JULHO DAS PRETAS: POR REPARAÇÃO E BEM VIVER

JULHO DAS PRETAS: POR REPARAÇÃO E BEM VIVER

JULHO DAS PRETAS: POR REPARAÇÃO E BEM VIVER

“Não existe democracia plena sem igualdade racial.”
Lélia Gonzalez

Por Maria Letícia

Radis 266 Reportagem Consciencia negra Lelia do Brasil
Foto: acervo pessoal

Simples, direta e visceral. Assim é a fala de Lélia Gonzalez, que transcende tempo, espaço, corpos, sociedades e comportamentos. A mulher revolucionária – que dissecou o mito da democracia racial – tem sua voz ecoada até os dias atuais.

A afirmação atravessa a produção intelectual e política de mulheres negras que, há décadas, denunciam a forma como o racismo estrutura as relações sociais brasileiras. Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Luiza Bairros, Nilma Lino Gomes, Jurema Werneck, Marielle Franco, entre tantas outras, não apenas interpretaram o país: pavimentaram caminhos para que a sociedade brasileira compreendesse que a política, a democracia e as desigualdades sociais nunca estiveram dissociadas da questão racial.

Mulheres negras não vivenciam o racismo e o sexismo de forma separada. Suas experiências são atravessadas pela combinação entre raça, gênero e classe, o que aprofunda desigualdades e violências históricas. O racismo quando combinado ao sexismo atinge de forma ainda mais cruel as mulheres negras, historicamente marginalizadas, forçadas a sobreviverem nos lugares mais precarizados da sociedade e, ao mesmo tempo, responsáveis por sustentar famílias, comunidades, memórias, territórios e lutas.

JULHO DAS PRETAS

Julho das Pretas, ou janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro. Nós, mulheres negras, vivemos num país que há mais de cinco séculos oprime e registra uma violência contra as mulheres negras de forma muito cruel. Nós, no primeiro momento, decidimos nos proteger, decidimos fazer com que a nossa vida pudesse ser protegida.”

Iêda Leal

Quando falamos em Julho das Pretas, portanto, não falamos de uma homenagem simbólica nem de um calendário comemorativo. Falamos de uma agenda política construída por mulheres negras a partir de suas experiências, formulações, territórios, memórias e lutas. O termo “pretas”, nesse contexto, é uma afirmação política de identidade, pertencimento e enfrentamento ao racismo.

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Meninas negras na Marcha do Julho das Pretas em Salvador – Foto: Anastácia Flora/Instituto Odara

Julho é mês de memória, luta e mobilização para as mulheres negras no Brasil, na América Latina, no Caribe e na diáspora. Este período reúne uma ampla agenda de atividades políticas, culturais, formativas e comunitárias voltadas ao enfrentamento do racismo, do sexismo e das desigualdades históricas que atravessam a vida das mulheres negras.

Origem do “Julho das Pretas”

Criado em 2013 pelo Odara, Instituto da Mulher Negra, em Salvador, na Bahia, o Julho das Pretas nasceu como uma estratégia de incidência política para dar visibilidade às pautas, trajetórias e reivindicações das mulheres negras. A mobilização tem como principal referência o dia 25 de julho, data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana.

Em 2026, a 14ª edição do Julho das Pretas chega com o tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, dando continuidade à Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada em Brasília, em novembro de 2025. A programação reúne centenas de atividades no Brasil e em outros países, reafirmando a dimensão internacional de uma luta que atravessa oceanos, territórios e gerações.

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Marcha Global de Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, em novembro de 2025/ Foto: Dino Santos/CUT

O 25 de julho, sendo assim, consolida-se como uma data de mobilização política das mulheres negras, voltada ao fortalecimento de suas organizações, à construção de estratégias de luta e à ampliação do debate sobre racismo, sexismo e desigualdades sociais.

25 de julho: Dia Nacional de Tereza de Benguela

No Brasil, o 25 de julho também é o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído pela Lei nº 12.987/2014. Liderança quilombola do século XVIII, Tereza comandou o Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso, e tornou-se símbolo da resistência negra, indígena e popular contra a escravidão e a violência colonial. Sua memória reafirma que as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente da luta por liberdade, território, autonomia e justiça.

Tereza de Benguela

Foto: Reprodução/Fundação Palmares

Sob sua liderança, o Quariterê manteve sistemas de defesa, produção agrícola e domínio de técnicas como a forja. Objetos de ferro obtidos por trocas, apreensões ou retirados de vilas próximas eram transformados em instrumentos de trabalho, demonstrando a capacidade da comunidade de reorganizar recursos, produzir meios de sobrevivência e sustentar formas concretas de liberdade.

MULHERES HISTÓRICAS, MULHERES QUE FAZEM HISTÓRIA

As mulheres negras sempre foram fundamentais para que o Brasil compreendesse sua própria história e que não há democracia, justiça social ou projeto de futuro possível sem enfrentar o racismo e seus desdobramentos nas desigualdades brasileiras.

