A CELA DE BOLSONARO E O APÊ DO MEU IRMÃO

A cela do Bolsonaro e o apê do meu imão

Mas era feita com muito esmero / Na Rua dos Bobos, número zero – (Trecho da canção A casa, de Vinicius de Moraes)

 
Diga lá, caboco, quem está preso: Bolsonaro ou nossos irmãos?
O Brasil é um país onde tudo é medido — menos o aperto da vida. Medem crescimento em gráfico bonito, sucesso em propaganda de banco e felicidade em comercial de condomínio com drone, pôr do sol e criança correndo em câmera lenta. Já a vida real a gente mede no grito quando o dedinho bate na quina da mesa e na dança que a família faz pra todo mundo conseguir passar pelo corredor sem esbarrar em alguém.
As grandes injustiças daqui não andam de gravata nem aparecem em debate de TV. Elas moram nos detalhes miúdos: no tamanho do quarto, na porta do banheiro que abre e prende a pessoa atrás, na mesa que só funciona se ninguém resolver respirar fundo ao mesmo tempo. É ali que a desigualdade deixa de ser palavra difícil e vira coisa concreta — vira cotovelo na parede, joelho na cama, gente pedindo licença dentro da própria casa.
Tem lugar onde “área de circulação” significa andar. Em outros, significa aprender a passar de lado, igual caranguejo, com a dignidade encolhida e o sonho dobrado no canto. E é curioso como a propaganda sempre mostra o sofá, a varanda imaginária, o casal sorrindo… mas nunca mostra alguém tentando trocar o lençol sem fazer um curso técnico em contorcionismo.
Foi olhando pra um apartamento de 40 metros quadrados — desses vendidos como “ideal para famílias de até 4 pessoas”, sempre com esse “até” que soa mais como ameaça — que eu entendi: no Brasil, desigualdade também se mede em metros. Às vezes, o que separa o conforto do sufoco não é a conta bancária. É a largura do corredor.
O apê do meu irmão
Mano velho, deixa eu te contar uma fofoca daquelas que misturam alegria, tragédia doméstica e comédia involuntária: vou ser titio mais uma vez. Meu irmão, que já tem uma filha, agora vem aí um menino. O problema não é o menino — criança sempre chega como bênção. O problema é o CEP da bênção: um “apertamento” de 40 m², que a construtora jurou, de mão no peito e sorriso de folder, ser “ideal para famílias de até 4 pessoas”.
Farofa%20024%20 %20Cela%20Bolsonaro%2002Ideal, caboco. Ideal pra quem? Pra formiga? Pra família de LEGO?
Nesses 40 m² cabem dois quartos, um banheiro, sala de estar, sala de jantar, cozinha e área de serviço. É tipo um Tetris imobiliário: tudo existe, mas nada cabe.
Quando meu irmão e minha cunhada assinaram o contrato, assumindo uma dívida por 30 anos, foi festa. Alegria compartilhada por toda a família. Foto, abraço, mensagem no grupo, emoji de coração, esperança no futuro. Mas junto com a chave veio o carnê do programa informal mais popular do país: “Minha casa, minha dívida” — 30 anos de prestação.
E aqui mora a contradição que dói: a felicidade de ter um teto é real. Ter onde morar é conquista gigante. Mas a vida vira refém da parcela. A casa é própria, mas o tempo não é mais. O futuro já tem boleto.
Com a dívida no banco, a geladeira entrou em modo “experiência minimalista”. No fim do mês, restava basicamente gelo no congelador. E olha a ironia da existência: foi justamente esse gelo que virou “recurso médico” quando minha cunhada, limpando a casa para o novo integrante da família, bateu a cabeça num móvel da cozinha. Meu irmão, em pânico, decretou:
— Foi uma concussão grave!
O diagnóstico veio da mesma universidade que formou o engenheiro da construtora.
Agora respira fundo, caboco. E compara.
A cela do Bolsonaro
Enquanto isso, o ex-presidente passou por uma sala de 12 m², onde tudo acontecia no mesmo ambiente — dormir, existir, refletir, respirar, pensar na vida. Tudo junto, estilo quitinete institucional. Depois, foi transferido para uma cela de 64,8 m², com 54,7 m² cobertos e 10 m² de área externa, com possibilidade de divisão em cômodos. Dá pra organizar a rotina. Dá pra separar espaço. Dá pra fazer até um “conceito aberto”, se quiser. Quase um Airbnb carcerário premium.
Detalhe importante, caboco — e aqui entra a cereja do deboche: Jair Bolsonaro sempre foi contra os direitos humanos para presidiários. Falou, repetiu, fez discurso. Defendeu cadeia apertada, castigo, sofrimento, desumanização. Direitos humanos, segundo ele, eram “coisa de bandido”. Pois veja só: agora é justamente ele quem desfruta de espaço, divisão de ambientes e área externa. A vida, quando quer, tem um senso de humor cruelmente pedagógico. Até mesmo quando manda raios que atingem participantes de caminhadas nada cívicas.
