EDUARDO MEIRELLES: UMA DOCE SAUDADE

EDUARDO MEIRELLES: UMA DOCE SAUDADE

EDUARDO MEIRELLES: UMA DOCE SAUDADE

Eduardo Vieira de Lima Meirelles, Duda para as amizades, colegagens e companheirada, Dudu para a família, embarcou nas asas da quimera na madrugada do dia 29 de julho. Um infarto fulminante tirou o nosso Duda, de apenas 30 anos, dos espaços deste mundo.

Por Zezé Weiss

Doce no trato, singelo na convivência, “mão-na-massa” enquanto militante, no campo profissional, Duda fazia questão da formalidade, do Eduardo Meirelles como assinatura, como designer gráfico, como jornalista, como escritor, como apresentador de TV e, como ele dizia, por uma doideira que deu certo, como biógrafo da atriz Lucélia Santos.

Viveu intensamente, o nosso Duda. Nascido em Luziânia (GO) em 28/01/1996, formado em Comunicação Social pela UnB, o jornalista Eduardo Meirelles fez  da profissão um espaço de luta e resistência, ao mesmo tempo em que era “uma explosão de luz, uma presença capaz de transformar os ambientes”, no dizer sábio de sua prima, a cantora Sol Leles.

Essa vontade de fazer diferença acompanhou Eduardo durante toda a sua curta e intensa trajetória. Na UnB, foi diretor do Centro Acadêmico de Comunicação Social, participou do Diretório Central dos Estudantes e atuou na União Nacional dos Estudantes em defesa dos estudantes de baixa renda. Também foi voluntário da Anistia Internacional.

A universidade, para ele, não era apenas o lugar da formação profissional. Era também espaço de organização, confronto de ideias e compromisso com a transformação da realidade. O jornalismo que escolheu exercer nasceu dessa mesma compreensão: comunicar não era observar o mundo de longe, mas tomar parte nele.

Profissionalmente, trabalhou no Poder360, na Revista Fórum, na TV Justiça e na assessoria de imprensa do Senado Federal. No Rio de Janeiro, trabalhou com Henrique Pizzolato na campanha “LawFare Nunca Mais”, com os movimentos sociais e, mais recentemente, cuidou das redes sociais do sociólogo Jessé Souza.  

SEGUIR ESPERNEANDO”

Conosco, aqui na Xapuri, militou e exerceu a profissão em boa parte dos últimos anos. Começou produzindo uma camiseta contra a prisão do Zé Dirceu, desenhou  cards e gravou áudios para a campanha SOS Xavante (durante a pandemia) fez-se grande nos podcasts do “Seguir Esperneando”, tornou-se membro do nosso Conselho Editorial, onde permaneceu atuante  até dias antes de sua morte.

Ao se apresentar no primeiro episódio do “Seguir Esperneando”, definiu a Xapuri como um “espaço de resistência” em defesa da democracia, dos direitos humanos, do meio ambiente e de todas as causas justas. Por nós adotada como slogan, a frase também dizia muito sobre ele próprio e sobre o jornalismo que desejava fazer.

Produzido em parceria com a atriz e militante Lucélia Santos, o podcast estreou em 2021 e tratou de temas como a defesa dos povos indígenas, a fome, o desmatamento, a crise climática, a situação das águas brasileiras e a atuação do país nas conferências ambientais.

Duda esteve presente na apresentação, na narração, no design e na edição dos oito episódios. Sua participação não se limitava à voz diante do microfone. Ele ajudava a dar forma ao conteúdo, organizar a linguagem e transformar debates complexos em uma comunicação acessível e politicamente comprometida.

Em um dos episódios, definiu o programa como “mais um espaço de resistência da Revista Xapuri”. Era exatamente isso: um projeto criado em um período especialmente difícil da história brasileira, quando o país enfrentava a pandemia de Covid-19, o avanço da fome, os ataques aos povos indígenas e o desmonte das políticas ambientais.

A parceria se estendeu ainda aos trabalhos em torno da peça Vozes da Floresta – Chico Mendes Vive!, escrita por Zezé Weiss e protagonizada por Lucélia Santos.

CORAGEM PARA LUTAR

A convivência entre Eduardo e Lucélia Santos também deu origem ao trabalho que o tornou nacionalmente conhecido. Publicada em 2022 pela Editora Telha, a biografia “Lucélia Santos – Coragem Para Lutar”  nasceu como projeto de conclusão do curso de Jornalismo na UnB.

A obra foi construída durante o período de isolamento social da pandemia, quando os dois já trabalhavam juntos nas lives, no podcast, na campanha SOS Xavante e em outras iniciativas promovidas pela Xapuri. O convívio profissional permitiu que Eduardo conhecesse não apenas a atriz consagrada pela televisão, pelo cinema e pelo teatro, mas principalmente a militante política.

Nascido em 1996, Duda não havia acompanhado pela televisão o início da carreira de Lucélia. A mulher que conheceu primeiro foi aquela comprometida com a democracia, os direitos humanos, a Amazônia, os povos indígenas e o legado de Chico Mendes. Foi essa dimensão política que despertou seu interesse em contar a história da atriz.

O livro reuniu depoimentos de artistas, ambientalistas, políticos e companheiros de caminhada, entre eles Sonia Guajajara, Luiza Erundina, Carlos Minc, Matheus Nachtergaele, Angela Mendes, Fernando Gabeira, Pedro Neschling, Gomercindo Rodrigues e Zezé Weiss. Mais do que uma sucessão de acontecimentos, Eduardo procurou registrar os encontros entre a arte e a militância que atravessaram os 50 anos de carreira de Lucélia.

A relação construída durante o projeto ultrapassou o trabalho. Lucélia Santos usou as redes sociais para expressar seus sentimentos: “Meu querido amado amigo Duda, Eduardo Meirelles. Quanta vida! Quanta paixão você sempre teve em tudo que fez e criou por aqui. Não consigo acreditar. Voa, Duda, com os anjos e a paz. Te amo eternamente. Estaremos juntos eternamente.”

Irritantemente persistente, Duda alugou uma imensa quantidade das minhas madrugadas, “exigindo revisões”  e pedindo opinião sobre cada etapa do processo de produção do seu livro. Em troca, ria bonito, contava causos lindos e contribuía com ideias, cards e presença nas nossas campanhas de resistência.

Militante do PT, costumava dizer, de brincadeira, que seu caixão, um dia, deveria ser coberto pela bandeira do Partido dos Trabalhadores. Por gentileza de sua família, sua vontade foi feita, Duda!

 

zezeZezé Weiss – Jornalista Socioambiental.

Capa: Foto: Reprodução/Linkedin de Eduardo Meirelles

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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