A história deste país continua sendo feita e escrita por milhões de mulheres negras que vivem em diferentes territórios e frentes de atuação. São trabalhadoras, educadoras, pesquisadoras, militantes, lideranças populares, defensoras dos direitos humanos, mulheres da floresta, das cidades, dos quilombos, dos sindicatos e dos movimentos sociais.

São mulheres que não apenas preservam a memória das que vieram antes, como Tereza de Benguela, Dandara dos Palmares, Aqualtune, Luíza Mahin, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Marielle Franco, mas seguem nessa luta no presente. Suas trajetórias, saberes e posicionamentos ajudam a ampliar o debate sobre reparação, bem viver, justiça racial, democracia, território e participação política. Entre tantas vozes que constroem esse caminho, destacamos algumas histórias que expressam a força, a diversidade e a continuidade da luta das mulheres negras no Brasil.

Andrea Matos: Tereza de Benguela Como Projeto de Sociedade

Andrea Matos

Andrea Matos é mãe, feminista, química, mestre em ciências, trabalhadora da Embrapa, dirigente sindical. Atua na defesa dos direitos, da justiça social, da equidade nas relações e de um futuro sustentável para todas as pessoas. Também integra espaços nacionais de participação social ligados aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e aos direitos humanos.

Ao falar do Julho das Pretas, Andrea retoma a força histórica de Tereza de Benguela. Para ela, a liderança quilombola do século XVIII não deve ser lembrada apenas como símbolo individual de coragem, mas como expressão de uma experiência coletiva de organização política, produção, autonomia e resistência.

“É esse legado que o Julho das Pretas nos convida a celebrar. Não apenas a memória de uma mulher extraordinária, mas a permanência de um projeto político de liberdade, justiça, igualdade e bem viver.”

Júlia do Bom Destino: a militante da floresta

Júlia Feitoza, conhecida por muitos como Júlia do Acre, nasceu no seringal Bom Destino e construiu sua trajetória entre a floresta, a educação, o movimento sindical, a militância popular e a defesa da Amazônia. Ainda criança, saiu do seringal, chegou à cidade sem saber ler nem escrever e, a partir da escola, abriu caminhos que a levaram à universidade, aos movimentos sociais e à luta política.WhatsApp Image 2026 07 09 at 14.55.57 1

Militou no movimento estudantil, caminhou com Chico Mendes pelos varadouros das matas de Xapuri e do Alto Acre, participou da organização do Partido dos Trabalhadores no Acre, ajudou a fundar a CUT/Acre e integrou lutas fundamentais pela defesa dos trabalhadores, dos direitos humanos e da floresta. Atualmente, faz parte do Comitê e da Coordenação do Memorial Chico Mendes, além de atuar no Movimento Negro Unificado e no Centro de Defesa de Direitos Humanos e Educação Popular do Acre.

Para Júlia, o Julho das Pretas é um período de grande destaque, mas lembra que não se pode limitar a apenas um mês, “É um período em que se dá mais visibilidade às nossas conquistas e à nossa resistência, mas, principalmente, nos leva à reflexão de que a luta por direitos, respeito e oportunidades precisa acontecer o ano inteiro, e não só durante o mês de julho”.

Iolanda Rocha: ocupar para reparar

Iolanda Rocha

Um dos pontos centrais da agenda do Julho das Pretas é a presença das mulheres negras nos espaços de decisão. Não como favor, exceção ou símbolo, mas como condição para que o Brasil enfrente suas desigualdades de forma real.

Iolanda Rocha é pedagoga, mestra em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural, professora e pesquisadora da Secretaria de Educação do Distrito Federal, com estudos voltados ao Cerrado.

Quando questionada sobre reparação, ela aponta para uma necessidade urgente: a ocupação dos espaços de decisão, “Quando uma mulher negra ocupa um espaço de poder, ela mexe na estrutura da sociedade e abre caminhos para uma vida melhor para nós, para nossos filhos e para toda a sociedade”.

Júlia Feitoza vai no mesmo sentido. Para que mulheres negras cheguem a esses espaços, lembra ela, é preciso “empurrar as portas que nunca estão abertas”. A presença das mulheres negras na política, na comunicação, na ciência e na produção de conhecimento rompe barreiras e inspira novas gerações de meninas negras a ocuparem lugares historicamente negados.

Iêda Leal: 61 anos de história, lutas e resistência

Ieda Leal

Iêda Leal, ativista do Movimento Negro Unificado, educadora, sindicalista, ex-coordenadora nacional do MNU e ex-secretária de gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, reforça que nenhum espaço pode permanecer vazio. Para ela, a reparação histórica exige que mulheres negras estejam nas associações de bairro, nos sindicatos, nos Conselhos, nas Câmaras, nas Assembleias, no Congresso, no Judiciário e nos espaços centrais de poder do país.

“Nós precisamos ter mais mulheres nos espaços de poder. Significa que nós precisamos eleger mulheres para as câmaras municipais, para as prefeituras. Nós precisamos eleger mulheres para deputadas estaduais, federais, senadoras e, logicamente, mirando na cadeira principal do nosso país, que é a presidência da república.”

