LETÍCIA ESPÍNDOLA, SECRETÁRIA DE JUVENTUDE DO PT-DF

LETÍCIA ESPÍNDOLA, SECRETÁRIA DE JUVENTUDE DO PT-DF

Não por acaso a  posse de Letícia Alves da Silva Espíndola, 24 anos, como Secretária de Juventude do Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal, aconteceu num dia 13, o 13 de julho de 2018.

Vermelha desde tenra idade, filiada ao PT desde 2012, a jovem mulher que agora assume os rumos da juventude petista de Brasília nasceu no Guará, no 30 de abril da primavera do ano da graça de 1994. Filha de mãe e pai servidores públicos de esquerda, sindicalistas e petistas, é estudante do último ano do curso de Direito (100% FIES) e pensa fazer carreira no Direito Popular “trabalhando muito, ganhando pouco, e sendo feliz”.

Enquanto termina os estudos, Letícia enfrenta os tempos áridos desse nosso  país, tomado pelos tons tristes e sombrios do golpe de 2016, engajada na militância com a mesma resiliência rubra e firme de uma Caliandra do Cerrado, flor que, segundo Jacy Afonso, Secretário de Organização do PT DF, expressa a própria essência da militante Letícia Espíndola. “É assim que eu a vejo, suave e ao mesmo tempo forte em sua capacidade de teimar e de resistir ante os ventos do atraso na política brasileira e, porque não dizer, os necessários redemoinhos de inovação em nossa própria vida partidária.

Leticia meninas

MILITÂNCIA COMUNITÁRIA

Por sua trajetória, pode-se dizer que o habitat de Letícia é mesmo o mundo da militância comunitária, feminista e partidária.

Eclética, de família mineira numerosa, no total são 42 primos e primas, a irmã de Laura (18) e Luísa (16), neta de avô sertanejo e avó católica, rezadeira e parideira (12 filhos), embora espírita todos os anos acompanha Dona Rita pelas ruas do Guará nas caminhadas da Folia do Divino. “É um jeito de continuar junto dessa mulher guerreira que, aos 86 anos, segue de bem com a vida e sempre fica muito contente com os  netos e netas envolvidos nas atividades dela,” diz Letícia.

Devagar, sorvendo largos goles de café, Letícia fala um pouco do envolvimento com sua paixão, a cultura popular: “Desde que me entendo por gente, sou voluntária nas atividades culturais que minha família desenvolve na comunidade onde cresci. Meu tio Miguel Edgar, que é produtor cultural, faz muita coisa bacana. Uma delas é o “Lazer das Antigas” com os moradores do Guará, que resgata a magia das brincadeiras de rua, como a amarelinha, a queimada, a corrida de carrinhos de rolimã, as rodas de  prosa e de viola, as danças da saudade praquele povo bacana que nunca muda de lá.

É também no Guará que Letícia participa, no primeiro final de semana de cada mês, do “Samba do Banquinho”. Como isso funciona? “É simples, a gente vai pra praça, os músicos tocam, o povo se junta e canta, e todo mundo junto faz um festão de dar gosto.” Isso, descontando o mês de junho, que é quando a família faz o “Arraiá do Guará”. O último, no primeiro final de semana do mês de junho contou com a participação de mais de 15 mil pessoas. Além de aguentar firme na bilheteria, também ajudou fazer o cenário, “tudo criação nossa”, diz Letícia, orgulhosa.

Leticia crachá

MILITÂNCIA PARTIDÁRIA

Membro da Executiva do PT DF, onde desde 2017 representa a Juventude, no último dia 7 de julho Letícia foi eleita Secretária de Juventude defendendo uma plataforma de direitos, expressa em um manifesto (ver abaixo), centrada no “Lula Livre! Lula Presidente!”

Como dirigente, Letícia se sente esperançosa porque “a cada dia, vejo mais jovens se filiando ao PT. Com a prisão injusta de Lula, tem muito jovem vindo pro PT. “Como são jovens que começam a se juntar porque querem fazer alguma coisa, nós estamos nos reorganizando para incluí-los na luta pela liberdade do Lula e para mantê-los na militância do Partido, numa missão que não é nada fácil, porque de nós jovens exige muito investimento em formação,  e da direção do Partido uma real mudança de atitude e comportamento para encarar como saudável a rebeldia da juventude nas instâncias partidárias.”

