A CHACINA DO RIO: PATINS, DOR E INDIFERENÇA
Minha filha tem aulas semanais de patins — um esporte radical que deixaria seus avós ainda mais aflitos, se isso fosse possível. De vez em quando, ela chega em casa com hematomas pelo corpo e um sorriso nos lábios, afirmando não sentir dor alguma. Mas, na última quinta-feira, foi diferente
Por Geraldo Lopes de Souza Jr
Ela chegou chorando, com uma grande dor no peito. Pensei que tivesse tentado realizar alguma manobra difícil sem sucesso. Perguntei onde doía e ela, aos prantos, respondeu:
– A dor é no coração, papai. Minha instrutora de patins, a quem tenho em grande estima, ao comentar a chacina do Rio, disse que era totalmente indiferente ao caso.
Minha filha, que sempre viu sua instrutora como uma mulher forte – uma patinadora que quebrou tabus, enfrentou uma sociedade conservadora e se tornou um símbolo de rebeldia a ser seguido – se decepcionou profundamente.
– Pai, como ela pode ser indiferente? A vida não é o bem mais precioso? Ela é cristã! O que Cristo faria? Será que Ele acharia certo matar ou ser indiferente?
Fiquei em silêncio. Olhei para ela – o rosto ainda molhado de lágrimas, as joelheiras pendendo dos ombros. Senti, então, o peso de um tempo em que a dor alheia virou ruído de fundo.
Como explicar a uma adolescente que a indiferença virou moda? Que “bandido bom é bandido morto” virou slogan de governo? Que a lucidez agora é um esporte radical – e sem capacete? Dane-se o mundo que eu não sou Raimundo?
A BARBARIDADE
O que aconteceu no Rio não é novidade – e talvez isso seja o mais triste. Há décadas, as chacinas se repetem como se o país tivesse perdido a capacidade de aprender com o próprio horror.
Em 1993, os tiros da Candelária silenciaram oito crianças que dormiam nas calçadas do Centro. Pouco depois, em Vigário Geral, vinte e um inocentes foram fuzilados enquanto jantavam, rezavam, tocavam violão.
Nos anos seguintes, em Nova Brasília, em 1994 e 1995, o Estado entrou atirando e deixou corpos e órfãos espalhados pelo Alemão.
Veio a Baixada, em 2005, com vinte e nove mortos numa só noite – recorde de brutalidade e covardia.
Depois, o Jacarezinho, em 2021, com vinte e oito corpos num beco onde moravam sonhos.
E o Salgueiro, no mesmo ano, onde nove vidas foram retiradas do mangue como se não fossem vidas.
Muda o nome da favela, mas o roteiro é o mesmo: a polícia entra, o governo aplaude e o povo enterra seus filhos. Enquanto isso, os verdadeiros chefes do crime, de terno e gravata, aliados de alguns governos, seguem com o sangue limpo nas mãos bem lavadas – e a consciência esterilizada. Esses bandidos não são bons, por isso não são mortos.
Durante e depois da chacina, a comunidade fica em suspenso – como se o ar ficasse mais pesado e o tempo parasse. As portas se fecham cedo, as crianças faltam à escola, os hospitais e postos de saúde adoecem, os comércios abaixam as grades antes do pôr do sol. O barulho dos helicópteros substitui o canto dos passarinhos, e os tiros ecoam na memória mesmo quando o silêncio volta.
Os moradores, que já vivem com pouco, passam a viver com mais medo. O menino que jogava bola na rua agora não sai mais de casa. A mãe que vendia quentinhas perde o sustento porque a polícia “ainda não liberou a área”.
A aprendizagem do medo se dá até nas creches. A neta de 3 anos de um morador da favela, quando um carro passou na rua com o tubo de escape furado disparando uma sequência de rajadas, atirou-se no chão gritando: – Tiro, tiro.
E o luto se espalha sem cerimônia – não há velório, não há tempo, não há justiça. Mas a violência não brota do chão – ela é plantada. A falta de escola, de emprego, de moradia digna e de lazer são sementes férteis para tragédias. Quando o Estado desaparece das políticas públicas e aparece apenas de farda e fuzil, ele ensina que o medo vale mais do que a esperança.
Mas há algo mais profundo, invisível, sustentando essa indiferença. Talvez tudo isso tenha relação com o que os psicólogos chamam de Teoria do Gerenciamento do Terror – a ideia de que, diante da lembrança constante da morte, as pessoas se agarram às suas crenças, ideologias e símbolos para tentar se proteger do medo.
Assim, o horror da violência não gera empatia, mas reforça fronteiras: o “nós” e o “eles”, o “cidadão de bem” e o “bandido”. É um escudo psicológico: ao ver a morte do outro, fingimos estar mais vivos. Ao negar a humanidade de quem sofre, acreditamos preservar a nossa.
E o governo do Rio acha que vai resolver tudo isso matando. Ou finge achar. Porque é mais fácil vender segurança do que construir justiça. Mais rápido mandar o caveirão do que reformar a escola. Mais barato enterrar meninos do que garantir que tenham um futuro.
E, como se não bastasse o descaso oficial, há ainda quem transforme a ignorância em espetáculo. Influenciadores sem conhecimento científico, social ou humano — como o ignóbil Arthur do Val, ao afirmar que “a criminalidade é culpa da mãe do criminoso” – multiplicam preconceitos e desumanizam quem já nasceu à margem. Suas palavras, ditas com o verniz da irreverência, alimentam a crença de que pobreza é pecado e a violência, castigo. Assim, colaboram para a chacina mais silenciosa de todas: a da lucidez.
Diante de tanta repetição da dor, talvez o mais grave não seja a violência em si, mas o que ela tem feito conosco – o esvaziamento do sentir.
O SENTIMENTO
Parece que o Brasil desaprendeu a sentir.
Vivemos um tempo em que a dor precisa de audiência para ser reconhecida. O sofrimento, se não viraliza, não comove. A tragédia precisa de trilha sonora e legenda indignada para – quem sabe? – durar até o próximo clique.
A empatia virou um luxo de quem ainda pode parar para pensar. E a comoção, um produto que se consome antes do jantar.
Mas a dor – a verdadeira dor – não se mede em curtidas nem em manchetes. Ela mora nos becos onde a bala perdida sempre acha um corpo. Nos olhos de quem enterra um filho e volta pra casa com a roupa coberta de pó e silêncio. Mora, também, nas perguntas de uma menina que ainda acredita que o amor é o centro do mundo – e se espanta ao ver adultos tratando a vida como descartável.
Quando minha filha me perguntou como alguém podia ser indiferente, pensei em responder com teorias, com política, com filosofia. Mas percebi que tudo o que eu precisava dizer cabia num gesto simples: abracei-a. E, naquele abraço, compreendi que talvez amar seja o último ato de lucidez possível num país que banalizou a barbárie.
Porque o dia em que o amor deixar de doer, meu caboco, será o dia em que deixaremos de ser humanos. E talvez, até lá, o melhor que possamos fazer seja continuar tentando manter o equilíbrio –mesmo que o chão seja áspero.

Geraldo Lopes de Souza Jr. – Estatístico e Cronista em Taquiprati. Capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil.