O MASSACRE DE ALTO ALEGRE

O Massacre de Alto Alegre: uma das experiências mais heróicas do indigenismo brasileiro

Há 125 anos, o Maranhão viveu a tragédia sangrenta da violência entre brancos e índios

Por Olímpio Cruz Neto no Brasil 247

Em março de 1901, o país assistiu a uma das mais traumáticas histórias do indigenismo brasileiro. Conhecido como o Massacre de Alto Alegre, o episódio teve como personagens o cacique João Caboré – o Caoré Imana, ou simplesmente Cauiré, como era chamado por sua gente – e Perpétua dos Reis Moreira, estudante em regime de internato no Instituto da Missão de São José da Providência.

Na época, Perpetinha foi sequestrada por um bravo índio. Os fatos que se sucederam resultaram na morte de 13 frades e freiras italianos em Alto Alegre, no município de Barra do Corda (MA). Pelo menos 200 pessoas morreram no confronto. O caso ocorreu na madrugada de 13 de março de 1901.

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Imagens de missionários mortos na fachada da Igreja Matriz de Barra do Corda

Os índios venceram a batalha contra brancos, deixando um rastro de violência. Um episódio sangrento que marcou a luta dos povos indígenas pela sua herança cultural. Por cerca de 20 anos a desconfiança e o desconforto reinariam ainda entre brancos e índios por causa do massacre. Até hoje, em pleno século 21, os fatos têm cores fantásticas.

O episódio ganhou as páginas do livro “Cauiré Imana, o cacique rebelde”, escrito por Olímpio Cruz, meu avô. Ele acreditava que, depois de Antonio Conselheiro, em Canudos (BA), a revolta comandada pelo índio Cauiré, no Maranhão, seja um dos grandes destaques entre os movimentos nativistas brasileiros. O caso é especial porque a revolta dos índios ganhou cores mitológicas, permanecendo amalgamada de misticismo e idéias de liberdade.

Mesmo após cem anos da tragédia, a história permanece no imaginário indígena. A trágica morte de frades e freiras foi resultado direto de uma inábil e apressada catequese de missionários estrangeiros. Apesar de bem intencionados, os religiosos desconheciam usos e costumes dos índios. O choque de civilizações foi fatal.

Na primeira edição do livro, publicado em 1982, o próprio Olímpio dizia que sua obra tinha a pretensão de jogar um pouco de luz aos fatos, fornecendo subsídios aos antropólogos e outros cientistas sociais que estudam a causa do índio brasileiro. O esforço dele começou ainda no final dos anos 50 do século 20.

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Foto: Reprodução/Internet

Ao longo de décadas, o poeta e escritor foi reunindo material e farta documentação, fruto de exaustivas pesquisas realizadas por cidades do interior maranhense. Entre os anos 50 e 60, ele percorreu diversas aldeias Guajajara – algumas hoje inexistentes. O trabalho também foi enriquecido com conversas e entrevistas com alguns daqueles que viveram a história.

Em conversas com o velho escritor, até mesmo os poucos índios que sobreviveram aos acontecimentos puxaram da memória o que sabiam do que acontecera no povoado. Isso na era pré-internet, em que documentos e relatos eram muito mais difíceis de serem colhidos. O livro ganhou reedição em 2015 e está disponível na Amazon.

“Cauiré Imana” foi apresentado por Olímpio Cruz como uma reportagem-documento, sem pretensão alguma de ganhar as características típicas de um romance. Além das crenças, usos e costumes dos Guajajaras, o livro aponta algumas causas que, para os índios, justificariam o massacre. O desfecho trágico foi resultado de um violento choque entre mundos distanciados culturalmente por séculos.

De acordo com o antropólogo Júlio César Melatti, que prefaciou o livro O índio na história. A saga do povo Tenetehara, em busca da liberdade, escrito pelo ex-presidente da Funai Mércio Pereira Gomes, a missão religiosa mantinha “uma orientação obsoleta, mesmo para sua época”.

Hoje, quando os índios brasileiros enfrentam um governo hostil à luta pela demarcação de terras, o Massacre de Alto Alegre é a memória viva de que o desrespeito aos direitos humanos pode resultar em conflito armado e uma tragédia social. Triste o país que esquece sua gente e sua história.

 Matéria publicada originalmente em 2019. Datas atualizadas pela Redação Xapuri em janeiro de 2026. 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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