A casa que nos acolhe e nos molda
Quem já navegou pelos rios do Alto Juruá no Acre sabe bem como são comumente as casas dos ribeirinhos. Madeira serrada, coberta de telhas de alumínio, muitas das vezes com uma cozinha anexa feita de paxiúba e coberta com palha de jaci ou caranaí1. Ao sermos convidados a “subir”2, tiramos os chinelos, lavamos os pés melados no vaso com água que está no trapicho3.
Tatiane Silva Sousa/Varadouro
dos Varadouros de Cruzeiro do Sul
A mim, me parece bem característico a afabilidade e hospitalidade dos moradores e moradoras da Reserva Extrativista (RESEX) Riozinho da Liberdade. Mesmo um desconhecido é recebido com aquilo que de melhor há na culinária local: beiju, tapioca, beléu, pupunha com café, carne de caça no leite do cocão da mata4. Ao partir, certamente levará em sua mala um pedaço da gastronomia daquele lugar acolhedor.
Foi esse território com jeitinho de casa que me acolheu há quase oito anos atrás. Sou filha de um ribeirinho do nordeste do Pará com uma mulher preta da periferia de Belém, vivi migrando entre Rondônia e Pará, e há alguns anos entre Acre e minha terra natal. Certamente, a forma como cresci e fui moldada direcionaram meu olhar para este lugar específico, o rio Liberdade.

Para minha surpresa, fui tão bem recebida que cá estou até hoje. Me diziam: “Quem bebe água do Liberdade, nunca mais vai embora!”. E certamente, também há afirmações correlatas para o sinuoso Juruá aqui na sua princesinha.
Ao ser convidada por Fabio Pontes para escrever pro Varadouro, senti que deveria compartilhar com quem me lesse um pouco daquilo que também foi compartilhado comigo nos seringais do rio Liberdade. Transitar entre suas comunidades, contar aquilo que ouvi e me foi ensinado. Honrar a memória dos mestres professores e professoras da floresta que tive e que já partiram.
Assim, compartilhar a casa que me acolheu e que de pouquinho em pouquinho, foi moldando parte do que sou hoje. Da caça à agricultura, dos “causos” à política, numa casa às margens do rio pode se discutir e contar sobre os mais variados assuntos.

Pode ser que você me acompanhe com uma faca empunhada em mãos para “raspar” mandioca no roçado, ou então estejamos na varanda à noite ouvindo causos de “batedor” e “caipora”, pode ser também que eu lhe apresente um velho amigo ou amiga mestre(a) da floresta, a trajetória de resistência de alguma liderança, ou lhe conte algo que poucos conhecem por ser muito particular deste território.

Inspirada nas histórias do finado mestre arigó Manoel Ferreira de Souza, mais conhecido no rio Liberdade como Nem Soares, o qual chegou aos seringais do Alto Juruá logo após a segunda guerra mundial, período em que o Estado passou a subsidiar a economia extrativa da seringa, dizia então aos meus alunos e alunas enquanto educadora popular:
“A casa dessa tradição não tem linha de embaúba, nem seu caibro é de periquiteira da capoeira fina! As palhas que lhe cobrem o telhado foram tecidas com as mãos Santas dos antigos” (Sousa et. al 2025).
Acredito que a melhor forma de ensinar não é através do discurso, da narrativa, apesar de me valer dela e entender sua profunda importância. Sobretudo, ensina-se através do exemplo.
Assim, esta coluna é acima de tudo, minha tentativa de sempre honrar a memória dos antigos. Por fim digo, aqui nesta casa servimos café com tapioca e esperamos com sinceridade que apreciem nossas histórias.

- Palmeiras amazônicas comumente utilizadas no extrativismo local para construção. A madeira da paxiúba (Socratea exorrhiza) é usada para assoalhos e as palhas do jaci (Attalea butyrace) e caranaí (Lepidocaryum tenue) para telhados. ↩︎
- Expressão utilizada para convidar quem chega a entrar na casa. De fato você irá “subir”, dado que comumente as casas são altas em relação ao nível do solo, construídas com barrotes que a sustentam e trapichos na entrada. Deste modo, tornam-se adaptadas ao regime de cheias e vazantes do rio. No inverno, permite certa distância da água e no verão, a casa torna-se ventilada por conta das frestas entre as tábuas do assoalho. Esta arquitetura é típica ribeirinha. ↩︎
- Assumo o termo trapicho e não trapiche pois é assim que pronunciamos a palavra no Alto Juruá. ↩︎
- Cocão (Attalea tessmannii) é uma espécie de palmeira endêmica do Acre muito utilizada no extrativismo local, principalmente como carvão e na culinária a partir da produção de óleo e leite. ↩︎