palco de eventos culturais de grande escala na capital maranhense. Quem visita o local, lar da estátua da serpente Lulu, passa ao largo do significado que carrega o nome do ponto turístico, batizado em homenagem a uma das mulheres mais ricas da história local, que mantinha pelo menos 800 pessoas escravizadas em suas vastas propriedades de terra e cuja crueldade deu origem a uma das mais tradicionais lendas de assombração da cultura local.

Lagoa da Jansen, no coração de São Luis, um dos pontos turísticos mais conhecidos da capital maranhense, leva o nome de uma latifundiária que manteve mais de 800 pessoas escravizadas

A homenagem se refere à comerciante e latifundiária Anna Joaquina Jansen Pereira, originalmente com dois enes, mas conhecida como Ana Jansen ou somente “Donana”, matriarca lendária do Maranhão, que no século 19 era uma das mulheres mais ricas do estado. Seu poder econômico era tanto que ela financiou o Exército Imperial contra revoltas populares que eclodiram pelo Brasil. 

As mais de oito centenas de pessoas escravizadas foram um dos pontos usados para justificar um pedido de titulação ao imperador Dom Pedro II, em 1843. Jansen queria ser a baronesa de Santo Antônio, o que poderia lhe render prestígio político e acesso direto à corte brasileira.

lagoa da jansen wikipedia

Lagoa da Jensen

POR QUE ISSO IMPORTA?

O processo de revisão dos nomes de ruas, escolas e outros ambientes públicos já passou pelo escrutínio público no que diz respeito a figuras da ditadura, mas ainda falha no que diz respeito a personagem reconhecidamente promotores de violações aos direitos humanos.
Segundo o requerimento de título, os trabalhadores escravizados trabalhavam no plantio e colheita de algodão e arroz, em suas 30 propriedades de imóveis e terras que somavam 14 léguas à época.

“É um nome que paira no imaginário popular aqui no Maranhão e geralmente está associado à imagem dessa senhora, proprietária de escravos e muito cruel”, explica a coautora do livro Senhora do Maranhão: uma biografia de Ana Jansen, Elizabeth Abrantes.

A Lagoa da Jansen se situa no que já foi uma das propriedades da latifundiária, o antigo Sítio Olaria, que condensava mangues e igarapés. Segundo Abrantes, que também é professora e historiadora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), a área era então conhecida como “Igarapé da Jansen”. Outras terras do Olaria foram desmembradas, vendidas e ocupadas desordenadamente após a morte de Ana Jansen, conforme descreve a historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix no livro São Luís do Maranhão, Corpo e Alma.

Representação da carruagem de Ana Jansen, lenda urbana contada até hoje em São Luís
A sociedade escravocrata e conservadora do século 19, em São Luís, era extremamente violenta com as pessoas escravizadas, o que, segundo a obra de Abrantes fazia “parte dos costumes de muitas famílias a utilização da tortura física”.

Jansen não era vista com bons olhos nem pelos pares, que questionavam sua moral. A imagem negativa da latifundiária contribuiu para a criação da lenda da “assombração da carruagem”, compartilhada pelos moradores de São Luís após sua morte e associada às supostas crueldades que Donana teria praticado em vida, o que teria feito sua alma ser condenada a vagar pela Terra.

“As pessoas, quando ouviam pela noite o toque dos cavalos passando pelas ruas aqui no centro histórico de São Luís, as pessoas ficavam com tanto medo que não tinham coragem nem de abrir a cortina da janela”, contou a professora Abrantes.

No entanto, a historiadora pondera que não há indícios de que as práticas de Donana fossem diferentes das que os senhores escravocratas praticavam à época. “Ana Jansen, como uma mulher do seu tempo, senhora de escravos, certamente não foi muito diferente dos seus congêneres, o que não significa que tenha sido a mais cruel, como fizeram crer os seus críticos”, argumentou. 

