BETS:  COMO OS PREJUÍZOS DO VÍCIO RECAEM SOBRE CRIANÇAS NEGRAS

BETS: COMO OS PREJUÍZOS RECAEM SOBRE CRIANÇAS NEGRAS

BETS:  COMO OS PREJUÍZOS DO VÍCIO RECAEM SOBRE CRIANÇAS NEGRAS

Avanço das apostas on-line pressiona o orçamento de famílias em situação de vulnerabilidade e acende alerta para impactos sobre alimentação, vínculos familiares e direitos de crianças negras na primeira infância

Por Jean Albuquerque

Quando o dinheiro acaba antes do fim do mês, a perda nem sempre aparece primeiro na conta bancária. Ela pode surgir na mesa com menos alimentos, na consulta médica adiada, no material escolar que fica para depois e no tempo de qualidade que deixa de existir dentro de casa.

Em famílias que vivem com renda limitada, qualquer redução do orçamento pode comprometer direitos básicos de crianças que dependem integralmente dos adultos para crescer e se desenvolver. Esse cenário ganhou novos contornos com a expansão das apostas esportivas on-line, conhecidas como *bets*.  Durante a Copa do Mundo de 2026, quando milhões de pessoas pararam para acompanhar os jogos, as plataformas de apostas ocuparam praticamente todos os espaços da transmissão.

O debate costuma se concentrar no endividamento dos apostadores e na expansão desse mercado. Especialistas ouvidos pela Alma Pretinha, no entanto, chamam a atenção para outro aspecto: os impactos indiretos das *bets* sobre a primeira infância, sobretudo entre crianças negras.

Dados do Banco Central mostram que, em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram aproximadamente R$3 bilhões para empresas de apostas por meio do Pix. Os dados, porém, não indicam que os recursos tenham saído diretamente do benefício nem representam a perda líquida dos apostadores, já que parte dos valores retornou na forma de prêmios.

Para os especialistas, o desafio é compreender esse fenômeno sem criminalizar a pobreza nem responsabilizar exclusivamente quem aposta diante de um mercado impulsionado por publicidade intensa e acesso permanente pelo celular.

QUANDO FALTA DINHEIRO, FALTAM DIREITOS

Antes de discutir os efeitos das apostas, é preciso compreender o que está em jogo nos primeiros anos de vida. Segundo a gerente de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Karina Fasson, é nesse período que se estabelecem as bases do desenvolvimento humano.

“A primeira infância é a fase da vida que vai até os 6 anos de idade e é o período de maior desenvolvimento humano. Chegam a se formar, nessa etapa, mais de 1 milhão de conexões cerebrais por segundo. É nessa fase da vida, portanto, que se formam as bases do desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional de um indivíduo”, detalha.

Para que isso aconteça, de acordo com a gerente, é preciso garantir alimentação adequada, acesso à saúde, educação, lazer e proteção contra negligência e violência. Quando parte da renda familiar passa a ser destinada às apostas, esses direitos podem ficar comprometidos. Esse cenário afeta de forma mais intensa crianças negras, já que essa população está sobrerrepresentada entre os grupos de menor renda em razão do racismo estrutural.

QUANDO O DINHEIRO SOME, AS CONSEQUÊNCIAS APARECEM

Os efeitos das apostas não terminam quando uma transferência é concluída. Em famílias que vivem com orçamento apertado, o dinheiro destinado às plataformas pode significar menos recursos para alimentação, transporte, medicamentos e outras despesas essenciais.

Mas, segundo os especialistas, as perdas vão além do aspecto financeiro e atingem diretamente a dinâmica familiar. Para o pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social (LEPES/USP), Luiz Guilherme Scorzafave, reduzir o problema ao endividamento significa ignorar impactos que afetam a convivência dentro de casa.

“A destinação de recursos da renda familiar para as apostas on-line tem impactos enormes e que superam apenas a questão econômica envolvida. Elas, muitas vezes, envolvem o rompimento dos laços de confiança dentro da família”, defende.

Scorzafave, que também é membro do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), cita como exemplo quem aposta escondido da família e compromete recursos destinados às despesas da casa.

Segundo o pesquisador, além das perdas econômicas, isso pode desencadear violência física e psicológica no ambiente familiar. “Isso gera perdas econômicas, mas pode gerar também violência física e psicológica dentro do ambiente familiar.”

“Quando pensamos no impacto da redução de recursos para alimentação e cuidados básicos de crianças pequenas, ele é extremamente danoso para o desenvolvimento infantil. Pode ser que a criança passe a receber alimentação de pior qualidade — e mais barata —, como os ultraprocessados, em resposta à queda da renda provocada pelas apostas”, pontua.

Ainda segundo o especialista, a vulnerabilidade econômica também ajuda a explicar por que as apostas encontram terreno fértil entre parte da população negra. Em um país onde a mobilidade social permanece desigual, a promessa de enriquecimento rápido pode parecer uma possibilidade concreta de romper barreiras históricas.

“Como a mobilidade intergeracional (…) é menor para os negros do que para os brancos, a população negra é tentada a apostar nas *bets* como um atalho para romper essa imobilidade na sua posição socioeconômica e conseguir ascender socialmente”, reforça.

UM MERCADO IMPULSIONADO PELA PUBLICIDADE

O crescimento das bets também está ligado à forma como elas passaram a ocupar espaços do cotidiano. Em transmissões esportivas, redes sociais e campanhas publicitárias, as apostas são frequentemente apresentadas como entretenimento ou oportunidade de renda, muitas vezes com o apoio de atletas, influenciadores digitais e narradores esportivos.

Para Scorzafave, a publicidade das plataformas de apostas desempenha um papel central na expansão desse mercado. “Os eventos recentes de propaganda de bets durante a transmissão dos jogos da Copa do Mundo exemplificam como as estratégias de marketing são direcionadas a públicos vulneráveis e tentam vender a ideia de que é normal apostar no ambiente digital”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, o problema não pode ser tratado apenas como uma decisão individual de quem aposta. Para ele, discutir o avanço das plataformas exige enfrentar também o ambiente criado para estimular esse consumo, especialmente entre grupos mais vulneráveis. “A solução não é tirar o Bolsa Família dessas pessoas, mas regulamentar de modo mais firme as bets.”

BOLSA FAMÍLIA FORTALECE A PROTEÇÃO NA INFÂNCIA

Embora os dados do Banco Central tenham colocado em evidência a relação entre beneficiários do Bolsa Família e as plataformas de apostas, os especialistas são unânimes em afirmar que o programa não deve ser responsabilizado pelo problema.

Fasson destaca que as políticas de transferência de renda têm resultados amplamente documentados na redução da pobreza e na melhoria das condições de vida das famílias. Além da renda, elas ampliam o acesso a serviços públicos essenciais e reforçam a proteção na primeira infância.

“Entre as medidas que podem ser tomadas estão uma regulação mais forte do mercado de apostas, a ampliação dos serviços de apoio à saúde mental e ações de parentalidade positiva para evitar que crianças sejam vítimas da violência doméstica causada pela perda de renda devido às bets.”

 

Jean Albuquerque 1Jean Albuquerque – Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Matéria editada por limitação de espaço. Confira o texto completo, disponível no site Alma Preta: https://almapreta.com.br/almapretinha-conteudo/bets-prejuizos-vicio-recaem-criancas-negras/

Capa: Ilustração: Daniel Pereira/ Alma Preta

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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