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A Lenda da Salamanca de Jarau

A Lenda da Salamanca de Jarau – Séculos atrás, quando caiu o último reduto árabe na Espanha, uma princesa moura veio fugida em uma urna de Salamanca, transfigurada em uma velha, para que não fosse reconhecida e aprisionada. Acabou indo morar no Cerro do Jarau, Quaraí, no Rio Grande do Sul.

Falam que ela foi enfeitiçada pelo próprio Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, pois a bela também se transforma em uma Teniaguá, uma espécie de lagartixa, com uma pedra preciosa cintilante no lugar da cabeça, cor de rubi, para fascinar os homens e os atrair ao inferno.

Num certo dia, com um sol de rachar, um sacristão jesuíta foi à lagoa refrescar-se e, num susto, deparou-se com a Teiniaguá saindo d’água. Como homem religioso, sabia que era uma princesa moura e, num gesto rápido, aprisionou-a numa guampa e esperou a noite chegar para vê-la. Quando o sol baixou, a princesa moura apareceu com um lindo sorriso rubro pedindo vinho. Vinho? Só o da santa missa. Já apaixonado, roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.

E as noites de repetiam felizes até que, os padres desconfiaram e, numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor, foi preso e acorrentado. Condenado a morte no garrote vil, na praça, diante da igreja, já para ser executado, a Teiniaguá surgiu de baixo da terra para salvar seu amado. O que se viu foi um estouro grande, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo. Houve fogo, fumaça, enxofre e tudo desapareceu de vista.

Descobriram depois, que a princesa e o sacristão viviam numa caverna muito funda e comprida, hoje conhecida como Salamanca do Jarau. Quem tivesse coragem de entrar lá, passasse 7 provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o resto da vida.

(Essa lenda nos foi lembrada por: Fernando Tissi e Valquíria – DF)

Fonte: Sacizal dos Pererês


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Réquiem para o Cerrado – O Simbólico e o Real na Terra das Plantas Tortas

Uma linda e singela história do Cerrado. Em comovente narrativa, o professor Altair Sales nos leva à vida simples e feliz  no “jardim das plantas tortas” de um pacato  povoado  cerratense, interrompida pela devastação do Cerrado nesses tempos cruéis que nos toca viver nos dias de hoje. 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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