O SERTÃO SOU EU O OCEANO TAMBÉM

O SERTÃO SOU EU O OCEANO TAMBÉM

O SERTÃO SOU EU O OCEANO TAMBÉM

Recentemente li uma reportagem lembrando que 2026 marca os 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Li o livro há alguns anos e guardei a lembrança de sua beleza, embora muitos detalhes já tivessem se perdido no tempo. Procurei uma síntese da obra, querendo reencontrar Riobaldo, suas travessias e o sertão narrado por ele.

Por Teka Rosso

Foi aí que reencontrei a frase que todo mundo lembra: “O sertão sou eu”.

Da primeira vez que li o livro, não tinha feito essa associação. Agora essas quatro palavras me levaram direto ao oceano que carrego dentro de mim.

Sertão e oceano são paisagens opostas, à primeira vista. De um lado a terra que se estende sem fim visível; do outro, a água que também não deixa ver onde termina.

 Quando Guimarães Rosa coloca na boca de Riobaldo essa frase, ele não está falando de um lugar no mapa. Está falando do que uma paisagem faz por dentro de uma pessoa.

Riobaldo atravessa o sertão contando sua história – rios, veredas, medos, amores, guerras, escolhas, as dúvidas sobre Deus e o diabo. Aos poucos fica difícil separar onde termina o homem e começa o território, porque aquele lugar vira lembrança, inquietação, palavra dentro dele. E o efeito não para aí: ao dizer “o sertão sou eu”, Riobaldo também coloca o sertão dentro de quem lê.

 Deixamos de observar de fora e passamos a carregar suas dúvidas como se fossem nossas.

Não tenho pretensão nenhuma de fazer crítica literária, muito menos de comparar as duas obras a fundo. É só uma aproximação de imagens – o que a frase de Riobaldo despertou em mim, cruzado com algo que eu já vinha pensando sobre o oceano.

O oceano, pra mim, não é só o que vejo da praia ou leio em livro de ciência. Ele está nas lembranças, nos afetos, nas escolhas que fiz. Está no ar que respiro, no clima que sinto, na chuva que cai sobre a cidade, na água que desce pelos rios. Até quem nunca viu o mar carrega um pedaço dele sem saber.

Isso me levou a outra paisagem da nossa literatura: Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos e a cachorra Baleia atravessam uma terra castigada pela seca. Diferente de Riobaldo, Fabiano quase não tem palavras para explicar o que aquela terra faz dentro dele. Mas o corpo fala por ele: nos passos cansados, na fome dos filhos, no sonho de Sinhá Vitória, no medo de que tudo volte a acontecer.

A seca, em Vidas Secas, não fica do lado de fora. Ela entra nas pessoas, limita as palavras, empurra a família para fora de sua própria terra.

Hoje chamaríamos Fabiano e sua família de deslocados climáticos – a palavra é nova, mas a experiência não.

Um livro me mostra a paisagem que mora dentro do ser humano; o outro, o ser humano forçado a abandonar sua paisagem. Nos dois casos a natureza não é cenário – ela participa da história, decide caminhos, deixa marca no corpo e na memória.

Essas duas leituras me devolveram uma lembrança de infância: o prazer de pisar em terra molhada, o cheiro que a chuva deixa nas árvores depois que passa.

 Riobaldo e Fabiano conheceram essa mesma chuva, mas nunca puderam recebê-la com a mesma despreocupação que eu tive quando criança. Para eles, a água nunca foi só cheiro ou frescor – era alívio, era decidir se dava pra ficar ou se era hora de ir embora.

E o que isso tem a ver com o oceano? Mais do que parece.

A água do mar evapora, sobe, vira nuvem e, quando as condições ajudam, volta pra terra em forma de chuva. Alimenta nascente, vereda, rio. Entra no solo, sustenta plantação, mata a sede dos animais, permite que gente continue morando onde construiu sua vida. Depois volta a procurar o mar, por outros caminhos. Entre o oceano e o sertão existe essa viagem que a gente não vê.

Quando essa viagem muda de ritmo, a vida muda junto. O aquecimento do oceano interfere na circulação da atmosfera e na distribuição das chuvas: algumas regiões passam a ter chuva demais, outras enfrentam secas cada vez mais longas. As veredas perdem água, os rios encolhem, a terra deixa de sustentar quem construiu ali sua história.

A literatura brasileira já dizia isso muito antes de existirem os termos técnicos de hoje: mudanças na água mudam destinos humanos.

 Quando uma vereda seca, some mais do que um pedaço de paisagem – somem caminhos, espécies, jeitos de viver, lembranças, palavras que nasceram ali.

A crise climática nos coloca diante de uma travessia nova e enorme. Como Riobaldo, avançamos sem entender direito os caminhos, sabendo que algo muda, mas hesitando diante das escolhas que precisam ser feitas.

 Procuramos o perigo sempre em outro lugar – no gelo que derrete, na floresta que queima, no oceano que esquenta, no sertão que perde suas veredas – como se o problema nunca fosse aqui.

Só que está tudo ligado, e a água não conhece fronteira nenhuma.

“O sertão sou eu”, disse Riobaldo, e com isso colocou o sertão dentro de cada um de nós.

O oceano também somos nós – está no nosso corpo, no ar que respiramos, na chuva que esperamos, nas histórias que contamos. Por isso o que acontece com ele não acontece longe daqui. Quando ele esquenta, a chuva muda; quando a chuva muda, a vereda pode secar; e quando a vereda seca, alguma coisa se altera também dentro da gente.

Nenhuma travessia acontece só do lado de fora. A paisagem que atravessamos também nos atravessa.

 Entre o sal do mar e a terra do sertão, a água segue viagem – e nós, mesmo sem perceber, viajamos com ela.

 

31Teka Rosso (Thereza Christina de Almeida Rosso) – Professora Titular do Departamento de Engenharia Sanitária e do Meio Ambiente da Uerj. Especialista em Engenharia Sanitária, na área de concentração de Recursos Hídricos, pela UFMG (1980) e doutora em Engenharia Oceânica, na área de concentração em Engenharia Costeira, pela COPPE/UFRJ (1997). Vencedora do 1º Prêmio Uerj de Divulgação Científica (2026), com o livro O oceano que habita em mim, um ensaio que mistura conhecimento científico rigoroso com uma linguagem leve, poética e acessível.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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