A arte e a cultura vão curar o Brasil

A arte e a cultura vão curar o Brasil

A arte e a cultura vão curar o Brasil

E se a tentarmos olhar para além da lama que as políticas culturais do Brasil estão enfiadas?…

Por Fabrício Noronha/via Mídia Ninja

E se a partir de um exercício de pensar utopias olharmos em perspectiva para o futuro? Com as eleições que se aproximam, estamos em um momento chave da nossa história e não há nada maior em disputa que a própria ideia de país, a própria ideia da defesa do livre pensamento, da ciência, do respeito à cultura, aos direitos humanos e ao meio ambiente.

De maneira geral, em todos os espectros políticos, a arte e a cultura têm espaço periférico no debate político. Não é assim dentro da narrativa da extrema direita que chegou ao poder no Brasil. Os assuntos da arte e da cultura têm estado, de forma recorrente, no centro dos assuntos da nação, infelizmente, através de ataques, criminalização e perseguição direta à artistas, fazeres e atividades.

Não se tem, portanto, como curar essa ferida aberta sem que o campo democrático deste país entenda a centralidade e transversalidade dos processos culturais nos processos políticos. E não tem outro caminho para os fazedores da cultura, se não entender que a disputa do nosso campo é mais ampla. Diz respeito a tudo e a todos.

Para além das ofertas de editais, das disputas internas, dos segmentos e dos projetos pessoais. É a partir do mundo da cultura que se pode curar esse país do ódio e desse projeto de morte.

Essa utopia alicerçará todas as outras e para isso é preciso que o campo da cultura esteja inserido na disputa política – eleitoral e para além dela.

O processo de abandono à própria sorte na pandemia fez com que o setor amadurecesse muito nesses dois anos. Muitas organizações se formaram ou se rearticularam; centenas de grupos, Fóruns e uma luta conjunta foi fortalecida, trazendo um sentido de convergência nas pautas que uniram gestores, coletivos, entidades e parlamentares em torno de uma Agenda Nacional da Cultura.

Desta energia de luta, se construiu conjuntamente uma lei emergencial – a Lei Aldir Blanc – com seus R$ 3 bilhões, maior orçamento da história da cultura, impactando milhões de brasileiros em mais de 4500 municípios e todos os Fundos Estaduais. Essa iniciativa permitiu a recuperação de metade dos empregos perdidos na pandemia, segundo dados do Observatório do Itaú Cultural.

Juntos, puderam enfrentar, de cabeça erguida, todo o abandono do governo central; toda a dor, o negacionismo e a morte desse período tão duro da nossa história. Saímos, portanto, fortalecidos para respirar fundo e enxergar no horizonte que daqui há 6 meses teremos a certeza do retorno do Ministério da Cultura.

Que outras possibilidades utópicas se pode ter? Qual é esse Brasil que a diversidade cultural brasileira pode ajudar a desenhar? Será a partir da cultura o caminho mais curto para reconectarmos o nosso tecido social em torno da democracia e da liberdade.

No meio do caminho temos um processo eleitoral duro e que vai depender muito da cultura. Os artistas têm um papel importantíssimo nisso, pela sua especial capacidade de agregar e engajar. Foi a partir de uma campanha orgânica de artistas e influenciadores que teremos na próxima eleição mais 2 milhões de jovens eleitores (16 a 18 anos), 47% a mais se compararmos com 2018, resultado da ação direta de centenas destes.

No discurso de lançamento da sua candidatura ao Palácio do Planalto, no último dia 7 de maio, o ex-presidente Lula deu pistas de que está antenado a isso e do que está imaginando para sua gestão na cultura: “A arte preenche nossa existência. Ela é ao mesmo tempo capaz de retratar e reinventar a realidade. A vida como ela é, e como ela poderia ser. Sem a arte, a vida fica mais dura, perde um dos seus maiores encantos. Por isso, nós vamos apostar muito na cultura e transformar a cultura numa indústria de fazer dinheiro e gerar emprego nesse país, para o povo viver dignamente.”

Esse é um recado claro de atualização de discurso que sintoniza o papel da arte nessa reconstrução. O Brasil poderá sonhar com uma política pública da cultura condizente com o seu tamanho e importância para o mundo. Consequência, ainda, de avanços e dos laços que os movimentos sociais da cultura souberam articular, mesmo no momento de total paralisia.

Isso precisa significar mais investimentos e orçamento federal para a cultura, que recuou 46,8% entre 2011 e 2021. Significará uma legislação clara e desburocratizada que dê conta das particularidades do segmento cultural, que garanta e amplie o acesso. Além, claro, do fortalecimento e implementação do Sistema Nacional de Cultura, descentralizando recursos a estados e municípios – como foi exercitado na Lei Aldir Blanc – e se tornará perene na segunda versão da Lei, com R$ 3 bilhões anuais.

Esse pode ser parte do orçamento para as utopias possíveis que estão por vir. Seria impossível imaginarmos tudo isso, sem todas as experiências e acúmulos do campo da cultura durante a pandemia.

A Câmara Federal debate o PL do Marco Regulatório da Cultura, e tudo indica que o Congresso irá derrubar os vetos à Lei Paulo Gustavo e à Lei Aldir Blanc 2 ainda esse mês.

Com planejamento e escuta – e a vitória no processo eleitoral – estaremos diante de vindouros anos das políticas culturais deste país. O Brasil ainda sabe pouco do poder de transformação e formação cidadã que a cultura tem – mas saberá! A arte tem um papel fundamental na reconstrução desse país.

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação. 

Resolvemos fundar o nosso.  Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário.

Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Já voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir.

Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. A próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar cada conselheiro/a pessoalmente (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Outras 19 edições e cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você queria, Jaiminho, carcamos porva e,  enfim, chegamos à nossa edição número 100. Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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