PROJETO CAPACITA TRABALHADORES E ABRE OPORTUNIDADES NO DISTRITO FEDERAL

PROJETO CAPACITA TRABALHADORES E ABRE OPORTUNIDADES

PROJETO CAPACITA TRABALHADORES E ABRE OPORTUNIDADES NO DISTRITO FEDERAL

Por Artur Moret e Minéia Capistrano

Com a rápida evolução da energia fotovoltaica no Brasil e a falta de mão de obra especializada, iniciativa do Ministério do Trabalho e Emprego e da Associação Alternativa Terrazul aposta na qualificação profissional para conectar pessoas em situação de vulnerabilidade a um dos mercados que mais crescem no país

Quando Wesley da Silva Vieira decidiu se matricular em um curso de energia solar fotovoltaica em Ceilândia Norte, buscava ampliar seus conhecimentos e se qualificar profissionalmente. Ao concluir a formação, encontrou mais que conhecimentos técnicos: descobriu um mercado em expansão, fez amizades e passou a enxergar possibilidades de empreendedorismo ao lado dos colegas de turma.

“Foi um excelente curso para quem quer começar. Aprendemos desde a instalação das placas até toda a parte técnica. Muitos alunos já saíram pensando em investir e alguns estão se organizando para criar uma cooperativa. É um mercado muito promissor e cheio de oportunidades”, conta.

A trajetória de Wesley acompanha um movimento que vem transformando o setor elétrico brasileiro. Nos últimos anos, a energia solar fotovoltaica deixou de ser uma alternativa restrita a grandes empreendimentos para se consolidar como um dos principais vetores da transição energética no país.

O avanço desse mercado ganhou força em 2012, quando a Resolução Normativa nº 482 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) criou o sistema de compensação de energia elétrica, permitindo que consumidores passassem a produzir a própria energia por meio de sistemas fotovoltaicos e injetassem o excedente na rede de distribuição. A medida inaugurou um novo modelo de geração distribuída no Brasil e ampliou significativamente o acesso à energia solar.

Desde então, o setor passou por uma rápida expansão. A concorrência internacional e o aumento da escala de produção reduziram significativamente o preço dos equipamentos. Em 2015, o custo médio de instalação de sistemas fotovoltaicos era de aproximadamente R$4 mil por quilowatt instalado. Atualmente, esse valor varia entre R$2 mil e R$2,5 mil por quilowatt, tornando a tecnologia mais acessível para residências, empresas e propriedades rurais.

Nos anos seguintes, o crescimento da geração distribuída provocou debates entre consumidores, distribuidoras e agentes do setor elétrico. Mudanças regulatórias posteriores alteraram as regras para novos sistemas conectados à rede, mas a queda nos custos dos equipamentos manteve a energia solar competitiva e impulsionou a continuidade da expansão do mercado.

Se a demanda por sistemas fotovoltaicos aumentou rapidamente, a oferta de profissionais qualificados não acompanhou o mesmo ritmo. Mesmo passados mais de 14 anos da regulamentação da geração distribuída, empresas e prestadores de serviço ainda enfrentam dificuldades para encontrar mão de obra especializada em instalação e manutenção de sistemas solares.

A escassez de profissionais também dificultou a ampliação de iniciativas de formação ao longo desse período. Embora diferentes instituições tenham buscado oferecer capacitações, muitas enfrentaram limitações relacionadas à disponibilidade de instrutores especializados e à estrutura necessária para atender à crescente demanda do setor.

Foi nesse contexto que o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) firmou parceria com a Associação Alternativa Terrazul para oferecer um curso de qualificação profissional em energia solar fotovoltaica destinado à formação de 750 trabalhadores e trabalhadoras do Distrito Federal.

O projeto, que está em franco andamento, já atendeu às seguintes regiões administrativas: Varjão, Estrutural, Brazlândia – com turmas urbanas e duas voltadas especificamente aos trabalhadores do MST, na área rural —, Riacho Fundo, Sol Nascente e Ceilândia. Ainda em 2026, a capacitação chegará a Planaltina, totalizando sete regiões administrativas.