Letícia atribui à falta de formação política um das maiores dificuldades para engajar a juventude do DF e brasileira, em sua maioria filha da classe trabalhadora, no essencial processo de transição geracional de um partido cujas lideranças estão envelhecendo. A outra parte da dificuldade, segundo Letícia, é a própria resistência interna, que desconfia da juventude e não deixa a juventude ocupar espaços sem muita luta.

Como assim? Ela mesma, vez por outra, encontra o caminho atravancado. Exemplo? “Escrevi um artigo para o Brasil 247, eu mesma. Nos corredores, teve dirigente me dizendo na cara dura que o artigo não era meu, que alguém tinha escrito por mim. Teve até gente que identificou o autor, pelo estilo. Claro que fiquei p da vida com esse desrespeito.”  

Outro exemplo? “Na semana passada bolei, mobilizei e organizei sozinha um churrasco pra celebrar a presença da juventude no PT e no Lula Livre. Advinha o que fizeram comigo? Me tornaram invisível. Disseram que fiz tudo a mando da direção, como se eu fosse um pau mandado e não uma dirigente partidária.” O que Letícia fez? “Exigi meus créditos, coloquei as coisas nos devidos lugares, me fiz respeitar.”

O bom da história é que há muita gente no PT apostando na força da juventude e, em especial, no crescimento de Letícia na direção partidária. Para Marcelo Neves, professor de Direito Constitucional da UnB e pré-candidato ao Senado pelo PT, “Letícia é um quadro muito importante para o Partido. Por sua experiência na militância e por sua capacidade de liderar, esta jovem caminha para ser um grande quadro nacional do Partido dos Trabalhadores. O PT DF ganha muito com eleição de Letícia para a Secretaria de Juventude. Traz muita força e esperança!

Denise Soares, Diretora de Mulheres da UNE, vai na mesma linha. Para ela, “Letícia expressa a busca por melhorias no cenário de atuação da juventude do PT DF e, ao aproximar as lutas da juventude rural com a juventude urbana, ela nos instiga a avançar na construção da igualdade entre homens e mulheres da cidade e do campo,  e a acabar com o preconceito geracional.”

Leticia Mulheres

 MILITÂNCIA FEMINISTA

No PT, além de todas as responsabilidades coma a agenda da Juventude, Letícia faz parte do Coletivo de Mulheres, porque “foi aí de fato que me tornei feminista, onde achei mais apoio para militar, porque desde o golpe, nós mulheres do PT temos sido protagonistas da resistência”.

Feminista por que? “Um dos bons aprendizados que herdei de minha mãe é essa coisa de ser dura sem perder a ternura.” Minha mãe é brava (morro de medo dela!) e me ensinou que mulher tem quer ser brava pra enfrentar o machismo. Foi com dona Eliane que aprendi que machismo até faz a gente chorar por dentro, mas nunca ficar calada, porque ser feminista não é um privilégio, é um direito.”

E embala: “No PT, cada vez mais mulheres se reconhecem como feministas, não só pra cumprir as regras da paridade, mas para lutar pelo que é nosso direito. Nosso papel é esse: não aceitar. Ainda tem um problema muito grande entre nossos dirigentes homens em não respeitar mulheres, mas nós vamos fincando pé, e eles vão crescendo com nossa firmeza terna.”

Para Andreza Xavier, Secretária de Mulheres do PT DF, Letícia contribui muito na luta das mulheres “pela ocupação de espaços estratégicos de decisão e construção política.” Para ela, Letícia representa “esse contingente  mulheres jovens que cada vez mais se identificam com os grandes debates políticos da sociedade brasileira e se interessam por ocupar a política para transformar a nossa realidadeQuando vemos uma jovem mulher ocupando o espaço de Secretária de Juventude do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores, como é o caso da companheira Letícia Espíndola, recém-eleita, temos a certeza de que a nossa luta e a das mulheres que vieram antes de nós vale a pena. Que cada vez mais mulheres jovens ocupem a política em todos os espaços, sempre em busca de uma sociedade sem machismo, racismo, LGBT fobia e qualquer desigualdade social”, completa Andreza.

