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A cupinização do Pantanal

A cupinização do Pantanal

O acúmulo de pequenas decisões pode gerar o colapso do Pantanal. O alerta feito por pesquisadores brasileiros em carta publicada na revista BioScience aponta para essa possível crise. Os quatro autores do documento consideram que “ainda há esperança”, mas apontam que algumas ações, como construção de barragens e dragagem nos rios pantaneiros, podem trazer danos irreversíveis.  

Por Raquel Alves/Ecoa

O Pantanal e as águas

A relação do Pantanal com a água é essencial para seu funcionamento. Segundo pesquisadores, a instalação de pequenas e grandes barragens na bacia do alto rio Paraguai ameaça a vida e dinâmica do Pantanal.  

Nos últimos 20 anos, empresas privadas e o governo construíram 50 barragens na região. Dessas, sete são de grande porte, 24 de pequeno porte e 19 possuem capacidade de cinco megawatts ou menos.   

Barragens alteram o fluxo de sedimentos e assim modificam o suprimento de nutrientes que entra no Pantanal.  Segundo especialistas, isso pode diminuir o tamanho dos peixes assim como a quantidade de espécimes.  

As barragens também afetam a migração dos peixes para a reprodução. Essas modificações afetam uma série de agentes em cadeia. Os peixes são a base de sustento de algumas famílias, além disso são o alimento de outros animais, como as aves. A falta de nutrientes também impacta a flora, já que gramíneas nativas são impedidas de crescer, o que também afeta outras espécies que se alimentam da vegetação. 

“O Pantanal é um dos poucos biomas de grande escala, dentro ou fora do Brasil, onde o desenvolvimento econômico sustentável, seja pecuária ou pesca comercial, pode prosperar ao lado da conservação da biodiversidade. Mas as mudanças de uso da terra que ocorreram no bioma nas últimas duas décadas, principalmente o represamento dos rios da bacia do alto Paraguai para hidrelétricas, juntamente com as secas e os incêndios recordes do Pantanal em 2020, alteraram a dinâmica natural do bioma e agora ameaçam sua sobrevivência”, afirma Rafael Chiaravalloti, diretor científico da Ecoa e coautor da carta para a BioScience.  

Outros riscos

Outra ação que ameaça o Pantanal é um projeto da Hidrovia Paraná Paraguai, que exigiria a dragagem de 1.272km para viabilizar o transporte de barcas de soja e milho. Tal projeto retilinizaria o sinuoso curso do rio Paraguai, acelerando assim seu fluxo e diminuindo suas inundações sazonais, o que é primordial para a dinâmica da região. 

“Como as inundações de nutrientes e sedimentos são a fonte da vida do Pantanal, a diminuição das inundações causadas pela hidrovia planejada ameaçaria toda a biodiversidade”, afirma Chiaravalloti. 

Além dos riscos dos projetos de infraestrutura, como barragens, hidrovias e portos, também há preocupação com o fogo. As mudanças climáticas possuem efeito sobre o Pantanal que se reflete nas secas e incêndios florestais. Em 2020, o fogo queimou 26% do Pantanal brasileiro. Em 2021 a região perdeu mais 12,6% de sua área.  Os incêndios florestais estão relacionados com as mudanças climáticas e com a ação de pecuaristas e fazendeiros da região que utilizam o fogo para limpeza de pastos. 

Todas essas ações ao serem colocada em conjunto contribuem para o que Rafael Chiaravalloti chama de “cupinização” do Pantanal.  “Pequenos buracos espalhados vão sendo feitos sem que nos demos conta do dano real em uma visão superficial. Se nós não cuidarmos de olhar as coisas em detalhe, esses ‘buracos’ se tornam tão numerosos que podem levar o Pantanal a um grande risco”, explica o pesquisador.  

Raquel Alves – Jornalista. Fonte: Ecoa. Foto: Arquivo Ecoa. Este artigo não representa a opinião da Revista e é de responsabilidade do autor.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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