"ANATOMIA DO CAOS": O DOCUMENTÁRIO QUE NÃO DEIXA A PANDEMIA SER ESQUECIDA

ANATOMIA DO CAOS: NÃO ESQUEÇAMOS DA PANDEMIA

Anatomia do Caos: não esqueçamos da pandemia

Documentário relata os desmontes do governo Bolsonaro frente à pandemia da Covid-19

Por Redação Xapuri

Nesta quarta-feira (2 de julho), chega aos cinemas um filme que destaca os descasos e desmndos do governo autoritário brasileiro de Jair Bolsonaro frente à pandemia da Covid-19. “Anatomia do Caos”, dirigido pela cineasta Dandara Ferreira, é um retrato brutal que relembra os 700 mil mortos e as sequelas da ausência do Estado em um momento crucial para a vida do povo brasileiro.

Quem é Dandara Ferreira?

Documentarista dedicada a questões políticas e sociais, Dandara tem se destacado por projetos que colocam a câmera onde as decisões acontecem. Para este filme, ela conquistou acesso privilegiado aos bastidores da CPI da Covid-19 no Senado Federal, entrevistando parlamentares de espectros políticos distintos. Seu trabalho busca sempre conectar o poder político às consequências humanas reais. Assim, os impactos das políticas na vida cotidiana do povo. 

O caos em preto e branco

Em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil recebeu a notícia do primeiro caso confirmado de coronavírus em São Paulo. Somado ao caos generalizado provoado pelo aparecimento, o governo se colocava nas páginas da história como um governo de negacionismo, negigente com políticas públicas consistentes e uma desconectado com o sofrimento das pessoas. Milhares de famílias perderam seus entes queridos enquanto decisões políticas equivocadas se acumulavam nos gabinetes.

A CPI da Covid, instalada em abril de 2021, virou o palco perfeito para Dandara documentar tudo aquilo: as ausências, as decisões erradas, os corpos que não voltam. “Quando começou a CPI, senti que havia algo importante ali para ser documentado. A história estava acontecendo”, lembra ela.

Segundo Dandara, o título resume tudo: “um cenário caótico, conduzido por um governo negacionista, que operou contra a ciência”. Mas não é só crítica — é um convite à reflexão: “O título convida o espectador a refletir sobre responsabilidade política, institucional e coletiva”.

Memória é democracia

O ponto central do filme é de que não podemos esquecer os lastros que nos forjam, ainda que tempos melhores sucitem. Para a cineasta, esquecer uma tragédia não é superá-la. É apenas apagar a história e a história não podemos apagá-la.

“Meu interesse era investigar a relação entre decisões políticas e suas consequências humanas. A CPI funciona como uma lente para olhar para as ausências, para as vidas interrompidas”, explica. E conclui com uma preocupação que reflete os tempos atuais: “Vivemos um tempo em que a velocidade das notícias produz esquecimento. A pandemia deixou marcas profundas, mas muitas vezes temos a sensação de que o país nunca parou para elaborar coletivamente o que aconteceu”.

Nas telas

O documentário já está confirmado em oito capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza. Em Brasília, a sessão acontece no dia 30 de junho, às 19h, no CineBrasília.

Entusiasmada, Dandara comemora o documentário e seu lançamento. Para ela, “o cinema não substitui as instituições, mas ajuda uma sociedade a refletir sobre sua própria história”.

*Com informações de pt.org.br Capa: Reprodução/PT

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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