Leticia Lula Livre

LULA LIVRE! LULA PRESIDENTE!

O ponto central da militância neste momento é o 15 de Agosto. “Nossa meta é fazer uma marcha da juventude com 3.500 jovens Em Brasília, estamos organizando nossa mobilização a partir de nossos e nossas representantes jovens nas zonais do PT e do diálogo com os outros movimentos de juventude. No Brasil inteiro, estamos falando não só com jovens do PT, mas com todos os jovens de luta, de esquerda e das lutas populares.”

Para Letícia, essa mobilização é possível “porque parte da juventude brasileira tem consciência de que lutar por Lula é lutar não somente pela liberdade de um inocente, é lutar pela própria democracia.”

Leticia Gleise

MANIFESTO JOVENS PETISTAS LULA LIVRE! LULA PRESIDENTE!

Encontro Extraordinário da Juventude do PT-DF

07 de julho de 2018

O Lula está preso porque querem retirar dos jovens e dos trabalhadores a possibilidade de mudar a situação do país que foi golpeado em 2016. O nosso futuro está em jogo! Por isso, milhares foram às ruas com o Lula durante a caravana e, hoje, mesmo sendo um preso político, lidera as pesquisas de intenção de voto. O PT todos os dias recebe centenas de novas filiações porque tem sido instrumento de resistência aos ataques dos golpistas. Esse é o retrato de que a  nossa esperança não morreu e de que seguiremos na batalha até o fim para eleger Lula presidente.

 POR NOSSOS SONHOS, SEGUIREMOS!

  • Queremos emprego com garantias trabalhistas e para isso é necessário revogar a reforma trabalhista.
  • A educação precisa de cada vez mais investimento, e isso não cabe na Emenda Constitucional 95. Além disso, queremos o acesso universal à universidade pública, federalizar o ensino médio, acesso à cultura nas próprias cidades do DF.
  • Nosso passe tem que ser ilimitado e irrestrito, não dá mais para não ter direito à cidade e ficar refém do DFTrans.
  • Basta ao genocídio da juventude negra! É urgente dar fim à Intervenção Militar no Rio de Janeiro, punir os assassinos de Marielle e Anderson e, enfim, desmilitarizar a PM.
  • A vida das mulheres importa! Não dá mais para tantas morrerem pelo aborto ilegal ou pelo feminicídio. Também queremos creches públicas e salário igual.
  • Não podemos continuar vendo nossos jovens LGBTs sendo assassinados diariamente, precisamos criminalizar a LGBT fobia.

É para cumprir com essas tarefas através de uma nova Constituição que Lula que Lula se candidatou. Foi o que ele próprio disse, em discurso histórico, antes de se entregar para a Polícia Federal  no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo -SP: “A prioridade é garantir que este país volte a ter cidadania. Não vão vender a Petrobras! Vamos fazer uma nova Constituinte!”

 AVANÇAR NO DISTRITO FEDERAL!

No Distrito Federal, sofremos a mesma cartilha de ajustes baseada em retirada de direitos e repressão do Temer golpista pela mão do Rodrigo Rollemberg. Aqui, nessas eleições, devemos batalhar para mudar o jogo. É necessário ampliar nossa bancada de parlamentares distritais do PT, reeleger para Câmara Federal e eleger um governador petista para fechar um grande time que defenderá até o fim Lula Presidente!

ORGANIZAÇÃO E LUTA!

Nosso desafio é tornar milhares em milhões que vão arrancar o Lula da cadeia e botar como presidente deste país. Para isso, uma das nossas tarefas centrais daqui pra frente é a criação de comitês jovens Lula Livre! Lula Presidente! que organizem nas cidades mais e mais jovens a partir de mobilizações, debates e atividades culturais debatendo o obscurantismo que cresce e afeta cada vez maiores parcelas da juventude, conhecida pela rebeldia.

