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Consciência Negra

Consciência Negra

Por Sérgio Cumino 

Fundamento a uma raça

A afirmação a toda prova

Estigma marcado de peleja

Constata sua coragem emergir

Através dos sentidos em marcha

Transpõe vir à pele como nódoa

Dar uma direção a quem deseja

Um mundo justo sem oprimir

Vai alem do protesto na praça

Olhar que faz a vida nova

Traz da alma num mergulho

Força e esperança para intuir

Todas as afirmativas do basta

E busca em seu mando, SER

Batida livre do puro orgulho

Lisura ancestral que faz sentir

África que nosso filho possa ler

Além das trancas e celas

O coletivo branco diz ter acabado

E passou do ferro a corrente moral

A conquista do novo nasce do saber

E naufraga ilusórias caravelas

O pensamento é livre não atado

Forquilha a história de injurias

Esta além meu preto! Do bem e do mal

Quando abre seu sorriso negro

Sejamos um povo de tranças belas

Gritemos chega à época de lamurias!

Um dia saborearemos o plural

Para mim, é irmão, não pigmento

Somos folhas do mesmo trevo

Supri falsas poses e aparências

Por, musica, história e carnaval

Esta em si, seu conhecimento

É herdeiro de caçadores e reinos

E nossa identidade é sua existência

Não de uma civilização escravista

Não é nem mais nem menos

O caminho tem suas evidencias

Segue alem de nossas vistas

Bom do brasileiro tem seu jeito

Quando te orgulha de ser negro

Sua consciência só e viva

Se não for inimigo de sei mesmo

Troquemos o “pré” por nobres conceitos.

Sérgio Cumino – Poeta de Ayrá

Fonte: Geledés

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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