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E, pra dar ainda mais brilho à ironia que já é estrutural nesse país: o ex-presidente faz parte de um clã que, segundo levantamento jornalístico do UOL, negociou 107 imóveis ao longo de mais de três décadas, e pelo menos 51 desses foram pagos total ou parcialmente com dinheiro vivo — algo que muitos brasileiros jamais viram acontecer em suas vidas. Para quem sempre lidou com metragem de sobra na carteira, morar limitado a poucos metros quadrados deve ser um drama imobiliário pessoal.
A defesa afirma que Bolsonaro carrega sequelas permanentes, precisa de cirurgias, exames e acompanhamento médico frequente, o que já gerou autorizações para tratamento fora da prisão. Em outras palavras, hoje ele depende daquilo que sempre chamou de “regalia de bandido”: direitos humanos que asseguram saúde, dignidade e proteção mesmo atrás das grades.
Quero deixar claro: não sou contra um apenado ter todo esse espaço ou dignidade enquanto cumpre pena e busca reabilitação. A ideia de dignidade humana vale para todos. O que eu quero é que cada trabalhador e cada família deste país também possam morar com dignidade — com espaço e qualidade de vida.
Injustiça social?
Meu irmão tem 40 m² para uma família que já virou quatro pessoas. Bolsonaro tem quase 65 m² para uma única biografia problemática.
Meu irmão tem gelo como plano de saúde. Bolsonaro tem autorização para acessar ótimos hospitais privados.
Meu irmão tem dívida por 30 anos. Bolsonaro, além de várias aposentadorias gordas, tem prazo indeterminado, mas com metragem generosa. Meu irmão tem amor, filho chegando, aperto, sonho, boleto, caos, esperança e dignidade. Bolsonaro tem espaço.
E é aí que mora a ironia, caboco: no Brasil, o luxo não é não dever nada — o luxo é ter espaço. Porque, enquanto uma família aprende a caber dentro de 40 metros quadrados, o Estado aprende a oferecer conforto até para quem passou a vida inteira defendendo aperto… pros outros.
E isso num país onde quase 16,4 milhões de pessoas — cerca de 8,1% da população brasileira — vivem em favelas ou comunidades urbanas precárias.
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Aqui mesmo, na capital do Amazonas, Manaus, essa realidade é ainda mais dura: mais da metade da população da cidade (aproximadamente 55,8%) vive em favelas identificadas pelo IBGE, um dos maiores índices entre as capitais brasileiras.
Além disso, seis das 20 maiores favelas do país estão em Manaus, como Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, São Lucas e Zumbi dos Palmares — lugares onde dezenas de milhares de pessoas vivem com infraestrutura deficiente e acesso limitado a serviços essenciais.
Uma cena que me chama a atenção e que se dá na Zona Norte, ao olhar para a cratera que cresce na Rua Ladário, no Conjunto Canaranas, é a de um Estado que demora a responder enquanto a terra cede e as casas se aproximam do abismo.
A Prefeitura de Manaus iniciou obras emergenciais para conter a erosão, mas moradores ainda vivem sob o risco e a angústia de cada chuva que pode agravar a situação.
No Brasil, quem não tem espaço também não tem desculpa. Se mora apertado, é desorganizado. Se mora em área de risco, é irresponsável. E foi exatamente isso que um prefeito resolveu explicar — do jeito mais cruel possível.
É, caboco… isso me faz lembrar do bate-boca do então prefeito Amazonino Mendes com uma moradora de área de risco. Uma casa desabou e matou uma mulher e duas crianças soterradas. Uma moradora sobrevivente pediu providências, Amazonino culpou-a por construir casa em área de risco.
– Mas prefeito, nós só moramos aqui porque não temos condições de ter uma moradia digna.
A resposta de Amazonino foi digna daquele que está preso em cela fora da área de risco:
– Então morra, minha filha. Morra.
Quem morreu neste domingo no Asilo dr. Thomaz foi a Salete, deficiente visual que compôs a marcha carnavalesca “Então morra”.
Referências
https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/?localidade=1302603
https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/index.html?localidade=BR

https://blogs.oglobo.globo.com/ancelmo/post/historico-de-atleta-gripezinha-e-resfriadinho-pronunciamento-de-bolsonaro-minimizando-covid-19-fara-aniversario-amanha.html

https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2022/09/23/desembargador-determina-retirada-de-reportagens-do-uol-sobre-imoveis-comprados-em-dinheiro-vivo-pela-familia-bolsonaro.ghtml
https://revistacenarium.com.br/erosao-amplia-cratera-e-ameaca-residencias-na-zona-norte-de-manaus/?utm_source=chatgpt.com
https://g1.globo.com/am/amazonas/videos-bom-dia-amazonia/video/cratera-na-rua-ladario-no-conjunto-canaranas-comeca-a-receber-obras-de-contencao-14276923.ghtml

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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