Será a JPT a grande organizadora desse processo, batalhando por sua autonomia, trará amplamente os jovens que tem se agarrado ao nosso Partido com reuniões regulares, uma agenda de mobilização para com muita ousadia fazer tremer os golpistas e fazer tornar às nossas mãos nossos direitos, nossa democracia, nosso futuro.

Buscando enfrentar esse desafio, a JPT DF resolve:

  • Mobilizar para a Grande Marcha da Juventude a Brasília, no dia 15 de agosto, para registrar a candidatura do Lula como candidato a presidente do nosso país.
  • Construir uma grande campanha de filiação, para apresentar a militância partidária às jovens e aos jovens dispostos a enfrentar o neoliberalismo e o desmonte de direitos.
  • Organizar e impulsionar núcleos de jovens petistas em bairros, faculdades, escolas e locais de trabalho.
  • Organizar a jornada de formação da Juventude do PT, junto da Secretaria Nacional de Formação.
  • Organizar a impulsão e ação dos Comitês Lula Livre! Lula Presidente! por todo o país.
  • Organizar uma campanha permanente pela liberdade dos nossos presos políticos, Lula, José Dirceu, Vaccari e Delúbio.
  • Organizar, enquanto Lula estiver preso, em todo dia 13 de cada mês, um dia nacional de mobilização da JPT, com orientação para que secretarias estaduais, municipais, núcleos da JPT organizem panfletagens e manifestações.

 VIVA A JUVENTUDE DO PARTIDO DOS TRABALHADORES!

Leticia Lula

Fotos: Acervo Letícia Espíndola

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OS FILHOS DA PAIXÃO

Por Pedro Tierra

Nascemos num campo de futebol.
Haverá berço melhor para dar à luz uma estrela?
Aprendemos que os donos do país só nos ouviam
quando cessava o rumor da última máquina…
quando cantava o arame cortado da última cerca.
Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.
Somos a perigosa memória das lutas.
Projetamos a perigosa imagem do sonho.
Nada causa mais horror à ordem
do que homens e mulheres que sonham.
Nós sonhamos. E organizamos o sonho.
Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,
mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,
filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,
portugueses, espanhóis, poloneses, tantos…
Nascemos assim, desiguais, como todos os sonhos humanos.
Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros.
Fomos, ao nascer, condenados a amar a diferença.
A amar os diferentes.
Viemos da margem.
Somos a anti-sinfonia
que estorna da estreita pauta da melodia.
Não cabemos dentro da moldura…
Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.
Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:
como meninos de rua.
Quando o inimigo não fustiga
inventamos nossas próprias guerras.
Desenvolvemos um talento prodigioso para elas.
Com nossas mãos, sonhos, desavenças compomos um rosto de peão,
uma voz rouca de peão,
o desassombro dos peões para oferecer ao país,
para disputar o país.
Por sua boca dissemos na fábrica, nas praças, nos estádios
que este país não tem mais donos.
Em 84 viramos multidão, inundamos as ruas,
somamos nosso grito ao grito de todos,
depois gritamos sozinhos
e choramos a derrota sob nossas bandeiras.
88. Como aprender a governar,
a desenhar em cada passo, em cada gesto,
a cada dia a vida nova que nossa boca anunciou?
89. Encarnamos a tempestade.
Assombrados pela vertigem dos ventos que desatamos.
Venceu a solidez da mentira, do preconceito.
Três anos depois, pintamos a cara como tantos
e fomos pra rua com nossos filhos
inventar o arco-íris e a indignação.
Desta vez a fortaleza ruiu diante dos nossos olhos.
E só havia ratos depois dos muros.
A fortaleza agora está vazia
ou povoada de fantasmas.
O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares.
Caravanas: pelas estradas empoeiradas,
pela esperança empoeirada do povo,
pelos mandacarus e juazeiros,
pelos seringais, pelas águas da Amazônia,
pelos parreirais e pelos pampas, pelos cerrados e pelos babaçuais,
mas sobretudo pela invencível alegria
que o rosto castigado da gente demonstra à sua passagem.
A revolução que acalentamos na juventude faltou.
A vida não. A vida não falta.
E não há nada mais revolucionário que a vida.
Fixa suas próprias regras.
Marca a hora e se põe de nós, incontornável.
Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.
Eles sabem, nós sabemos que a vida não nos concederá outra oportunidade.
Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.
Temos sonhos organizados.
Queremos um país onde não se matem crianças
que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.
Onde os filhos da margem tenham direito à terra,
ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
às histórias que povoam nossa imaginação,
às raízes da nossa alegria.
Aprendemos que a construção do Brasil
não será obra apenas de nossas mãos.
Nosso retrato futuro resultará
da desencontrada multiplicação
dos sonhos que desatamos. 