Além da lagoa, no bairro São Francisco, onde pesquisadores sugerem que tenha sido uma das propriedades de Ana Jansen, uma das mais importantes avenidas da capital que interliga o bairro à Ponta D’areia, também leva o nome da aristocrata. “É nesse contexto em que, infelizmente, muitas das vezes as homenagens se davam: posição política e econômica dessas pessoas, sendo principalmente no meio da elite”, explicou Abrantes. “Eu vejo a Ana Jansen nesse bojo aí, esse tipo de homenagem que não levava em consideração esse outro aspecto também, da opressão aos sujeitos escravizados”, concluiu. 

O DINHEIRO DE DONANA X O POVO

Durante o século 19, eclodiram pelo território brasileiro revoltas populares, que exigiam a instauração de uma república, o fim da escravização e movimentos separatistas, que foram duramente reprimidos pelas forças do Exército Imperial, financiadas pelas elites econômicas.

Agradecimento público do então presidente da província do Maranhão Cândido José Araújo Viana publicado em nota no jornal O Maranhense

De posse de mais de 30 propriedades e de 800 pessoas escravizadas, Ana Jansen foi um das que financiou a repressão a revoltas populares, como a Balaiada (1838-1841) e a Farroupilha (1835-1845), com dinheiro e até sacas de arroz, como forma de garantir as regalias que o regime imperial lhe rendiam.

Disputas políticas, pobreza, miséria e um alto número de pessoas escravizadas dominavam o Maranhão em meados do século 19, o que resultou na Balaiada. O movimento liderado por Manoel dos Anjos Ferreira e pelo quilombola Preto Cosme exigia a decentralização de poder, o fim do regime de escravidão e a separação do Maranhão do restante do território brasileiro.

Isidoro Jansen Pereira, segundo filho de Ana Jansen, recebeu o título de tenente-coronel da Guarda Nacional e atuou nas ações de repressão, que resultaram em mais de 10 mil mortes.

O apoio de Donana à repressão também se deu contra os farroupilhas no Rio Grande do Sul, fato destacado no pedido do título de baronesa ao imperador. “Tem prestado parte de seus bens a benefício da causa pública, e, ultimamente, fez o donativo de mil arrobas de arroz pilado e ensacado, por ano, enquanto durar a luta com os rebeldes do Rio Grande de São Pedro do Sul”, descreveu o procurador Manuel Jansen Pereira, também filho da latifundiária.

Em março de 1841, um agradecimento público do então presidente da província do Maranhão Cândido José Araújo Viana foi publicado em nota no jornal O Maranhense.

Vida e morte de uma lenda urbana

Ana Jensen

Foto: Wikipedia

Anna Joaquina de Castro Jansen Albuquerque nasceu em São Luís, em 1798, em uma família de comerciantes descendentes de portugueses. A ascensão social ocorreu após o casamento com Isidoro Rodrigues Pereira, um dos homens mais ricos da província no início do século 19. 

Pereira, 40 anos mais velho que a esposa, foi apenas um dos três homens com quem Ana Jansen se casou, passando quase 10 anos ao seu lado, até sua morte, em 1825. Viúva aos 27 anos e com seis filhos, ela herdou boa parte da fortuna do primeiro marido.

Donana casou-se outras duas vezes, primeiro com o desembargador Francisco Carneiro Pinto Vieira de Melo, ficando viúva aos 60 anos, e então com o empresário paraense Antônio Xavier da Silva Leite. 

Embora tivesse incorporado o sobrenome de seus companheiros no decorrer de seus casamentos, “nenhum deles conseguiu se sobrepor ao nome que escolheu para ser conhecida e que contribuiu para definir sua identidade: Ana Jansen”, descreveu Elizabeth Abrantes.

Donana era mal vista. Casada três vezes, todas após viver relações extraconjugais, era reprovada pela sociedade conservadora da época e, com isso, a população ludovicense passou a criar uma imagem ruim sobre sua vida. “Ela vai ser tratada como sendo uma mulher fora do padrão e algo que não deve servir de exemplo ou de modelo para ninguém”, explicou a professora da UEMA. 

“Então, a gente acredita que essas rivalidades, intrigas políticas, disputas mesmo nesse meio, isso vai contribuir muito para criar essa imagem de Ana Janssen como essa mulher cruel com essa violência extrema”, disse Abrantes. 

