CULTURA É RAIZ

CULTURA É RAIZ

CULTURA É RAIZ

Há cidades que acreditam que cultura se fabrica em datas marcadas no calendário. Como se bastasse montar um palco, contratar atrações e, por algumas horas, vestir a fantasia de pertencimento. Mas cultura não nasce do momento. Cultura é raiz. E raiz não aparece em folder

Por Renato Farinha

Exposição “Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas – Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena” Local: Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) com Profª Marília Cury. Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Quando uma cidade apaga as marcas de seus antepassados, ela não está apenas reformando prédios ou mudando nomes de ruas. Está desmontando a própria memória. Está dizendo, em silêncio, que o que veio antes não importa.

Copia hábitos de uma elite de tempos que não são os seus, importa costumes, discursos e estéticas que não brotaram de seu chão – e chama isso de cultura. Mas o que se celebra, muitas vezes, é só o vazio com maquiagem.

Sem conhecer as raízes que construíram seus próprios caminhos, essa cidade passa a confundir identidade com espetáculo. Troca processo por evento, história por agenda, pertencimento por postagem. 

A cultura vira um produto de ocasião, algo que se consome, se fotografa e se esquece. O que deveria ser memória viva vira entretenimento descartável.

É como herdeiros que demoliram a casa da família. Derrubaram paredes, queimaram fotos, jogaram documentos na fogueira. Destruíram os registros, os símbolos, os rastros de quem veio antes. E, depois, com a casa em cinzas, querem exigir herança. Querem reivindicar uma identidade que eles mesmos trataram como entulho.

Não se constrói futuro queimando o passado. Não se cria cultura apagando raízes. Cultura não é palco montado às pressas. Não é só evento, nem só momento. 

Cultura é o que permanece quando o palco desmonta, quando as luzes se apagam, quando o aplauso acaba. É o que continua vivendo nas histórias, nos saberes, nos corpos, nas memórias e nas vozes que insistem em não ser silenciadas.

Porque uma cidade sem memória não é moderna.

É órfã de si mesma.

Renato FarinhaRenato Farinha (Renato Gomes Machado) – Educador matemático, arte-educador e ator profissional, unindo ensino, arte e comunicação criativa. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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