CULTURA É RAIZ
Há cidades que acreditam que cultura se fabrica em datas marcadas no calendário. Como se bastasse montar um palco, contratar atrações e, por algumas horas, vestir a fantasia de pertencimento. Mas cultura não nasce do momento. Cultura é raiz. E raiz não aparece em folder
Por Renato Farinha

Quando uma cidade apaga as marcas de seus antepassados, ela não está apenas reformando prédios ou mudando nomes de ruas. Está desmontando a própria memória. Está dizendo, em silêncio, que o que veio antes não importa.
Copia hábitos de uma elite de tempos que não são os seus, importa costumes, discursos e estéticas que não brotaram de seu chão – e chama isso de cultura. Mas o que se celebra, muitas vezes, é só o vazio com maquiagem.
Sem conhecer as raízes que construíram seus próprios caminhos, essa cidade passa a confundir identidade com espetáculo. Troca processo por evento, história por agenda, pertencimento por postagem.
A cultura vira um produto de ocasião, algo que se consome, se fotografa e se esquece. O que deveria ser memória viva vira entretenimento descartável.
É como herdeiros que demoliram a casa da família. Derrubaram paredes, queimaram fotos, jogaram documentos na fogueira. Destruíram os registros, os símbolos, os rastros de quem veio antes. E, depois, com a casa em cinzas, querem exigir herança. Querem reivindicar uma identidade que eles mesmos trataram como entulho.
Não se constrói futuro queimando o passado. Não se cria cultura apagando raízes. Cultura não é palco montado às pressas. Não é só evento, nem só momento.
Cultura é o que permanece quando o palco desmonta, quando as luzes se apagam, quando o aplauso acaba. É o que continua vivendo nas histórias, nos saberes, nos corpos, nas memórias e nas vozes que insistem em não ser silenciadas.
Porque uma cidade sem memória não é moderna.
É órfã de si mesma.

Renato Farinha (Renato Gomes Machado) – Educador matemático, arte-educador e ator profissional, unindo ensino, arte e comunicação criativa.