TECER UM MUNDO NOVO
Como compreender a palavra como tecido revolucionário do mundo novo
Por Arthur Silva/Revista Xapuri
Os textos são partes fundamentais de nós. Somos dotados e criados para a produção textual, para a construção de sentidos através deste universo de sentenças, frases, orações e períodos. Bom, ocorre que muitas vezes a gente nem se quer reflete sobre a potencialidade de nossos textos, de que forma eles estão comprometidos com a estrutura desse novo tempo que temos tentado construir.
Ingressos na escola, as primeiras formas textuais constituem um espaço interessante em que a mente humana registra e resgata informações lúdicas, diásporicas, formativas e constitutivas do mundo para o papel. O momento da escrita do nome, a junção de elementos gráficos que, por ora, pareciam tão abstratos, recupera no sentido político a identidade e a formação do sujeito. Ao longo do tempo, as cartas de amor à família desabrocham o sentimento, a expressividade e materializam — de forma simbólica — o lado subjetivo da mente humana. Passa-se um tempo e logo estas cartas direcionam-se aos primeiros amores, que por sua vez escarnecem em textos dissertativos-argumentativos, teses e peças publicitárias.
Pensando no advento da internet e na revolução das mídias digitais, o comportamento de minha geração segue inclusive uma rota um pouco diferente. As legendas e os tweets também fragmentam espaço considerável na observação textual do mundo. O que talvez a gente precisa refletir, é a valorização que a palavra precisa. No que diz respeito à nossa formação política, quantas vezes fomos colocados para escrever? Para discutir o mundo da literatura? Ao menos para pensar um pouco sobre o que nos constitui enquanto movimentos obstinados aos caminhos literário-poéticos.
Nos últimos anos, ao dedicar-me nos estudos da Língua Portuguesa e nos processos de ensino-aprendizagem de Redação no Pedagoginga (cursinho popular na periferia de Sobradinho II), eu entendi que a escrita é, senão um pilar, uma estrutura fundamental para a construção desse mundo novo. Corremos riscos com a palavra, despertando os sentidos humanos com elas. Por que será que essa guerrilha das letras tem ficado desprendida na matéria?
Fato que o texto é locomotor das revoluções. Essa forma de transformar ideias em matéria bruta que atravessa os anos e consegue mobilizar, planejar e construir o mundo novo é de extrema utilidade para a formação de nossas bases políticas.
É importante, entretanto, ter como ponto de vista que o texto não diz respeito somente ao acumulo grafocentrico, mas ao conjunto de semióticas e elementos que perpassam ao toque e à sensibilidade humana.
Assim, refletir os processos de escrita são fundamentais para que a gente consiga cada vez mais potencializar as vozes e histórias constroem o mundo novo, o mundo da justiça social e das boas verdades. Sabemos, portanto, que a potencialização destas vozes exige refletir o texto como elemento central da revolução. Discursos, textos e imagens, tudo isso será a forma e o compasso para reconstruir o Brasil e os sonhos da classe trabalhadora.

Diante disso, é preciso reivindicar a palavra como prática cotidiana de transformação, e não apenas como instrumento eventual de expressão. Escrever é tomar posição no mundo, é disputar sentidos, é inscrever a própria existência nas tramas da história. Quando reconhecemos o texto como território de luta, compreendemos que cada frase carrega em si a possibilidade de romper silêncios, tensionar estruturas e anunciar futuros. A palavra, nesse sentido, deixa de ser mero registro e passa a operar como gesto político, como ferramenta concreta de reorganização do real.
Tecendo esse mundo novo, cabe a nós assumir a responsabilidade de narrar, interpretar e reinventar as nossas próprias histórias. Não há projeto de justiça social que prescinda da linguagem, nem transformação duradoura que se sustente sem a força das ideias bem articuladas. É na insistência em escrever, ler e refletir que consolidamos as bases de um horizonte mais digno, plural e emancipador. Afinal, é no entrelaçamento das palavras — vividas, sentidas e partilhadas — que se constrói, fio a fio, o tecido revolucionário do mundo que ainda estamos por fazer.
Arthur Wentz Silva – Estudante de Letras, Língua Portuguesa e Respectiva Literatura, na Universidade de Brasília (UnB), e redator da Revista Xapuri.
Capa: Ilustração de Armando Veve