Ana Jansen morreu aos 71 anos, em São Luís, e contemplou os 11 filhos, netos e bisnetos em seu testamento, deixando pessoas que ela escravizava, terras, propriedades e dinheiro como herança. Ela jamais obteve o título de baronesa que buscava durante o império, mas teve o nome eternizado em logradouros públicos em São Luís até os dias de hoje.

Procurado pela Agência Pública para justificar a manutenção do nome de figuras escravocratas em importantes partes da capital ou se há iniciativas para a troca de nome em andamento, o Governo do Maranhão não respondeu até o momento. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.

Edição: Ed Wanderley

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Foto: Sérgio Vale 

MULHERES INDÍGENAS: DIVERSOS OLHARES, MUITOS PAPÉIS 

Observando a imagem que a revista Xapuri selecionou para ilustrar uma crônica minha, não deixei de perceber a beleza e a força que ela emanava. A imagem era uma fotografia, de Eliane Fernandes,  que mostrava duas indígenas Ashaninka, entre elas a agente de saúde Dora Piyanko Ashaninka.

Por Jairo Lima

Isso me fez pensar nessa figura, “mulher indígena”, na contemporaneidade indígena do Aquiry e o assim chamado “papel” que ocupa em sua comunidade e nos processos de interações e interlocução social com o mundo do Yura.

É muito comum que, ao ouvirmos falar da mulher indígena, somente façamos a ligação mental com os afazeres ditos “femininos” em uma aldeia, como cuidar dos filhos, preparar alimentos, cuidar da casa. Visão enganosa que podemos comparar com a ideia tradicional e conservadora de nossa sociedade, que ainda insiste no termo cafona e limitante do papel da mulher, enquadrando-a tão somente como “do lar”.

– Só que não, cara pálida!

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis
Mãe Kaxinawa – Foto: Nicole Algrantti

O assim chamado “universo feminino indígena” é muito amplo, e sem o qual, o que conhecemos como cultura indígena não teria a riqueza e profundidade que estamos acostumados a ver. Foi para as mulheres que a sagrada jiboia Yube ensinou os mistérios e os segredos dos kene e dos mitos do seu povo Huni Kuin. O povo Puyanawa não teria a técnica da pesca tradicional se não fosse graças a uma mulher.

O feminino em tudo se faz presente na cultura indígena e isso fica claríssimo quando analisamos a expressão máxima do sagrado indígena: ayahuasca. Resultado mágico da união da força do cipó com os encantos da folha. E aí que se mostra a força feminina que, representada pela folha, é responsável por revelar os mistérios sagrados da cultura ancestral e dos caminhos espirituais que oyuxin deve seguir.

As chamadas “artes indígenas” são impregnadas do saber e da energia tradicional

Eu, como me considero extremamente espiritualizado e dou muito valor às simbologias, faço questão de só usar kene kuin.feminina, emanadas a partir de sua manifestação física. Por exemplo, as famosas e populares pulseiras e colares Huni Kuin (Kaxinawá) feitas de miçangas possuem uma peculiaridade interessante, quando feitas por uma mulher são chamados kene kuin(desenho verdadeiro) e que traz uma energia especial e verdadeira dos ancestrais.

Quando feitas por homens, são conhecidos como dami (desenho qualquer, coisa, etc), que são bonitos e são da cultura, mas não tem a energia espiritual e sagrada dos ancestrais. Vale citar que outros povos indígenas locais tem, de modo geral, a mesma regra.

E o que dizer das pinturas corporais? Lindas e cheias de simbologias.

Tive inúmeras oportunidades de ter meu corpo pintado de desenhos tradicionais por mulheres de diferentes povos, e testifico que este é um processo único que vai nos remetendo, a cada traçado pintado em nossa pele, às origens e logos universais, bem como à nossa união com a força da natureza, com a qual convivemos enquanto viventes e com a qual nos harmonizaremos quando sob esta formos sepultados.

