UM SALVE PARA AS ‘PARTEIRAS DO SAMBA”

Você conhece “as parteiras do samba”? Um grande salve para as “parteiras do samba”
 
Essa é a história das “Tias”, anciãs negras que, com sua habilidade política e herança cultural, ajudaram a transformar o ritmo mais popular do país.
 
Por Nota no Facebook 
 
No contexto da formação e consolidação do samba as tias assumem grande importância. Eram elas grandes acervos humanos de cultura afro-brasileira. Geralmente baianas e mineiras, vindas em fuga para o Rio de Janeiro e São Paulo, as tias da praça 11, no Rio, eram quituteiras e cozinheiras e ostentavam uma grande família.
 
Como mulheres sábias e populares, elas cediam o espaço para as rodas de samba e orientavam os músicos após a gira da umbanda. Muitas pessoas já ouviram falar de Tia Eulália, Tia Ciata e Tia Carmen da Xibuca.
 
Elas tias traziam a ancestralidade para o terreiro, ensinando aos membros de sua família, geralmente grande e com muitas mulheres, cantos de antigos escravizados, gingas de roda e outras tantas peças para a montagem de um bom samba.
 
Foram as tias também que ajudaram a quebrar o preconceito contra o samba.
 
Como o ritmo, a princípio, era criminalizado, as tias disponibilizavam seu quintal para os sambistas e convenciam policiais e agentes da lei da função lúdica do samba e da sua importância cultural e social para homens e mulheres negras. Sempre boas de cozinha, os caldos e quitutes abasteciam o estômago e mentes dos sambistas.
 
As primeiras escolas de samba surgiram exatamente nesses espaços. É o caso da Portela, Império Serrano e Salgueiro. O carnaval de rua instituiu obrigatoriamente a ala das baianas, que nada mais é que uma homenagem à força, fé e perseverança dessas tias que pariram o samba em seus braços e territórios. Espalhando seus filhos, netos e suas produções culturais pelo país e pelo mundo.
 
Texto adaptado de @joelpaviotti
PARTERIAS DO SAMBA
 

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Nossas homenagens às parteiras do samba

No começo do século XX, o célebre matriarcado da comunidade negra reunia talento, fé e criatividade nas imediações da Praça Onze, no Rio de Janeiro.
Algumas senhoras baianas, chamadas de tias, moravam em casarões, onde promoviam festas que chegavam a durar uma semana. Eram bailes nas salas de visita, samba de partido alto nos fundos e batucadas nos terreiros.
Essas senhoras exerciam uma liderança decisiva no cotidiano da comunidade afro-carioca. Entre elas: Tia Gracinda, Tia Sadata, que foi a fundadora do Rancho da Sereia, Tia Dadá, Tia Amélia e Tia Presciliana.
Dessas senhoras, a mais conhecida e reverenciada foi Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata, que chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1870, com 20 anos de idade. Os estudiosos afirmam que foi em sua casa que nasceu o samba carioca.
O primeiro desfile de escolas de samba, ainda extra-oficiais, aconteceu em 1932, na Praça Onze. Trinta anos depois, em 1962, após varias mudanças de endereço, aportou na Av. Rio Branco, onde pela primeira vez foram montadas arquibancadas e colocados a venda ingressos para cerca de 3.500 pessoas.
Em 1984, a Passarela do Samba foi inaugurada, transformando-se no lugar definitivo para os desfiles cariocas. Do coração desses núcleos de criação do carnaval surgem duas compositoras, também cantoras: D. Ivone Lara, que em 1947, tornou-se a primeira mulher a compor um samba enredo, e Lecy Brandão.
Nesse mesmo ano, Tia Eulália – Eulália de Oliveira Nascimento, abriu as portas da sua casa, na comunidade da Serrinha, para o encontro que resultou na fundação da Escola de Samba Império Serrano.
A jongueira Vovó Maria Joana também foi co-fundadora dessa tradicional agremiação. A Estação Primeira da Mangueira celebrizou duas de suas lideranças: Neuma Gonzalves e Euzébia Silva Nascimento – Dona Zica, que além de desenvolverem importantes trabalhos sociais na comunidade, escreveram seus nomes em verde e rosa na história do carnaval carioca.
A carnavalesca Rosa Magalhães é a responsável pela conquista de cinco títulos de campeã para Imperatriz Leopoldinense. As escolas de samba do Rio de Janeiro, sobretudo a partir dos anos 90, realizam em duas noites por ano, um dos maiores espetáculos da terra. São cerca de 50.000 foliões, entre mulheres e homens, que desfilam para uma platéia de 80.000 pessoas, sendo vistos por dezenas de milhões de telespectadores, tanto no Brasil como em várias outras partes do mundo.
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A tradição das tias na formação do samba do Rio de Janeiro

Por Angélica Ferrarez de Almeida/Notícia Preta – Historiadora

Com estas palavras Yara da Silva, neta de Tia Carmem, abre seu livro Tia Carmem: negra tradição da Praça Onze aos leitores que desejam vislumbrar um pouco do universo de Carmem Teixeira da Conceição, mais conhecida como Tia Carmem do Xibuca. Sendo um dos poucos registros sobre as tias, faz deste uma singela homenagem num exercício afetivo e político de memória e história.