Pedro Tierra, 1994.

Os Filhos da Paixão

Em 10 de fevereiro de 2026 o PT completA 46 anos de vida

Das fábricas e ruas, há 40 anos PT chegava pra mudar

Mesa que presidiu o ato de fundação do PT / Foto: Juca Martins

Da Fundação Perseu Abramo
No dia 10 de fevereiro de 1980, um domingo, o Manifesto do Partido dos Trabalhadores foi aprovado na reunião de fundação da legenda no auditório do Colégio Sion, em São Paulo. A Revista Perseu de número 1 conta que “estiveram presentes cerca de 400 representantes de núcleos de 17 estados (AM, BA, CE, ES, GO, MA, MG, MS, PB, PE, PI, PR, RJ, RN, RS, SC e SP) e do Distrito Federal, além de uma plateia cujas dimensões variam conforme as fontes, mas que chegou a assinalar a presença no auditório do Colégio Sion de um total que varia entre 700 e 1.200 pessoas”.
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O registro histórico do fotógrafo Juca Martins, preservado pelo CSBH, dá uma dimensão do público presente naquele auditório.
O documento aprovado afirma que o PT “surge da necessidade sentida por milhões de trabalhadores brasileiros de intervir na vida social e política do país para transformá-la”. A proposta era mobilizar os trabalhadores da cidade e do campo não apenas nos períodos eleitorais e organizá-los para “construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores”.
Liderado por dirigentes sindicais combativos, o PT atraiu ativistas das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ex-militantes de organizações revolucionárias, um respeitável núcleo de intelectuais de esquerda e militantes de movimentos sociais. Foi a primeira legenda organizada após a reforma partidária que extinguiu o MDB e a Arena.
A criação do PT surpreendeu a ditadura, que não contava com um partido de esquerda nascido de bases populares. Também surpreendeu setores da oposição que defendiam a formação de um partido socialdemocrata ou a permanência da esquerda no PMDB.
Como principal liderança do PT, destacava-se o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Luiz Inácio da Silva, o Lula, que desde 1978 desafiava a ditadura à frente de grandes greves. O fotógrafo Juca Martins registrou o futuro presidente do Brasil no dia da fundação do PT, o registro também está no acervo da Fundação Perseu Abramo.
A ficha de filiação número um foi assinada por Apolônio de Carvalho, ex-dirigente comunista que lutou contra o fascismo na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa. Na sequência, assinaram o crítico de arte Mário Pedrosa, registrado pela fotógrafa Nair Benedicto, o crítico literário Antonio Candido e o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, historicamente ligados à luta pelo socialismo no país.
A criação de um Partido dos Trabalhadores vinha sendo discutida desde outubro de 1978, quando Lula lançou a tese no 3° Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, em Guarujá (SP). Na época, ele argumentava que os trabalhadores precisavam eleger seus próprios representantes no Congresso Nacional.
Em 13 de outubro de 1979, foi eleita a Comissão Nacional provisória do Movimento Pró-PT, coordenada por Jacó Bittar, presidente do Sindicato dos Petroleiros de Campinas (SP). Dirigentes sindicais como Olívio Dutra, Manuel da Conceição e Luiz Dulci eram maioria na comissão.
Este texto é um trabalho do Memorial da Democracia, o museu virtual das lutas democráticas do povo brasileiro, que é mantido pela Fundação Perseu Abramo e pelo Instituto Lula.
PT FUNDACAO ASSINATURA
Fonte: Instituto Lula
 