Uma prática que vem sendo recuperada nas aldeias é o da parteira tradicional. Figura importante e que liga a criança à tradição de seu povo logo ao nascer.

Os movimentos de fortalecimento ou recuperação da cultura tradicional seriam incipientes, se não contasse com o engajamento delas. Temos vários exemplos deste engajamento, espalhados pelas aldeias do Juruá. Um que acompanho de perto é o lindo trabalho desenvolvido pela Vari Puyanawa que, em breve, estará publicando suas pesquisas e “estudos” espirituais sobre kene tradicionais inspirados pelas mirações do Uni.

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Jovem Yawanawa. Foto: Sérgio Vale

Outros papéis comunitários vêm sendo ocupados pelas mulheres: professoras, agentes de saúde, presidentes de associações e cooperativas, entre outros.

Anos de convivência com os povos indígenas do Aquiry muito me ensinaram, principalmente a respeitar o papel da mulher e sua importância na dinâmica e no funcionamento de uma aldeia.

É por isso que sempre digo para os que não conhecem a cultura indígena: no fim das contas, acho que quem manda numa aldeia são as mulheres, pode ter certeza.Claro que, por ser homem, sempre fui excluído dos momentos em que as mulheres se dirigem aos roçados para colher macaxeira ou banana. Mas, pelos relatos de minhas companheiras indigenistas que já acompanharam estes momentos, é onde se pode aprender muito sobre a cultura e seus processos de tomada de decisão.

O mundo está sempre em transformação social e cultural, e claro, as comunidades indígenas, à exceção dos povos isolados, não estão imunes a estas transformações. Só que estas transformações, além de novos desafios, também vem trazendo ventos de mudança e expansão do papel da mulher neste universo social e cultural.

Temos muitos exemplos disso.

É cada vez mais comum esta participação nos processos de tomada de decisão e representatividade do movimento indígena, bem como de outros espaços ditos “de poder” que, até bem pouco tempo, tinham a figura masculina como referência.

Palavras como pajé, cacique, liderança, são só algumas que deixaram de se referir exclusivamente a atividades do homem. Pelo menos aqui no Aquiry. Assim, temos figuras queridas e fortes que assumiram papéis de referência em suas comunidades e em instituições, dando, além de um brilho e energias diferentes, um toque especial no trato da questão indígena.

São figuras como a Cacique Enir Shanenawa, que resolveu criar uma aldeia, a Shanekaya, com o objetivo de fortalecer a cultura do seu povo e não permitir a interferência dos maus costumes dos nawa, como o uso de bebidas alcoólicas. Esta comunidade hoje é referência em organização para seu povo, e vem se destacando na região como um local que cada vez mais recebe visitas e onde são realizadas atividades ligadas ao movimento indígena local.

E como não citar a coordenadora da Coordenação Regional Alto Purus, em Rio Branco, Maria Evanízia Puyanawa, que conseguiu recolocar em pleno funcionamento esta unidade da FUNAI, que praticamente estava inoperante e deteriorada.

E como não se encantar com o vídeo “Nixpu Pima – Rito de Passagem Huni Kuin”? Aqui no Juruá acostumamos com a presença e as palavras fortes de lideranças como Lucila Nawa, na luta pela regularização fundiária de sua terra; e da Edna Shanenawa, que vem encampando e lutando pelas políticas de gênero e fortalecimento dos conhecimentos do artesanato indígena, através da Associação de Artesãs e Artesãos do Vale do Juruá.videasta Pãteani Mara Vanessa Huni Kuin, apresentando uma visão única e rica da cerimônia de batismo tradicional de seu povo?

Não poderia deixar de citar a prof Francisca Yaka Shawãdawa, que iniciou sua trajetória no magistério indígena sob meus cuidados, há dezesseis anos atrás, e hoje é a presidente da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), referência na luta pelos direitos dos professores e pelas políticas voltadas à educação escolar indígena.

A presença e trabalhos cada vez mais reconhecidos e procurados das pajés Yawanawá  contribuíram para a quebra de paradigmas nesse nosso mundo em transição, onde o papel da mulher no assim chamado “sagrado indígena” assumiu nova posição. E, ao contrário do que acham, os assim chamados “puristas”, este movimento deu nova vida a este povo e serviu de referência para que outros passassem a considerar cada vez mais esta participação e protagonismo.