Tia Carmem do Xibuca nasceu em 1878 em Amaralina na Bahia, veio para o Rio de Janeiro indo morar na rua Senador Pompeu, Zona Portuária. Recebeu o apelido de Xibuca, após casar-se com Manoel Teixeira com quem teve 22 filhos.
Adepta das religiões de matriz africana, filha do orixá feminino Osum, ela era rezadeira, quituteira e vendia seus doces no tabuleiro na Lapa, Campo de Santana e Praça Tiradentes. Relatam-na como uma mulher muito festeira que saía em vários ranchos carnavalescos, cantando sempre nos sambas do quintal de sua casa e das casas das amigas, as famosas Tia Ciata e Tia Bebiana, por exemplo.
Inventando junto a estas outras a tradição das tias. Sendo elas lideranças religiosas e culturais de suas comunidades, era em suas casas, e mais especificamente nos seus quintais, que ocorriam as cerimonias religiosas seguidas das rodas de samba.
As tias são mulheres mais velhas, em sua maioria, negras, e que se reconhecem e são reconhecidas por serem detentoras de um saber-fazer que remonta a herança africana na cidade. Existe no ser tia algo de místico e religioso, mas também de poder e político, que faz com que elas sejam legítimas ao ponto de, segundo citação anterior: “mudar a forma de pensar e de agir do povo escravo que veio para o Brasil em navios negreiros…”.
Progenitoras, líderes, rezadeiras, cozinheiras, sambistas, quituteiras, quitandeiras, organizadas, conscientizadas, mães de santo, estas tias manipulam tantos códigos que chegavam a concorrer com outras formas de organização na cidade. Responsáveis pela primeira geração de sambistas que nascia carioca, elas eram as chefas de famílias extensas.
Muitos de nós já ouvimos falar ou até mesmo conhecemos, Donga, João da Baiana, Pixinguinha, mas não sabemos que todos são filhos das chamadas tias do samba. Tia Amélia do Aragão, Tia Perciliana de Iansã e Tia Raymunda   respectivamente foram as matriarcas dos quintais onde eles se lançaram para o samba. Costumo dizer que elas prepararam o quintal para esta primeira geração e mesmo num ambiente hostil onde o samba era criminalizado, “duramente perseguido”, essas mulheres tinham um jogo de negociação com as esferas pública que acabavam respeitando e reconhecendo nelas um outro tipo de autoridade.

Tia Amélia do Aragão, que ganhou o Aragão no nome porque morava na rua do Aragão era cantadora de modinha. Tia Bebiana e Tia Perciliana, eram rezadeiras e unidas a Tia Ciata e Tia Carmem do Xibuca pertenciam ao terreiro de João Alabá. Havia a grande quituteira, Tia Veridiana e também Tia Sadata da Pedra do Sal, que foi fundadora junto a outros do Rei de Ouro, rancho carnavalesco da época.
Saindo do eixo das baianas a experiência das tias ganhou os subúrbios, com Tia Eulália, mineira que chega a comunidade da Serrinha em Madureira por volta da década de 30. Outra que chega a mesma época é Vó Maria do Jongo. Com esta historicidade Madureira também entra fortemente no circuito das artes negra da cidade, vindo abrigar as escolas de samba Império Serrano, de 1947 e a Portela de 1923.
A fundação das escolas de samba também estão ligadas as tias do samba. O Império Serrano foi fundado por iniciativa de trabalhadores da estiva, Mano Décio, Mano Elói e Mestre Fuleiro, dentre outros, que se reuniam na casa de Tia Eulália.
Outro episódio foi a fundação da Portela, escola de samba em 1923, também no bairro de Madureira. Impulsionada pelo empenho das mães de santo conhecidas no local, foi na casa de tia Ester que era líder do “Quem fala de nós come mosca”, bloco tradicional que circulava pelos subúrbios e que tinha como integrantes do bloco os futuros fundadores da Portela, como Paulo da Portela, que ao rachar com este bloco, cria o “Baianinhas de Oswaldo Cruz” em 1922, passo mais próximo para o que seria a Portela, em 1923.
Havia também a Tia Neném, sambista do morro do Salgueiro, nascida ali em 1921. A tia Zezé, nascida em Três Rios em 1923, componente importante da Unidos da Tijuca e tantas outras tias provenientes de vários lugares e contribuindo com esta tradição em vários espaços e tempo. Podemos dizer que cada região de uma escola de samba tem como matriarcas das mesmas as tias fundadoras.
Sendo assim foi ganhando contornos nas ruas do Rio, mesmo de forma subalternizada, a formação de uma cultura popular baseada na tradição das tias que seria de extrema importância daquilo que seria o Rio de Janeiro e sua modernidade e da formação da família negra brasileira. Elas que mesmo com a ação do tempo e espaço partilham ainda hoje de um espaço privilegiado no reduto do samba, nas memórias afetivas de sua família, criando estilos de vida, festejando, sonhando e inspirando toda uma nova geração.

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Angélica Ferrarez é mãe da Ynaê e mulher negra no mundo. Apresentadora da webserie Rodadas, Historiadora, Professora e Doutoranda estudando a história e memória do samba carioca. 
 
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Angelica Ferrarez é apresentadora da webserie Rodadas e historiadora

 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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