ANCESTRALIZOU MÃE ANA DE OGUM SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA NO COMBATE AO RACISMO RELIGIOSO

ANCESTRALIZOU MÃE ANA DE OGUM

ANCESTRALIZOU MÃE ANA DE OGUM SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA NO COMBATE AO RACISMO RELIGIOSO

Mãe Ana de Ogum fez sua passagem no dia 8 de janeiro de 2026, em São Paulo (SP).

Por Maria Letícia Marques 

Mãe Ana de Ogum ou Agba Ana de Ògún era uma das lideranças mais respeitadas no candomblé, consagrando-se como um dos principais símbolos de luta contra o racismo religioso no Brasil. Formada na Casa de Oxumarê, a Ialorixá tornou-se referência na formação religiosa e na preservação das tradições de matriz africana.

“De trajetória irrefutavelmente ilibada, Agba Ana foi amada e admirada por todos que tiveram a honra de com ela conviver. Mulher de fé inabalável, sabedoria ancestral e profundo compromisso com o sagrado, dedicou sua vida à preservação, ao fortalecimento e à transmissão dos valores, fundamentos e ensinamentos que sustentam nossa tradição”, diz a nota oficial do Terreiro Ojú Onírè, casa que ela liderava em São Paulo (SP).

A matriarca Agbá Ana nasceu em 7 de janeiro de 1944, em Valença (BA), mudou-se para Salvador aos nove anos e, em 1970, estabeleceu-se em São Paulo, onde assumiu a liderança do Ilê Axé Ojú Onírè, casa à qual dedicou-se por cerca de 56 anos. Além de ter um espírito coletivo, responsável pelo seu vulgo “Ana do Povo”, ela era conhecida por ser ativa na comunidade e ajudar quem precisava.

Era filha de santo da Mãe Simplícia de Ogum, da Casa de Oxumarê, na capital baiana, e conviveu com o candomblé desde a infância, sendo iniciada no culto aos orixás em 24 de maio de 1960, aos 16 anos. A Casa de Oxumarê é referência central da tradição nagô no Brasil. Ao longo do tempo, após ser formada pela Ìyálórìsà Simplícia de Ògún, Mãe Ana passou a integrar uma linhagem responsável pela proteção dos ensinamentos e princípios transmitidos ao longo de gerações.

Agbá Ana consolidou-se como liderança reconhecida no candomblé e passou a dedicar-se à formação de filhos e filhas de santo em diversas regiões do país (tendo como um dos principais objetivos a preservação do axé como herança cultural) e à atuação no Conselho de Religiosos da Casa de Oxumarê.

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No ano de 2010, a Câmara Municipal de São Paulo concebeu uma homenagem a Mãe Ana com a Medalha Anchieta e o título de cidadã paulistana. No ano seguinte, ela também recebeu o Prêmio Luísa Mahin, marcando o Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe na capital paulista, onde premiou mulheres comprometidas com a valorização da cultura negra.

Maria Letícia Marques – Redatora da Revista Xapuri. Com informações do site “Alma Preta”.

ANA DE OGUM AWRE
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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