Entre cara e coroa: a moeda não decide
A literatura e a filosofia retornam a esse ponto repetidas vezes, por meio de autores de distintas correntes de pensamento. Para os estoicos, como Epicteto — que nasceu escravo —, não são as coisas que nos perturbam, mas o juízo que fazemos delas. O filósofo francês Albert Camus, mesmo diante do absurdo, encontra dignidade na recusa em desistir. A nossa Clarice Lispector lembra que a realidade não é simples, mas o olhar pode ser honesto — e a honestidade também é uma forma de esperança. Em todos esses casos, há um fio comum: viver é inevitável; interpretar é uma escolha.
Porque, no fim, a vida não nos pergunta apenas o que aconteceu, mas como escolhemos responder. E essa resposta, silenciosa ou ruidosa, ácida ou conciliadora, acaba dizendo muito mais sobre nós do que sobre o mundo.

Deixa eu te pegar pela mão e te mostrar como imagino esse diálogo: trata-se do embate silencioso entre duas leituras do mesmo mundo. Entre pessoas comuns. Prometo que está longe de ser uma conversa entre filósofos famosos ou entre Nikolas Ferreira e Silas Malafaia. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.
Imaginemos apenas a Cara e a Coroa.
Estão sentadas numa mesa de bar. A cerveja chega suada, o copo gelado, a conversa ainda meio atravessada pelo dia.
Cara dá um gole longo, como quem tenta engolir a semana que finda junto com a cerveja.
Cara: Maninha, acordar hoje em dia é um esporte radical. Antes do café, já tem treta no grupo da família, choro no Twitter por causa de imposto, e o noticiário com aquele horário fixo do desespero, horrível! E na política, se você não escolhe um lado pra gritar, é xingado pelos dois. E agora as fake news nem são mais feitas por humanos, viu? É a IA, a desgraçada, que inventa cada coisa…
O garçom passa. Cara levanta dois dedos, sinal universal de “desce mais uma!”.
Coroa: Ah, minha cara Cara, mas acordar também é um ato de rebeldia, pô! O mundo chega dando berro, mas tem gente que ainda tenta escutar no meio do caos. É tipo tentar ouvir o pronunciamento do Pastor Henrique quando o Paulo Bilynskyj tá presente na câmara. Difícil, mas não impossível.
Cara: Falando em IA, aquilo é o primo chato que veio “ajudar” e tá comendo tua comida. “Aprenda ou fique pra trás!”, falam os discípulos de Pablo Marçal, que provavelmente nunca ficaram até as 3h da manhã estudando pra concurso.
Coroa franze a testa, toma um gole pensativo.
Coroa: Pra mim, a IA é igual um espelho de parque de diversão: distorce tudo, mas mostra alguma coisa da gente. Assusta, claro. Mas, olha, desde quando aprender não dá medo? Tô vendo um monte de gente no trampo tentando fazer essa ferramenta obedecer. É feio? É. Mas tá andando. Melhor aprender do que ser bolsonarista…
Cara se remexe na cadeira.
Coroa: Vou dar uma escapada no banheiro. Sou Coroa e urgências da meia-idade não negociam, minha filha.
A filosofia fica guardada na mesa. Coroa levanta com um gemido de joelho ruim.
Cara: Vai lá que eu seguro os astros. Ou pelo menos não deixo o garçom levar a conta.
Cara fica rodando o copo, observando a espuma morrer.
Cara: E essa avidez por concurso público, né? Virou a nova loteria espiritual. Prometem estabilidade, mas o caminho é uma via-crúcis de cursinho, ansiedade e culpa por dormir. Quem passa vira santo. Quem não passa se sente um nada ambulante. Queria era entrar para a política, aí viraria funcionária pública sem precisar estudar…
Coroa volta, se ajeitando.
Coroa: Pronto, resolvido o problema imediato. Quem me dera os outros fossem assim… Olha, concurso é abrigo sim, mas a galera que tá na luta estudando de madrugada? Isso é resistência pura. Ninguém vê, ninguém bate palma, mas a luz tá acesa. E no meio disso, só o amor (e um café forte) pra segurar a barra.
Cara: Ah, o amor… (aponta discretamente um rapaz na mesa ao lado). Olha ali, aliança no dedo e olhando o cardápio como se fosse o Tinder. Hoje em dia relacionamento ruim virou reality show. Gente chamando ciúme doentio de “amor”, e a solidão chega de Uber mas a gente tem que fingir que tá tudo bem.

No fundo do bar, alguém ri muito alto.
Coroa: A gente se amarra todo errado mesmo. Aprendendo na raça e na dor que amor não é cadeia. Quando a gente consegue dar nome ao boi, ele não some, mas para de te pisar tanto.
Cara: E como aguentar? Fazemos igual ao prefeito de Manaus? Só na zoeira? Meme pesado, piada ácida. Rir virou equipamento de proteção emocional. Se levar a sério, afunda.
Coroa: É a nossa catarse, ué. Um meme não paga boleto, mas é aquele virtual “Tô contigo, mano”. Dá um alívio de 2 segundos que às vezes é o que basta.
O garçom desce a conta na mesa. As duas ignoram com maestria.
Cara: E o país aí, entretido com BBB, futebol e celebridade fazendo cagada. O pão e circo é em alta definição, com hate e like ao vivo. Ajuda a esquecer que o futuro tá mais caro que ingresso de show.
Coroa: É o nosso Brasil, Cara. Não seja tão intransigente. Às vezes é fuga, às vezes é só descanso da mente. Nem toda distração é burrice. O futuro ainda não tá todo escrito, podemos rabiscar algumas páginas.
Cara: E o trampo? A exploração agora tem perfil no LinkedIn. “Vista a camisa da empresa!” – que camisa, minha irmã? Eu tô é de corpinho suado. Quem reclama é “negativo”. Quem quebra é substituído.
Coroa: É osso. Mas eu vejo umas pequenas sabotagens gloriosas, que aproveitam as brechas do sistema. Gente botando limite, ajudando o colega escondido do chefe. A mudança dificilmente vem com fanfarra; vem tipo mudança de apartamento, aos poucos, de madrugada.
Cara: No fim, o que pega é o medo do amanhã. Medo de não dar conta, de virar estatística, de envelhecer e o Estado te abandonar. Cagaço mesmo.
Coroa: Esse medo é um morador antigo, conheço bem. Ele não vai embora. Mas agora divide o AP com a coragem, com o “vamo que vamo”, com a rede de amigos que segura a queda. Ele não é mais o dono da casa. É possível segurar o fiofó.
As duas ficam quietas por um instante, olhando o movimento.
Cara: Parece que ninguém tá de boa, né?
Coroa: Ninguém tá. Mas todo mundo tá se arrastando pra frente – meio torto, meio cansado, mas tá.
E, entre um gole e outro, a conversa continua…
Ainda assim, caboco, convém cuidado para não confundir fôlego com chegada. Seguir em frente, muitas vezes, é apenas a maneira possível de permanecer inteiro num mundo que insiste em desgastar. O olhar pode aliviar o peso do dia, mas o peso continua ali — exigindo mais do que interpretação.
Talvez o mérito não esteja em equilibrar a moeda nem em escolher o lado “certo”, mas em recusar a ideia de que continuar, por si só, seja tudo o que nos cabe. Porque até a leitura do mundo, quando se repete sem gesto, imobiliza.
Pedem a conta. O garçom pergunta: – pix, cartão ou dinheiro?
As duas optam por dinheiro, querem dar os 10% do garçom em moedas, dividido entre as duas. Mas não é possível a Cara pagar só com a Cara e a Coroa só com a coroa. Elas são inseparáveis.