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O DISCURSO DE CORAJOSO DE LULA NO ENTERRO DE CHICO MENDES

O Chico termina numa entrevista que ele deu ao jornal do Brasil dizendo o seguinte: “Eu quero ficar vivo para ajudar a salvar a Amazônia, eu não quero morrer, porque esse negócio de ato público depois da morte, esse negócio de grandes enterros acaba no dia seguinte”.
Esse era o pensamento do velho Chico, há tempo, pois ele participou junto comigo do ato de solidariedade ao companheiro Wilson Pinheiro, morto em Brasiléia dentro do sindicato em 21 de julho de 1980, e falou isso (…).
Chico conseguiu juntar a bandeira do direito ao trabalho, do direito à vida dos trabalhadores desse Estado e dessa região com uma luta pela defesa do meio ambiente. Por quê?
Porque preservar o meio ambiente para os trabalhadores que moram na região amazônica, preservar as árvores, preservar as castanheiras, preservar as seringueiras é, na verdade, preservar o direito do feijão e do arroz de cada criança dessa região. Porque o gado traz riqueza pro dono do gado, mas não traz sequer carne para os companheiros que trabalham aqui. E o que o companheiro Chico queria?
Ele queria pura e simplesmente que deixassem a mata, que era instrumento de sobrevivência de milhares e milhares de trabalhadores, em paz; que fossem plantar gado noutro lugar, criar gado noutro lugar, mas deixassem aqui a mata, as seringueiras, as castanheiras, pros trabalhadores sobreviverem.
Na TV Globo o doutor Romeu Thuma, a quem o Chico enviou várias cartas, dizia o quê? Que a culpa do que está acontecendo aqui é da Polícia Militar… Mas nós precisamos dizer que a culpa não é apenas da polícia militar, a culpa é de todos eles juntos: é da polícia federal, é da polícia militar, da justiça brasileira, da Presidência da República (José Sarney- PMDB), porque, quando eles inventam que vêm aqui desarmar o povo, quem que eles desarmam? Eles pegam a espingardinha de caçar preá do trabalhador e deixam os fazendeiros com metralhadoras, calibre 12.

O discurso corajoso de Lula no enterro de Chico Mendes
Foto: Instituto Lula

O companheiro Chico não ganhou as eleições (Chico foi candidato a deputado estadual em 1982 e a prefeito de Xapuri em 1985) e alguns imaginavam que a partir daí fosse desanimar. Qual não foi a surpresa dele: ao invés de desanimar, a luta do companheiro Chico ganhou outra dimensão; ele começou a ser reconhecido por organismos internacionais, pelo Banco Mundial, pelo BID, pelo movimento ecológico do mundo inteiro.
Começou a ser reconhecido, a ganhar prêmio, a viajar e a contar no mundo o que acontecia aqui; e começou inclusive a dar palpite, opinião sobre empréstimos que empresas estrangeiras ou bancos estatais iam fazer aqui, e por isso aumentou o ódio dos grandes proprietários contra o companheiro Chico. Aumentou o ódio a ponto de culminar com a morte dele no dia 22.
O quê que essas pessoas imaginam? Será que essas pessoas são tão burras que imaginam que matando Chico Mendes, mataram a luta do Chico Mendes? Será que eles não percebem (aplausos), será que esses ricos não têm exemplo na história, será que eles não percebem que esse mesmos grupos de ricos mandaram matar Jesus Cristo há dois mil anos atrás? E o povo não esqueceu as ideias de Jesus Cristo.
Será que esses mesmos não estão lembrados que foram eles que mandaram matar Tiradentes, esquartejar e colocar sua carne pendurada nos postes, para que o povo nunca mais se lembrasse quem era Tiradentes? 30 anos depois o Brasil conquistou sua independência.
Eu queria dizer pra vocês uma coisa bem simples, pra cada um de vocês guardar na cabeça. Vocês conheciam bem o caboclo Chico, vocês sabiam bem o que Chico queria, vocês sabiam o que Chico dizia, vocês sabiam o que o Chico pensava.
Pois bem, o que o companheiro Chico, que deve estar no céu nesse instante, espera de cada um? Ele espera que aumente a coragem e a disposição de luta de cada companheiro. Ele dizia sempre: no dia em que eu morrer meus companheiros vão se dobrar, cada um vai valer por 10 e a luta vai continuar. E é isso que tem que acontecer (aplausos).
Porque se agora houver por parte dos trabalhadores e de todos nós, medo e preocupação, o quê que vai acontecer? Eles vão ficar rindo da vida e vão matar mais. O quê que nós deveremos esperar? Em primeiro lugar, nós achamos que o povo brasileiro quer justiça, e que a polícia prenda esses assassinos do companheiro Chico.
Se é verdade que esses dois sujeitos (Darli e Alvarino Alves) tinham 30 mil hectares aqui; se é verdade que eles eram bandidos em Minas e no Paraná e já vieram fugidos; se é verdade que aqui eles ficaram contratando grileiros e já mataram mais de um trabalhador, e se é verdade que essa propriedade deles pode até ser grilada…

