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Umbanda e Candomblé: conhecer é o caminho para o fim do preconceito

Umbanda e Candomblé: conhecer é o caminho para o fim do preconceito

Cerca de 400 lideranças do Candomblé e da Umbanda estiveram presentes ao encontro entre 13 e 16 de junho

Por Agatha Azevedo/Brasil de Fato

Com a benção dos mais velhos e dos mais novos, o itan e o oriki — formas de cântico e oração dos povos de axé no idioma yorubá — iniciam os trabalhos, as celebrações e as festividades dessa cultura milenar que resiste nos territórios tradicionais ao redor do mundo. E é sob este manto de ancestralidade espiritual que cada dia do 1º Encontro dos Povos de Terreiro “Ègbé — eu e o outro” se inicia, sempre respeitando os tempos dos orixás e do sagrado. O evento foi organizado pelo Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, e aconteceu entre 13 e 16 de junho, em Belo Horizonte (MG).

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Em meio a essa troca de energia, mulheres e homens de axé falam de suas realidades, e do sequestro de seus ancestrais africanos, vendidos em solo brasileiro, mas que mantiveram a ancestralidade mesmo debaixo do açoite. “A gente fez até uma estratégia política de esconder nossos Orixás atrás de um altar, e cultuar os santos da Igreja Católica para poder satisfazer os feitores”, explica Mãe Jaciara.

A baiana de 52 anos é uma yalorixá do Candomblé, e explica que “ser um yalorixá significa ser uma mãe da comunidade”. Ela conta também que “os terreiros de Candomblé hoje são um espaço de resistência, onde a liderança maior é matriarcal, mulheres são escolhidas para ser yalorixá”.

Mãe Jaciara explica que “o terreiro de Candomblé é um espaço que contempla reconstruir valores, e o principal é a questão da família pelo fato de nossa religião vir de África de uma forma subumana, arrancados de África tendo que ocultar o nome, esquecer a identidade”, diz e continua: “tem até uma história de que a gente tinha que dar 9 voltas na árvore para esquecer o que era ser africano — mas nós não éramos escravos em África, nós éramos reis e rainhas”.

Com quase meia década dedicadas às práticas e vivências das religiões afro, “30 anos de santo e 46 anos de jurema”, como ela diz, Mãe Izabel de Acorodan é uma doné da Umbanda — referência de maior idade e iniciação à religiosidade —, na Paraíba. Segundo ela, sua resistência cotidiana vem da espiritualidade ancestral, que mostra a necessidade de ajudar o outro.

“A Umbanda nos dá a magia para que a gente possa ajudar as pessoas, como todas as nossas religiões, a Umbanda tem a força da mulher porque tudo começa com as mães”, ensina Mãe Izabel.

Ambas religiões matriarcais, o Candomblé vem do continente africano e resiste à tentativa de destruição durante a diáspora africana, que espalhou pessoas escravizadas para trabalhar forçadamente ao redor do mundo. Já a Umbanda é genuinamente brasileira, mas ambas carregam elementos do período de resistência dos afro-brasileiros para manterem seus cultos sagrados mesmo com a imposição da Igreja Católica Apostólica Romana como a única forma de crença permitida.

Falta de conhecimento

Mesmo em um estado laico, a reparação das experiências de opressão dos povos negros em forma de aceitação de sua religiosidade ainda é um caminho longo a ser percorrido. Sobre o preconceito, Mãe Izabel afirma que o que acontece “é mais que uma falta de conhecimento, porque no passado, no tempo dos Usineiros, eles sempre tinham um benzedor nas suas terras, e quando o dono das terras estava com tiriça, preguiça, quebranto, eram eles quem resolviam”, afirma ela, dizendo que “sempre reconheceram o dom, mas não o aceitam por hipocrisia”.

Com bom humor, Mãe Izabel fala que se considera macumbeira. “Macumba, que eu saiba, é um instrumento feito de madeira, parece um reco-reco, mas como nós somos de catiça [de magia, encantados, feiticeiros], o povo nos batizou de macumbeiros, e nós assumimos esse negócio aí”, conta em tom de piada. Em sua casa de Umbanda, ela tem alecrim, malva, levante, pé de quiabo, e muitas outras plantas.

“As pessoas que viessem visitar iam sentir um cado de perfume, um tanto de um cheiro forte”, explica Izabel, falando sobre a importância de estar aberto a conhecer, afinal “ninguém nasceu, nem cresceu para ser criticado no meio da rua por qualquer razão que seja”.

Leão da intolerância

Para os povos de terreiro, não existe céu nem inferno. Mãe Jaciara conta que o terreiro é o local onde os povos se fortalecem, independente de cor, de credo e de etnia. “As pessoas que não conhecem o candomblé acham que a gente cultua o diabo, mas o diabo para mim é da Igreja Católica, o anjo Lúcifer, nós cultuamos Exu, que é o mensageiro entre o natural e o sobrenatural, e cultuar Exu é cultuar a alegria, a fertilidade, a vida”.

Segundo a líder espiritual, a religiosidade dos povos de axé está presente em todas as esferas da vida e os terreiros não são um lugar apenas de oração “a gente recria espaços de acolhimento ancestral, espiritual e psicológico, as pessoas chegam no terreiro com muita fragilidade, seja pela exclusão, pelo racismo, pelo ódio, pela forma como o negro é tratado no Brasil”, explica.

Para lidar com a intolerância, Mãe Jaciara diz que “todo dia a gente tem que matar um leão para estar vivo, mas é um momento que o país está passando, e só mesmo dentro do terreiro de Candomblé com rituais de acolhimento, com folha sagrada, com banho de ervas, com banho de água de cachoeira, que a gente está mantendo um equilíbrio”. Por isso mesmo, se preocupa com os ataques que as casas e terreiros sofrem, que para ela, tem a ver com o aumento do ódio e da intolerância.

“A gente não bate na porta de ninguém para ser do Candomblé, ou diz que o Orixá vai cobrar, o maior pecado que o ser humano tem é errar com o outro”, pontua.

Cultuando a força da natureza, do ar, do tempo, das águas, e da vida, Mãe Jaciara fala sobre a importância do equilíbrio energético para a vida e para a espiritualidade para a construção de territórios que libertem. “O terreiro de Candomblé faz trabalhos sociais, dá curso, faz roda de diálogo, caminhadas para impactar no ódio religioso e pedir a paz”, completa a líder comunitária, falando da vida, da ética e da autoestima, valores do Candomblé.

Essa conexão com o sagrado também se faz presente na espiritualidade Umbandista. “Você já parou para pensar quantos Caciques morreram para eu chegar aqui? Quantos ciganos morreram?”, pergunta Mãe Izabel, para falar da ancestralidade. “Os ancestrais voltam para casa para ficar nos olhando, é um jogo de existência, meus antigos me dão e eu busco os novos para dar o que eu tenho”, explica, com tranquilidade.

Mãe Izabel afirma que os povos de terreiro estão abertos para serem descobertos. “Eu diria para vocês ficarem nus de todo o conhecimento e recomeçarem, pois o nosso corpóreo já é uma roupa, e tudo que você receia encosta em você, justamente essa negatividade, esse preconceito”, e recomenda que, para conhecer e quebrar preconceitos, as pessoas se vistam de amor, pois sua única obrigação ao longo da vida é ser feliz.

Fonte: Brasil de Fato


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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