QUANDO AS RODOVIAS CRUZAM O CAMINHO DA BIODIVERSIDADE

QUANDO AS RODOVIAS CRUZAM O CAMINHO DA BIODIVERSIDADE

QUANDO AS RODOVIAS CRUZAM O CAMINHO DA BIODIVERSIDADE

O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do mundo, abrigando cerca de 15% da biodiversidade mundial. Essa riqueza biológica está presente nos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Apesar dessa condição privilegiada, o país enfrenta um cenário preocupante em relação à conservação da fauna.

Por Thaís Silveira

Atualmente, de acordo com a Portaria MMA nº 148, há registros de 764 espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção. Dentre elas, 272 correspondem a invertebrados terrestres, 259 a aves, 103 a mamíferos, 71 a répteis e 59 a anfíbios, além de 10 espécies consideradas oficialmente extintas.

Esse panorama evidencia a necessidade de fortalecer as ações de conservação e manejo da biodiversidade, visando reduzir as pressões que ameaçam a sobrevivência das espécies em território nacional.

Entre os diversos fatores que contribuem para esse cenário, os atropelamentos em rodovias têm se destacado como uma importante causa de mortalidade da fauna silvestre.

Diariamente, milhares de animais morrem em decorrência de colisões com veículos nas estradas brasileiras. Entre as principais vítimas estão mamíferos de pequeno, médio e grande porte, incluindo espécies de elevada importância ecológica e conservacionista.

Em rodovias com intenso fluxo de veículos, são frequentes os registros de atropelamentos de espécies como a onça-pintada, o lobo-guará e a anta, animais que desempenham papéis fundamentais na manutenção dos ecossistemas.

Recentemente, um episódio envolvendo uma onça-pintada atropelada ganhou grande repercussão nacional e trouxe visibilidade para o problema dos atropelamentos de fauna nas rodovias brasileiras.

O vídeo, amplamente divulgado pela mídia e pelas redes sociais, registrou o momento em que o animal, gravemente ferido após ser atingido por um veículo na BR-262, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, tentava se arrastar até o acostamento da rodovia, mas, infelizmente, não resistiu aos ferimentos.

As imagens causaram comoção em todo o país e reacenderam o debate sobre os impactos da infraestrutura viária na conservação da fauna silvestre.

Casos como esse representam apenas pequena parcela de uma realidade recorrente nas estradas brasileiras. Embora espécies emblemáticas, como a onça-pintada, despertem maior atenção pública, milhares de animais são atropelados diariamente, incluindo espécies ameaçadas de extinção.

Um estudo realizado em escala nacional e publicado na revista Diversity, em 2022, identificou que, das 102 espécies de mamíferos de médio e grande porte registradas na lista de conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 62 espécies (61%) foram registradas como vítimas de atropelamento. Entre essas espécies, 14,5% são classificadas como ameaçadas de extinção e 16% como quase ameaçadas.

Além disso, mais da metade das espécies atropeladas pertence a grupos com tendência ao declínio populacional. Os autores realizaram uma estimativa para toda a malha rodoviária brasileira, indicando que, anualmente, os números de mamíferos de médio e grande porte atropelados podem chegar a quase 9 milhões.

Esses resultados evidenciam que a expansão da infraestrutura viária e a mortalidade associada ao tráfego representam ameaças significativas à conservação da biodiversidade brasileira, reforçando a necessidade de medidas urgentes para reduzir os atropelamentos de fauna e ampliar a coleta de dados sobre as espécies envolvidas nessas colisões, como forma de contribuir para o desenvolvimento de estratégias de conservação mais eficazes. 

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Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

PLANO NACIONAL DE SEGURANÇA VIÁRIA

Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta que institui o Plano Nacional de Segurança Viária para a Fauna Silvestre. A iniciativa tem como principal objetivo reduzir os acidentes envolvendo animais silvestres nas rodovias brasileiras, por meio da identificação de trechos críticos e da adoção de medidas mitigadoras, como a instalação de redutores de velocidade, passagens aéreas e subterrâneas para fauna e outras estruturas voltadas à conectividade dos habitats.

Além disso, a proposta prevê a criação de um Cadastro Nacional de Acidentes com Animais Silvestres, que permitirá reunir informações sobre os atropelamentos registrados em rodovias de todo o país. A sistematização desses dados poderá contribuir para a identificação de áreas prioritárias para intervenção, subsidiando políticas públicas e estratégias de conservação mais eficientes.

A aprovação do plano representa um importante avanço na integração entre segurança viária e conservação da biodiversidade, reconhecendo que a proteção da fauna silvestre também depende de um planejamento adequado da infraestrutura de transportes.

thais silveiraThaís Silveira – Referências: Artigo Revista Diversity https://www.mdpi.com/1424-2818/14/10/835

Agência Câmara: https://www.camara.leg.br/noticias/1269781-camara-aprova-plano-nacional-para-reduzir-atropelamentos-de-animais-silvestres-em-estradas/

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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