O quê que deveria acontecer como atitude nobre do governo? O governo deveria desapropriar essa terra e dar para os trabalhadores rurais cultivarem, ao invés de deixá-las ficar nas mãos de bandidos e grileiros; porque, se o governo fizesse isso e cada fazendeiro que manda matar alguém perdesse sua terra, na verdade essas pessoas iriam ter medo de continuar matando trabalhador rural (…).
Nós precisamos dizer em alto e bom som: o governo precisa começar a investigar cada crime colocando policiais sérios pra fazer isso, porque nós sabemos que tem muitos policiais que são capachos de fazendeiros (aplausos) na cidade.
É preciso que haja seriedade e vocês sabem, companheiros, pra terminar, que cada um de nós, tanto nós de São Paulo, como companheiros do Acre, de Rondônia, que chegaram aqui agora, sabemos que temos um compromisso sério: é não deixar a coisa agora esfriar, é não deixar, sabe, o que eles querem, que o povo esqueça o companheiro Chico Mendes.
Agora é que nós temos que mostrar pra eles que nós vamos fazer a luta do companheiro Chico Mendes ser conhecida nesse país. Agora que vamos arrumar solidariedade, não apenas pra dar sobrevivência para a companheira do Chico e de seus filhos, mas arrumar solidariedade pra dar ajuda concreta à luta dos trabalhadores que defendem a Amazônia, a luta dos trabalhadores que defendem o seringal, a luta dos trabalhadores que defendem a manutenção das castanheiras e a luta dos trabalhadores que brigam por reforma agrária.
Lula Elson Martins Lula discursso Almanacre
A classe dominante tá ficando com medo, porque ela sabe que a classe trabalhadora tá amadurecendo; ela sabe que a classe trabalhadora tá tomando consciência, ela sabe que aqui hoje tá PV, PT, daqui a pouco chegam companheiros do PMDB, daqui a pouco chegam do PDT, sei lá, o movimento sindical… Ela sabe que tá crescendo a solidariedade e começa a ficar com medo.
Eu acho que é um compromisso dos partidos políticos progressistas, do movimento sindical, da CUT, da CGT, que a gente precisa transformar cada palavra do Chico numa profissão de fé por esse país aí afora. Daqui a pouco eles vão perceber que o que Chico falava aqui e era ouvido apenas pelos companheiros do sindicato dele vai ser discutido lá no agreste de Pernambuco, lá na Bahia, na favela de São Paulo (…).
Nós deveremos eleger o Chico, hoje, o símbolo da descrença desse governo, deveremos eleger o companheiro Chico hoje como o mártir da classe trabalhadora camponesa desse país, porque o que ele fez foi dedicar 44 anos da sua vida à luta pela liberdade dos trabalhadores.
A morte do Chico não foi o fim, ela foi o início da libertação da classe trabalhadora brasileira.
Texto publicado originalmente na coluna do Jornal Página 20, em 28 de novembro de 2015. Reproduzido pelo jornalista Elson Martins no blog Almanacre em 29 de dezembro de 2015. Capa Elson Martins – Acervo Almanacre. Datas atualizadas por Zezé Weiss.
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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