VIGILÂNCIA POPULAR EXPÕE CONTAMINAÇÃO POR AGROTÓXICOS NO CERRADO

VIGILÂNCIA EXPÕE CONTAMINAÇÃO POR AGROTÓXICOS

VIGILÂNCIA POPULAR EXPÕE CONTAMINAÇÃO POR AGROTÓXICOS NO CERRADO

Pesquisa publicada na revista Saúde em Debate mostra como comunidades, movimentos sociais e pesquisadores construíram uma estratégia participativa para monitorar as águas e fortalecer a defesa da saúde e dos territórios.

Fernanda Regina da Cunha

Em muitas pesquisas, as comunidades aparecem apenas como fontes de informação. No Cerrado, o caminho foi diferente: moradores e movimentos sociais participaram da definição do problema, da coleta de água, do mapeamento dos danos e da construção das evidências.

Publicado na revista Saúde em Debate, o artigo “Agrotóxicos no Cerrado: vigilância popular como estratégia de monitoramento em territórios vulnerabilizados” apresenta uma pesquisa-ação realizada na Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e Tocantins. Entre 2022 e 2023, foram coletadas 187 amostras de água e realizadas seis oficinas de mapeamento participativo.

O Cerrado exerce um papel fundamental na segurança hídrica do Brasil e da América do Sul e abriga povos indígenas, comunidades quilombolas, camponesas e tradicionais. Segundo o estudo, porém, o avanço das monoculturas, da concentração de terras e do uso intensivo de agrotóxicos tem provocado danos ambientais, conflitos territoriais e processos de adoecimento.

A investigação surgiu a partir das denúncias das próprias comunidades sobre a contaminação das águas. As lideranças ajudaram a definir os pontos de coleta e participaram da retirada, preparação e identificação das amostras, articulando o conhecimento científico aos saberes de quem vive diariamente os impactos investigados.

AGROTÓXICOS NAS ÁGUAS E NOS MAPAS

O monitoramento foi realizado em dois ciclos, durante diferentes momentos do plantio e da colheita da soja. A pesquisa detectou ao menos um parâmetro de agrotóxico em todos os estados e nos dois períodos de coleta, totalizando 13 parâmetros identificados, entre eles 2,4-D, atrazina, fipronil e glifosato.

Para as comunidades, a contaminação não representa apenas a presença de substâncias químicas na água. O artigo relata preocupações com possíveis doenças, perda de empregos e represálias contra lideranças responsáveis pela divulgação dos resultados, especialmente em territórios marcados por conflitos.

Outra frente da pesquisa foi o mapeamento participativo. Em encontros realizados nas próprias comunidades, os moradores representaram fontes de água, lavouras, áreas de pulverização e mudanças percebidas na saúde, no ambiente e nos modos de vida.

Os mapas deram visibilidade à perda de biodiversidade, à insegurança alimentar e aos riscos de intoxicação, mas também permitiram identificar práticas agroecológicas e estratégias de proteção dos territórios. Mais do que registrar informações, o processo ajudou as comunidades a construir uma leitura coletiva sobre as ameaças enfrentadas.

CONHECIMENTO QUE SE TRANSFORMA EM AÇÃO

Os resultados não ficaram restritos aos laboratórios. Dados parciais foram apresentados ao Tribunal Permanente dos Povos durante o julgamento das denúncias de ecocídio contra o Cerrado e contribuíram para fundamentar a sentença que reconheceu violações de direitos humanos.

Os achados também foram reunidos em um dossiê, apresentados em audiências públicas e devolvidos às comunidades. Com isso, passaram a integrar reivindicações e estratégias de mobilização em defesa das águas, da saúde e da permanência das populações em seus territórios.

A experiência mostra que a participação social pode orientar todas as etapas da produção científica. Ao combinar instrumentos técnicos com o conhecimento das populações afetadas, a vigilância popular amplia a capacidade de identificar danos, denunciar violações e construir respostas comprometidas com a defesa da vida.

O artigo foi escrito por Aline do Monte Gurgel, Bruno Santiago Alface, Abner Mares Costa, Leila Cristina Lemes dos Santos Morais, Fátima Aparecida Garcia de Moura, Luiza Carla de Melo e Fernanda Savicki de Almeida e publicado no volume 50, número especial 2, da revista Saúde em Debate, em maio de 2026 (estudo disponível em: https://saudeemdebate.org.br/sed/article/view/10861).

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Agrotóxicos armaznados incorretamente. Foto: Thomas Bauer/Reprodução

1771625958415Fernanda Regina da Cunha – Jornalista. Matéria originalmente publicada pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), disponível em: www.cebes.org.br/quando-o-territorio-produz-a-prova-vigilancia-popular-expoe-contaminacao-por-agrotoxicos-no-cerrado/42210/.

Capa: Comunidades quilombolas consomem água envenenada, que também apodrece a produção. Foto: Leandro dos Santos no Brasil de Fato.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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