A saúde indígena do Juruá recebeu de braços abertos a médica Gilda Maria Yawanawá, primeira médica indígena do Acre, nascida e criada na Terra Indígena Rio Gregório e que, através de parcerias de seu povo foi para Cuba para cursar medicina e que, tendo retornado, atuará no atendimento de saúde aos povos indígenas do estado.

Citei estes exemplos, e poderia citar muitos outros, só aqui no Aquiry, isso sem contar no restante do país onde várias lideranças mulheres se destacam.Um movimento crescente, e que está se consolidando cada vez mais, é o intercambio e participação em diversas atividades no Brasil e no exterior de mestras e aprendizes da tradição, divulgando e apresentando a cultura de seus povos, sempre com alegria e com a energia cativante de sua presença. Entre estas mensageiras, não poderia deixar de citar a filha do saudoso Inkamuru, Ayani Huni Kuin.

Recentemente estive em Rio Branco, em uma série interminável de reuniões e, numa destas, reparei estar “cercado” de mulheres em destaque nos diferentes nichos de sua atuação. Foi um pensamento de relance, mas notei que estas se dividiam, em igual quantidade, entre indígenas e indigenistas. Lindo.

Não posso negar que me senti minoria, juntamente com outros colegas do sexo masculino, mas, ao contrário do sentimento de disputa, senti um algo reconfortante de saber que estas mulheres estavam ali, e que isso, pelo menos para mim, significava que teríamos sucesso no que estávamos discutindo.

Sempre achei a mulher indígena uma criatura linda, imbuída de uma beleza que transcende o material.Ah, sim! Não poderia deixar de citar que muitas destas mulheres são mães, esposas, estudantes, amigas, avós, etc. E sempre observei que, independentemente do que estejam desenvolvendo, jamais se esquecem destes compromissos familiares, sociais e culturais em que estão inseridas.

Sua presença nos ambientes nunca passa despercebida, pois inunda o espaço com a energia suave e colorida de seu yuxin. Carregando sobre si toda a sabedora e força entregues a seu ser pelos seres fantásticos e sagrados dos antepassados.

Não gosto da palavra “guardião” para classificar qualquer conhecedor da tradição indígena, por isso creio ser a mulher indígena, em vez de guardiã, a representação viva da força ancestral do seu povo e sem a qual este não teria razão de existir.

Não poderia terminar minha reflexão sem citar outra “categoria” de mulheres que, por seu engajamento, são consideradas como parte da cultura. Falo das indigenistas que dedicaram ou dedicam suas vidas ao trabalho junto às comunidades.

Pessoas maravilhosas, representadas pela figura guerreira e incansável da querida e eterna professora de indigenismo, Dedê Maia, que mesmo após ultrapassar a idade de aposentadoria, continua envolvida em projetos e lutas em prol dos direitos e chamada “agenda indígena”, e com a qual tenho a felicidade de cruzar, vez ou outra, em diferentes ambientais de trabalho.

Diferentemente de outras crônicas, nesta não citarei frase de algum pensador – ou pensadora – sobre o tema que discorri. Decidi isso simplesmente porque não acredito haver pensador ou filosofo que seja capaz de definir a mulher e, no caso em questão, a mulher indígena com toda a honra e louvores que esta merece.Finalizo atentando que iniciamos o mês chamado “outubro rosa”, dedicado à campanha que nos impele a refletir e contribuir, de alguma maneira, para a conscientização sobre a prevenção e o diagnostico precoce do câncer de mama. Não poderia me furtar de citar isso.

Notas do autor: Aquiry – Nome original do Estado do Acre. Yura – Não-índio

Jairo Lima  : Indigenista acreano. Escreve e publica crônicas semanais. Para ver mais e conhecer melhor o belo trabalho do Jairo, visite o blog Crônicas Indigenistas.

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis
Mulheres Ashaninka – Foto: Eliane Fernandes

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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