Edel Moraes: mulheres negras na defesa da vida e dos territórios

Falar de Julho das Pretas também é falar de território. “Mulheres negras, quilombolas e de povos e comunidades tradicionais são protagonistas na defesa dos territórios, liderando processos de resistência, organização comunitária e luta pelo direito à terra e pela permanência nos seus modos de vida”, afirma Edel Moraes.

Edel Moraes

A própria trajetória de Edel Moraes expressa essa dimensão. Mulher negra, marajoara, professora, líder extrativista amazônica, Edel nasceu em um açaizal no município de Curralinho, no arquipélago do Marajó, no Pará.

Sua caminhada é marcada pela defesa dos direitos das comunidades extrativistas, da educação do campo, da permanência nos territórios e dos modos coletivos de vida. Edel atuou no Conselho Nacional das Populações Extrativistas e hoje ocupa a Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável, no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Para ela, essas mulheres também estão na linha de frente no cuidado e na preservação, “São elas que, diariamente, cuidam das famílias, preservam os conhecimentos tradicionais, produzem alimentos, protegem as águas, as florestas e mantêm vivas as culturas dos seus povos”, afirma a líder extrativista.

REPARAÇÃO HISTÓRICA E BEM VIVER: O FUTURO QUE QUEREMOS

Falar em reparação, nesse contexto, é reconhecer o histórico de violência, colonização e opressão massiva na História do Brasil, que reverbera até hoje. O Estado tem o papel não só de reconhecer esse passado, mas de começar a repará-lo, levando em consideração todos os contextos e todas as realidades do povo brasileiro.

Essa reparação passa por terra, moradia, saúde, educação, memória, proteção às lideranças, trabalho, justiça fiscal, permanência nas universidades, ascensão institucional, enfrentamento à violência de gênero e raça e garantia de um ambiente saudável. Já o bem viver aponta para um projeto de sociedade construído a partir do cuidado, da ancestralidade, da coletividade, da justiça social e ambiental, da preservação da vida e da defesa dos territórios.

Dulce Maria: Reparação Como Política de Estado

Dulce Maria

Dulce Maria é arquiteta e urbanista formada pela Universidade de Brasília, professora, pesquisadora e doutora em História Ambiental. Atua nas áreas de sustentabilidade, racismo ambiental, gênero, interseccionalidades, direitos humanos, territórios, pós-desastre, pós-conflito e justiça ambiental. Seus trabalhos têm como foco grupos humanos vulnerabilizados, especialmente mulheres negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e populações atingidas por perdas ecossistêmicas.

Segundo Dulce Maria, a reparação precisa partir do princípio da reparação integral. Ou seja, não basta reconhecer a violência. É preciso enfrentar seus efeitos concretos. “O Brasil não exercitará seu potencial como nação sem a inclusão objetiva das mulheres negras, o que demanda reparação”, afirma.

Para a educadora Iêda Leal, o bem viver deve ser coletivo, “Nós não queremos só o bem viver da comunidade negra. Nós temos um projeto de vida para o país. Nós temos um projeto de vida para a América Latina. Nós temos um projeto de vida para o mundo e que começa com uma coisa que nos une, o respeito e a valorização pela vida de cada um e respeitando a individualidade, mas trabalhando no coletivo”.

MEMÓRIA E FUTURO: MARIELLE FRANCO PRESENTE!

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Que neste mês de julho, e em todos os dias, possamos nos lembrar de Marielle Franco, mulher preta que se tornou mártir da luta por direitos humanos no Brasil. Vítima de uma violência política covarde e assassina, Marielle foi executada por contrariar não apenas seus opositores, mas um sistema que, histórica e persistentemente, insiste em colocar mulheres negras à margem da sociedade.

Marielle não foi silenciada. Sua voz segue sendo a voz de milhões de mulheres. Sua trajetória permanece como levante, denúncia e força diária para o movimento de mulheres negras no Brasil.

O Julho das Pretas não se limita à celebração de trajetórias individuais. Ele afirma a força política das mulheres negras como formuladoras de caminhos para o Brasil. Das ancestrais que abriram as primeiras rotas de resistência às meninas negras que hoje ocupam escolas, universidades, ruas, redes, quilombos e movimentos, a marcha segue viva. Por elas, por nós, pelas que vieram antes e pelas que ainda virão.

Como afirma Júlia Feitoza, ainda há mudanças necessárias e imprescindíveis para o futuro das mulheres negras no Brasil. “É preciso que TODAS as mulheres tenham efetivo acesso a educação, saúde, trabalho, segurança e espaços de decisão. É urgente reforçar o enfrentamento ao racismo, ao machismo, ao gritante feminicídio, às diversas formas de violência patrimonial e discriminação que ainda fazem parte da realidade de milhares de brasileiras”.

25 de julho 1

images 1 2Maria Letícia Marques – Redatora da Revista Xapuri

NOTA DA REDAÇÃO: Esta matéria conta com a participação especial das conselheiras da Revista Xapuri: Andrea Matos, Júlia Feitoza, Iolanda Rocha, Iêda Leal, Edel Moraes e Dulce Maria. Expressamos nossos sinceros agradecimentos a essas mulheres fantásticas, que seguem mudando o mundo. Ele é bem melhor com vocês!

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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