Vai em paz, Xexéo!!!

Vai em paz, Xexéo!!!
 
 
Eu contava 14 anos. Fazia o 1 ano do 2 grau, no Colégio Batista. Meu pai chegava em casa, à noite, com o Jornal do Brasil, que chegava à ilha num voo da Varig, que vinha do Rio, no fim de tarde.
 
Do aeroporto, ia para uma banca da Praça João Lisboa, no centro da cidade. O exemplar do meu pai já estava separado…
 
Mas eu só podia ler depois que ele lesse. Não gostava de pegar o jornal fora de ordem. Coisas que eu, hoje, sei exatamente como é.
 
Ok. Depois que o juiz lia, eu podia pegar o jornal. Era quando eu viajava. Corria pro Caderno B, de Cultura, direito. E lá chegava à página de um cara chamado Artur Xexéo. Era o meu deleite. Eu lia aquilo e queria fazer aquilo. Queria escrever. Escrever muito. Eu só queria escrever.
 
Aos 14 anos, descobri e decidi que seria jornalista. E assim se fez. Engraçado é que nunca fui pro Caderno B. Segui outros caminhos, outras histórias que nunca couberam nos Cadernos de Cultura.
 
Foi o melhor caminho que podia seguir, vejo hoje com muita certeza e clareza. Foi o meu melhor e mais prazeroso caminho nesse ofício cada vez mais complicado.
 
Obrigado, Xexéo! Valeu, mestre!!! Segue a tua viagem. Há muita coisa pra escreveres lá em cima. Muitas histórias boas.
 
O jornalismo perdeu. Muito.
 
Marcelo Abreu é Jornalista. Foto de Capa: Divulgação. Foto interna: G1. 
 
Artur Xexéo faleceu na noite do dia 27 de junho de 2021, de um câncer linfático descoberto há apenas duas semanas. 
 
Vai em paz, Xexéo!!!
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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