A BIOGRAFIA DO POETA MIRÓ DA MURIBECA

A biografia do poeta Miró da Muribeca

Miró da Muribeca é muito bom poeta, ponto. E ganhou a sua primeira biografia

Por Urariano Mota/Brasil 247

“Acho que foi a primeira vez que conheci a dor 
Um domingo de 1971 
Naquele tempo o domingo era o dia mais feliz, 

lata e Q-suco 
Ficávamos brincando de mostrar a língua vermelha 
Pra provar que éramos felizes… 

Que me deu um branco aos 11 anos 
Quando me pediu um biscoito maizena e um 
gole de fratele vita … 
Domingo era o dia mais feliz 
Antes de Norma beijar um outro na boca.” 
Aquelas coisas mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo louco, arrebenta de si. Mais do que escrever, por vezes transcreve. Com uma sensibilidade que observa o inobservável. Este poema a seguir não precisa da performance do poeta no palco. Basta a sensibilidade do leitor. 
“Deus, Tu que agora carregas um homem, 
Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns 
sacos de cimento 
De cada lado um sol insuportável … 
Deus, Choves agora no meu coração 
Para que eu não pense em comprar um 
guarda-chuvas de balas 
E fazer justiça com as próprias mãos.”
Na biografia bem pesquisada por Wellington de Melo, entre depoimentos sobre as quedas do poeta no alcoolismo, aparece um Miró que fala um retrato da sociedade de classes por toda a sua vida. Na altura dos seus 22 anos de idade, isso se deu, conforme publicado no livro:  
“ – Quando eu publiquei um poema no jornal dos funcionários da Sudene, saiu meu nome e a sigla de onde eu trabalhava, DSG, Departamento de Serviços Gerais. O filho da puta do meu chefe, seu Fernando, chegou na fila para bater cartão e perguntou:
‘Quem é João Flávio?’. Eu disse: ‘Sou eu’. ‘Sente aqui. Olhe, a gente não quer ninguém daqui metido com o pessoal lá de cima. Vocês são serventes’. ‘Mas eu sou poeta, sou escritor’, eu disse. Levei três dias de suspensão. Falei para Wilson (poeta Wilson Araújo de Sousa), e ele falou com Maria do Carmo (poeta Maria do Carmo Barreto Campello de Mello), que me resgatou e me colocou um mês para trabalhar na sala dela, fazendo nada. 
O episódio bate com o relato que eu ouvira de Maria do Carmo, que afirmou tê-lo colocado sob suas asas para que ninguém o perseguisse. No entanto, em conversa com o filho da poeta, o médico Paulo Barreto Campello, descobri que a perseguição vinha de antes da publicação: 
– Não queriam publicar o poema de Miró no jornal, porque ele era faxineiro. Minha mãe então falou com o superintendente, dizendo que, se não publicassem, ela iria à imprensa”.  
Há um outro momento da biografia que lembra os dias de Lima Barreto no hospício. Houve uma vez em que os psiquiatras receberam o imenso Lima Barreto, e escreveram incrédulos e zombeteiros no seu prontuário: “diz-se escritor”. É incrível e sintomático da sociedade brasileira, que de modo semelhante isso ocorreu com Miró. Está no livro: 
“Quando Wilson falou pela primeira vez com os médicos do Alfa, um deles relatou que estavam pensando em chamar um acompanhamento psiquiátrico.  
‘Ele está alegando que é poeta, mostrando um comportamento estranho, recitando uns poemas’, informou a médica. ‘Você sabia que ele é um dos grandes poetas de Pernambuco?”, perguntou Wilson. ‘É?’, perguntou surpresa a médica”. 
Não fosse a rede de apoio dos amigos e admiradores, o poeta Miró teria morrido muito antes dos quase 62 anos de idade. Ele, à semelhança do outro gênio Noel Rosa, teria vivido menos que um sopro. Certa vez, ele chegou a falar: 
– Você sabia que tem uma bolsa de apostas no Recife para saber quando eu vou morrer?
Não acertaram o dia. Mas em 31 de julho de 2022 o poeta faleceu. No texto de Wellington de Melo, lemos: 
“Adroaldo, sempre uma fortaleza de cuidado, um porto seguro emocional para Miró, também fez um relato tocante: 
– No meu plantão ele falou que estava morrendo. Saí do quarto para chorar. Não queria fazer isso na frente dele”. 

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O seu encanto e feitiço vinham e vêm da união de Poesia e Verdade, como falava Goethe. Para o Brasil que ainda não o conhece, Miró aparece aqui em um dos seus vídeos:  
 

Miró da Muribeca não precisa mais dos qualificativos “preto e pobre”, que na sociedade de classes e racista são desqualificativos. Guardadas as diferenças, seria qualificar de maneira semelhante Machado de Assis e Cruz e Sousa. Eles são grandes escritores, ponto. Portanto, Miró da Muribeca é muito bom poeta, ponto. E ganhou a sua primeira biografia. 
MIRO DE MURIBECA
A biografia do poeta Miró da Muribeca – Foto: Reprodução/Facebook

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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