O público-alvo reúne trabalhadores desempregados, jovens em busca do primeiro emprego, beneficiários de políticas de inclusão social, pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), trabalhadores de setores estratégicos da economia e integrantes de cooperativas e empreendimentos autogestionados e, ainda, um público que, embora inicialmente não tenha sido mapeado, despontou em todas as turmas com enorme participação: adultos com mais de 40 anos de idade, interessados, se não em uma nova profissão, em uma possível nova fonte de renda.

Além da formação em montagem, instalação e manutenção de sistemas fotovoltaicos, o curso contempla conteúdos relacionados à segurança do trabalho, normas técnicas, comunicação, empreendedorismo e competências socioemocionais, buscando ampliar as possibilidades de inserção profissional e geração de renda.

Em resumo, a iniciativa pretende responder simultaneamente a dois desafios: suprir a crescente demanda por mão de obra especializada em um setor estratégico para a economia de baixo carbono e ampliar as oportunidades de qualificação para pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Responsável pela execução do projeto, a Associação Alternativa Terrazul acumula mais de 25 anos de atuação na formação profissional e no desenvolvimento de iniciativas voltadas à sustentabilidade e às energias renováveis em diferentes regiões do país.

 “Esse projeto está dialogando com questões muito importantes da conjuntura, como mudanças climáticas. E formar trabalhadores para enfrentar essa questão com uma visão de novo mundo do trabalho, que é baseado em soluções da natureza, é muito inovador”, define Pedro Ivo Batista, presidente da Alternativa Terrazul.

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Fotos: Divulgação/ Arquivo do projeto

Para Magno Lavigne, ex-secretário Nacional de Qualificação e Fomento à Geração de Emprego e Renda do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a qualificação profissional que está sendo executada na região do Distrito Federal foi pensada para ampliar horizontes e fortalecer a autonomia dos participantes.

“A expectativa é que os conhecimentos adquiridos permitam não apenas o ingresso dos partícipes no mercado de trabalho, mas também o fortalecimento de iniciativas coletivas, como cooperativas de prestação de serviços, visando ampliar as oportunidades de desenvolvimento nas comunidades atendidas”, conclui.

INCENTIVO

Os alunos que participam do curso recebem o material escolar de apoio, como cadernos, canetas, lápis e borracha, além de camisetas, equipamentos de proteção individual (EPIs), que incluem óculos e luvas, lanche e auxílio-transporte para os alunos que residem distantes dos espaços onde são realizadas as aulas.

O professor de Energia Fotovoltaica, Manoel Josivá, descreve, com carinho e orgulho a sua participação na iniciativa. “É muito gratificante participar desse projeto e contribuir para a formação de pessoas que buscam uma oportunidade de qualificação e de inserção no mercado de trabalho. Fico muito feliz em saber que ex-alunos já estão atuando na área e construindo uma nova trajetória profissional. Também é muito positivo acompanhar o empenho dos estudantes durante o curso.

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 O interesse, a dedicação e o envolvimento em sala de aula fazem toda a diferença. É possível perceber a evolução daqueles que concluem a formação”, descreve o professor.

Já a professora Ísis Capistrano, da disciplina Comunicação Oral e Escrita, afirma que sempre terminou as aulas com o ânimo redobrado. “As turmas são sempre animadas, e os alunos participativos e dão retorno ao professor, isso é fabuloso”, garante.

O projeto reúne sonhos, realidades e trajetórias distintas, mas todas convergem para um mesmo propósito: transformar conhecimento em oportunidade, qualificação em autonomia e energia limpa em um futuro com mais trabalho, renda e dignidade. Para Wesley da Silva, o ex-aluno que nessa reportagem representa todos os que participaram do curso, a oportunidade representou o início de um novo caminho profissional.

“Quem tiver a oportunidade de fazer o curso não pode perder. Eu só tenho boas referências: é uma área que cresce a cada dia e pode abrir portas para quem procura uma profissão, uma renda ou mesmo deseja empreender. Foi uma experiência que mudou a forma como vejo meu futuro”.

 

Artur Moret – Físico, mestre em Ensino de Ciências, com ênfase em Física e Química, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Minéia Capistrano – Jornalista, mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente.

Capa: Foto: Divulgação/Arquivo do projeto

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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